Preconceitos dificultam discussões sobre maconha

Estigmas por trás da erva prejudicam luta pela descriminalização no Brasil

Por Giovana Guedes

Em outubro deste ano, o Canadá legalizou em todo o seu território o uso recreativo da maconha. A relação entre a descriminalização e a legalização da planta envolve questões públicas, tanto econômicas quanto de saúde. A partir do momento em que a planta é descriminalizada, a procura por ajuda de usuários que desenvolveram patologias a partir do uso desmedido da erva se torna mais acessível, humanizado e menos temido por parte dos que precisam de tratamento.

Apesar de ser famosa pelos seus efeitos psicotrópicos, a maconha tem princípios ativos que podem ser benéficos à saúde, como é o caso do canabidiol. O canabinoide — definição dada aos tipos de elementos que podem ser extraídos das plantas de maconha — é um dos principais dentre os mais de 90 tipos que existem, como explica o psiquiatra e mestre em ciências da saúde pela Santa Casa de São Paulo, Nelson Antônio: “Existem dois canabinoides principais, um deles é o canabidiol, que tem boa eficácia medicinal e é comprovado que pode ajudar no tratamento de casos de epilepsia e alívio de dores e desconfortos em pacientes que passam pela quimioterapia”.

O médico ressalta, entretanto, os efeitos prejudiciais do outro canabinoide principal, o THC. O tetrahidrocanabinol, segundo Antônio, pode ser extremamente prejudicial para usuários frequentes, especialmente os mais jovens. Um estudo feito em 2015 mostra que a chance de jovens que fizeram uso da maconha em idades precoces desenvolverem transtornos mentais como esquizofrenia cresce 3,5% mais do que jovens que não o fizeram.

Panorama histórico

A maconha é uma palavra de origem angolana – deriva da palavra “makana”, que significa algo parecido com “erva mágica” – que carrega consigo grandes estigmas sociais. Mas não foi sempre assim.

A planta é cultivada há mais de 6 mil anos, como explica Antônio. No decorrer da história, já foi utilizada como alimento, medicamento e até em rituais religiosos.

Durante o século 20, até a década de 1960, a Cannabis foi considerada um símbolo do gueto, sendo uma droga associada a moradores das periferias das grandes cidades. Com o surgimento dos movimentos progressistas e hippies, o uso da maconha de maneira recreativa ganhou força entre pessoas de renda mais alta que estavam em busca de novas experiências.

É só na década de 1990 que a maconha aparece como um objeto de estudo profundo, derrubando preconceitos e adquirindo uma identidade medicinal. Com o aprimoramento dos estudos, foi possível encontrar canabinoides diferentes do THC, com princípios benéficos para a saúde.

A erva no Brasil

Embora o uso da maconha seja proibido no país, desde 2006 há uma distinção entre usuário e traficante. O primeiro não pode ser preso em flagrante e sua pena não consiste em privação de liberdade — são advertências, trabalhos comunitários e ações educativas. Já o traficante é punido com pena na prisão que pode chegar a até 15 anos e não tem direito a anistia.

O cultivo e o armazenamento da matéria-prima da droga é considerado tráfico. E é aí que está o problema central da maconha medicinal: mesmo que façam extratos com propósitos puramente medicamentosos, os produtores são punidos com severas leis e medidas de repressão. É o caso de Maria Aparecida Carvalho, a Cidinha, que tem uma filha diagnosticada com síndrome de Dravet. Um dos principais sintomas da doença é a convulsão cada vez mais forte e frequente.

Fonte: Reprodução/ Estado de S. Paulo

Quando o diagnóstico foi dado, Cidinha foi atrás de soluções para que as convulsões epilépticas não atrapalhassem tanto o dia a dia da criança. A solução mais efetiva foi o canabidiol.

Além das restrições para o corpo, outros fatores que dificultam a utilização do medicamento à base de maconha são os preços (a vacina que a filha de Cidinha precisa três vezes ao mês chega a custar 500 dólares) e a burocracia estatal. Em entrevista ao “Estado de S. Paulo”, a mãe critica a posição do governo, que dificulta o cultivo de uma planta com poderes de cura até quatro vezes mais efetivos que outros medicamentos.

A vitória de Cidinha demonstra a urgência da liberação do cultivo medicinal da planta, indo na mesma direção da decisão a favor de outras três famílias com casos semelhantes, que receberam o aval da Justiça brasileira para a produção do óleo derivado da Cannabis sativa.

Já é um passo à frente para uma maior solução dos casos de saúde pública — inclusive de usuários que tiveram danos cognitivos pelo grande uso da erva por muito tempo e que precisam de auxílio.

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