Juliano Nunes Quineper, formado em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas em 2010, participou de um processo seletivo, que ocorre anualmente na Marinha do Brasil, para concorrer à vaga de médico da Estação Antártica Comandante Ferraz. Ficou na Antártica de novembro de 2014 até novembro de 2015.

Quineper deu dicas de cuidados com a saúde que os candidatos a explorar o local mais inóspito do planeta precisam tomar antes de embarcar nessa aventura, além disso também contou como funciona a atual infraestrutura de tecnologia da estação Comandante Ferraz, o local onde se hospedam os pesquisadores e militares que executam trabalhos na Antártica.

Confira a entrevista:

Quais são as principais preocupações médicas na Antártica?

As preocupações médicas são basicamente preventivas. O médico, através de treinamento específico, pode prever situações e/ou eventos que podem desencadear lesões inerentes às atividades desenvolvidas na Antártica e atua nesse sentido, ajudando a evitar que ocorram, com atividades de educação (palestra de boas-vindas, ilustrando os principais eventos de saúde que ocorrem/ocorreram na Estação) quando do embarque de pesquisadores na EACF (Estação Antártica Comandante Ferraz), por exemplo

Saúde mental é realmente um fator-chave num ambiente inóspito?

Talvez esse seja o principal fator para conseguir permanecer na Antártica tanto tempo, isolamento, as condições de luminosidade afetam muita nossa saúde mental.

Existe cooperação com os médicos de outras bases de pesquisas (outros países)?

Existe sim. Quando o médico brasileiro assume a enfermaria da EACF, ele faz contato por e-mail e por telefone com os médicos de algumas estações vizinhas: Base Aérea Chilena Eduardo Frei Montalva, Paramédico Polonês, Médico Russo da Estação Bellingshausen, que são as mais próximas e com médicos o ano todo.

Algum caso o marcou?

Tive um caso, durante o inverno, em que foi solicitado auxilio, por parte do Paramédico Polonês, para atendimento de um membro da Estação Polonesa com dor precordial (um possível infarto do miocárdio – em junho, julho …) Durante a travessia de bote da baia do Almirantado, para ir à Estação polonesa para o atendimento, as condições climáticas sofreram uma mudança drástica e, por pouco, não passamos sufoco.

Como funciona a rotina dos médicos na Antártica?

Os atendimentos se dão por livre demanda, com as pessoas procurando o médico conforme suas necessidades.

Como era formada a equipe de saúde na estação? Quais funções e quantas pessoas?

O grupo-base, é o grupo formado por militares da marinha do Brasil que guarnece a EACF por um período de aproximadamente 13 meses. É composto, atualmente, por 15 militares de diversas especialidades que têm como missão essencial manter os Módulos antárticos emergenciais em pleno funcionamento para o “verão Antártico” (período no qual ocorrem as pesquisas e o grande movimento no continente). A equipe de saúde é composta por um único profissional médico. Para o próximo ano, está previsto ser adicionado ao grupo-base mais um componente, sendo uma praça enfermeiro da Marinha do Brasil (técnico de enfermagem).

Como você lidou com a comunicação restrita com o ambiente externo (família, amigos e notícias aqui do Brasil)?

Atualmente não temos comunicação restrita na Antártica. Os módulos antárticos emergenciais, construídos após o incêndio de 2012, contam com duas antenas da empresa OI, que permite ligação para os familiares no Brasil e, além disso, possuímos sinal de internet e televisão (dentro da Banda de internet) tendo acesso ao canal globo internacional e, claro, vídeos de Streaming como Netflix e Youtube. Durante mais de 365 dias que permaneci na Antártica, tivemos somente um dia, aproximadamente 24 horas, sem contato externo, em virtude das más condições meteorológicas.

Quais conselhos médicos você daria para alguém que está se preparando para ir para Antártica?

Primordialmente a pessoa que está intencionando ir para qualquer local de área remota, caso da Antártica, deve fazer um check-up de saúde completo e, além disso, verificar suas condições para ser exposta a baixas temperaturas e aumento de esforço físico, pois caminhar na neve fofa, por exemplo, aumenta nosso esforço. Se a pessoa for portadora de doenças crônicas, como por exemplo hipertensão arterial sistêmica ou diabetes mellitus, ela deve levar medicações suficientes para o período que permanecerá na Antártica com uma sobra considerável. Aconteceu uma vez de um pesquisador não conseguir retornar ao Brasil dentro do prazo programado em virtude de condições meteorológicas desfavoráveis e ficou sem as medicações por quase 15 dias.

*fotos do arquivo pessoal de Juliano Quineper. 

 

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