Roteirista e professor da área, Tiezzi conta a sua trajetória e como seguir esse caminho de escritor audiovisual

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REPORTAGEM: Helena B Lorga

 

Graduado em Jornalismo pela PUCSP, Ricardo Tiezzi trabalhou na área até descobrir a sua vocação em roteiro. Resolveu entrar em um curso de extensão na USP, chamado “Roteiro para Cinema e TV”. Depois fez na FAAP, já como professor, uma especialização em “História da Arte”, concluindo com uma monografia na matéria de “Literatura de narrativa”.

Seu mestrado, também na própria PUC, foi em “Ciências da Religião”, porque queria estudar o filme “O Anticristo”, de Lars Von Trier, que tem uma narrativa profana. Seu interesse era se aprofundar em como certas histórias têm narrativas religiosas. Isso contribuiu para um grande conhecimento em cinema e filosofia.

Durante a sua carreira de roteirista, começou na série “Mano a mano” (RedeTV!). Depois passou por vários programas e emissoras, como: na novela infantil “Floribella” (Band), “Café Filosófico” (TV Cultura), “Mothern” (GNT), na série infantil “Júlia e os fantasmas” (Band/Nickelodeon), além de várias temporadas de “Malhação” (Rede Globo). Escreveu três longas-metragens: “O gato vira-lata”, “Super Pai” e “O outro lado do Paraíso”.

Mais tarde, resolveu dar aulas na “Academia Internacional de Cinema” (AIC) e em uma escola que não existe mais, chamada “Gafanhoto”. Atualmente dá aulas na “Roteiraria” (que fica na Av. Paulista) e na pós-graduação em “Roteiro para cinema e TV”, na FAAP.

 

    1)  Como surgiu a sua vocação para roteiro?

A minha a minha formação acadêmica é em jornalismo, no qual trabalhei por um tempo e até curti a profissão. Mas eu sentia que faltava alguma inspiração criativa no trabalho com o texto. Era difícil, porque no meu caso demorei para descobrir a minha verdadeira vocação. Durante muito tempo passei por redação de jornal diário, de revista, mas sempre com uma certa inquietação: “será que eu quero isso mesmo? ”.

Minha vocação de roteirista apareceu aos 30 anos. Foi aí que percebi: “Olha, eu gosto muito de cinema, esse é o meu mundo”. Comecei a investigar o lado do roteiro, lendo os livros do Doc Comparato e Jean-Luc Garnier. Foi um risco sair do jornalismo, um lugar que eu já estava mais ou menos acostumado, e trocar de profissão, mas acho que valeu muito a pena!

Tendo tomado a decisão, tendo consciência de que era isso mesmo que eu queria, eu fui primeiro estudar. Roteiro é difícil, porque não tem nenhuma faculdade específica, mas na USP tinha um curso de extensão. Eu estudei lá e investi bastante em estudo, ao mesmo tempo em que procurava um lugar para entrar no mercado de trabalho.

 

    2) Mas valeu a pena ter feito jornalismo?

Sim, o jornalismo foi muito bom, pois além de gostar do texto, também foi importante para aprender a ter contato com as pessoas nas entrevistas. Até hoje, no roteiro, a pesquisa é de suma importância. Trazer o elemento de realidade para dentro da criação é essencial. Percebo uma diferença muito boa nos meus alunos que são graduados em jornalismo, pois eles têm uma relação muito forte com o concreto, com o real, e isso ajuda a dramatizar a realidade.

 

    3) Quais são as características necessárias para se tornar roteirista?

O roteirista tem que ter muita curiosidade por tudo o que nos constituem como seres humanos. As pessoas, como elas agem, como elas pensam e sentem, como as coisas funcionam, enfim, tem que ter uma grande empatia. Eu acho importante, pois é algo muito particular, ter menos julgamento, como se isso é certo ou errado, se a pessoa deveria ter feito assim ou assado. O certo é ter mais poder de observação para ver a riqueza do mundo. Olhar como as pessoas pensam e agem, com curiosidade, mas também com o olhar desarmado, sem ficar julgando o tempo todo.

A outra é a questão da carreira específica que muitas profissões têm, como jornalismo, medicina, engenharia, etc. Exatamente por roteiro não ter, muitos acham que escrever roteiro é aprender fazendo. E isso vem da nossa tradição de escrita da TV aberta. Muitos acham que apenas assistir aulas e praticar, uma forma empírica de aprender, já basta.

Porém, com a chegada da TV fechada e as séries, houve uma exigência maior para os produtos finais de ficção. Por isso, uma das características é o aperfeiçoamento de mim mesmo. Tem que estudar roteiro, que vai te levar a estudar dramaturgia, depois a narrativas e a filosofia. Mesmo porque o roteirista pode se interessar em entender o porquê que certas histórias foram contadas em determinadas épocas, além de outras premissas e maneiras de contar.

Muitos acham que um curso vai dar conta de tudo, quando, na verdade, é um estudo para a vida inteira. É uma entrega total, não é uma coisa que se faz mais ou menos, não se faz como hobby. E, claro, manter sempre a curiosidade sobre o mundo e as pessoas.

 

    4) Além do cinema, em quais outros campos de trabalho o roteirista pode trabalhar?

Há algumas décadas, a TV aberta era muito dominante.O cinema no Brasil, apesar de sair de um período de crise, está em progressão e mudou muito nesses últimos dez anos (que corresponde desde o ano 2008). Hoje o cinema se consolidou, o número de filmes brasileiros que se produz por ano é bastante razoável, é uma indústria sólida.

Com a TV fechada, veio a fase do “vamos tentar produzir para ver o que é que dá”. Depois veio a fase da Lei das Cotas, que as TVs fechadas têm que colocar uma cota mínima de programação nacional. Isso foi bom, porque gerou toda uma indústria audiovisual brasileira. Tem muita série brasileira acontecendo.

E agora, com a chegada do Netflix, Amazon e a própria Globoplay, as séries on demand estão se consolidando. É um terceiro canal, um setor que não teve crise nos últimos anos, pelo menos em relação ao tempo em que era tudo muito mais difícil.

Por exemplo, essa série que escrevi para o canal GNT, “Modern”, era praticamente a única série de tele ficção que tinha na TV fechada. Hoje, quase todos os canais têm e o mercado está aquecido. A hegemonia continua na TV Globo, mas atualmente existem mais mercados.

 

     5) Tem mais algum outro campo de trabalho além de séries e cinema?

O que eu mais conheço é o campo da ficção, mas também há trabalhos no campo da não ficção, como: variedades, documentários, talk-show, sitcom, reality shows. Todos eles têm roteiro. O próprio “Café Filosófico”, que foi o único de não-ficção que eu trabalhei, demanda roteirista. Não é muito à toa que as salas de aulas estão bem cheias. Claro que é difícil conseguir, mas tem muito roteirista fazendo quatro ou cinco coisas ao mesmo tempo.

 

    6) Caso o roteirista queira trabalhar como autônomo, o que ele precisa fazer?

Como autônomo, ele tem que ter muita disciplina. Diferente de trabalhar em uma redação, ele tem o seu próprio “timing”. Ele trabalha a maior parte do tempo em casa, não tem nenhum editor, nenhum produtor por perto. Ele tem que ter um senso de auto responsabilidade.

Por exemplo: tem dois meses para entregar um roteiro, não dá para ser “Ah, então vou ficar sem fazer nada durante um mês e meio e deixar para a última hora”. Porque a pessoa fica em casa e parece que muda a cabeça e relaxa. Mas não, o roteirista tem que ser disciplinado em casa, ou ir a um Café onde ele gosta de trabalhar e ter um senso de rotina igual. Produzir o que for necessário, discutir com os produtores, entregar as demandas, enfim, ter senso de responsabilidade.

É uma profissão livre, não tem ninguém vigiando e isso é maravilhoso, mas precisa ser confiável e se autovigiar. É uma virtude saber que está tomando conta de um negócio importante para muita gente. Muitos não vão bem como autônomo, porque precisam de um atestado para produzir. Acostumaram-se em um paradigma de empregado e funcionário. Para o roteirista autônomo, as coisas não funcionam assim. A rotina é diferente.

 

    7) Como conseguir contatos?

Uma vez perguntaram para o Pedro Almodóvar, cineasta que admiro muito: “Como você faz para conquistar o seu espaço nessa carreira? ”. Ele deu o seguinte conselho que eu acho brilhante: seja uma pessoa legal!

Legal não significa dizer amém para tudo e nem defender o que você acha ser o certo, mas as relações humanas são importantes e as pessoas lidam com ideias. Às vezes a pessoa dá uma ideia e a outra pessoa detona, como se a ideia fosse algo insignificante, mas na verdade não é. É a autoestima do indivíduo que está em jogo. As pessoas estão sempre muito expostas quando o roteiro delas é lido. Há outras maneiras mais suaves de contestar, ou de propor outros caminhos e de conversar, além de que tem que convencer o outro de suas ideias.

Muitos trabalhos são feitos em salas de escritores, que ficam trancados diariamente, das 10h da manhã até às 18 horas. Convivem mais uns com os outros do que com a própria família. É fácil se desentender, é normal a diferença criativa, mas se a pessoa tiver uma personalidade flexível, aberta, saber ouvir, prestar atenção no outro e respeitá-lo, isso é valor. Não está no currículo, mas é muito importante.

Eu sempre digo para os meus alunos: para entrar no projeto, tem que terde base três coisas:

  • A formação
  • O que ela já escreveu e produziu
  • As virtudes pessoais (disciplina, organização, bom convívio, flexível na medida certa, confiável, respeitável, criativo etc.).

Esses três elementos constroem a reputação e, automaticamente, atraem os contatos. Aí sim, depois disso, é que a rede de contatos é fundamental na vida profissional.

 

    8) Além de contatos, há outras formas de conseguir trabalho?

Outra porta que existe é o edital: tem muitos editais, inclusive houve, pelo menos até agora, alguns editais de desenvolvimento de roteiro.

As produtoras precisam de projetos para concorrer nos editais, para tentarem vender para produtores, e os roteiristas podem muitas vezes suprir com esses projetos. Às vezes surgem “pitchings”, que é quando a emissora ou a produtora chamam roteiristas para expor suas ideias e projetos. Deveria ser muito maior do que é, ser muito mais constante e diário.

Eu acho que ter um projeto ou mais de um é muito bom, ainda que para concorrer para mostrar serviço. Mesmo que não consiga vender, o que é bastante raro, demora um pouco para o seu projeto pessoal vingar, pelo menos o sujeito se apresenta como criador e roteirista. E uma chance de chegar nesses lugares, pois a pessoa aparece.

 

    9) Em programas jornalísticos, é o roteirista que monta o roteiro dos telejornais, ou é o próprio jornalista?

Não entendo tanto de programas jornalísticos, mas creio que é o próprio jornalista, o profissional de imprensa, que monta o roteiro. É ele que sabe os textos, o conteúdo, as matérias que vão ao ar, então é mais na área de jornalismo.

 

    10) Para ser roteirista de games, precisa de alguma formação específica, ou o roteirista comum pode trabalhar nisso?

Ainda hoje o roteirista geral pode trabalhar com games, mas eu acho que deveria ser específico. Eu não saberia fazer, por exemplo. Tem que gostar de games desde criança, ser íntimo desse universo, além de ser um tipo de história específica, com língua própria. Se tiver alguma formação nessa área, eu recomendo.

 

    11) Poderia dar alguma dica de livros bons sobre roteiro para iniciantes e profissionais?

Eu acho que vale a pena sempre dar uma visitada dos manuais, como o “Story” do Robert McKee; em inglês tem um do Blake Snyder, que são três livros chamados “Save the cat”; mas jamais se limitar só ao manual. Ele é um rito de passagem, é quase necessário, mas é do tipo “não faz mais que a obrigação”. Os livros de dramaturgia, de teatro, de narrativa têm uma longa bibliografia. Vai ter que ir neles fatalmente, não tem jeito.

Recomendo muito a leitura de ficção, brasileira e estrangeira, pois acho que está faltando. As pessoas acham que a própria imaginação vai dar conta, mas às vezes ela falha, além de que é importante ver o que os outros já criaram, até para poder se inspirar. Quanto mais a pessoa ler, inclusive livros de ficção, mais a sua imaginação vai “andar longe” e mais vai entender certas coisas para a criação. Eu acho que estamos vivendo um momento de crise de imaginação, está muito restrita, porque o brasileiro está lendo pouco. Quanto mais ler, mais vai conseguir contar histórias ricas.

 

    12) E é mais importante ler muito ou ver filmes?

Os dois, e bastante. De filmes eu nem falei, porque eu acho que de séries e filmes os meus alunos veem muito, isso aí está feito! A leitura é que está fraca, uns 25%, dá para aumentar bem mais.

Eu sou da velha escola, acho as séries maravilhosas, com um nível muito bom, de teatro e alta dramaturgia, mas precisa ter um equilíbrio, metade e metade. Porém, atualmente, vejo que a leitura está meio negligenciada. *

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