Jornalismo de dados: futuro?

Elementos noticiosos e seu modo de exposição passam por transformações no século 21

A cada ano que passa, o jornalismo de dados cresce no Brasil (Imagem: FreePik)

Por Luca de Oliveira Machado

Nos últimos anos, o jornalismo de dados vem crescendo aceleradamente. A facilidade ao acesso a qualquer tipo de dado, a constante melhora da internet e a criação de novos servidores pelo mundo beneficiam diversas áreas do conhecimento. E o Jornalismo não fica de fora dessa lista. Dados econômicos, científicos, sociais e muitos outros estão ao alcance de boa parte da população com apenas alguns cliques – entretanto, há, sim, uma parcela de pessoas que se encontram em lugares de difícil acesso à Internet.

De acordo com Marco Túlio Pires, especialista em jornalismo de dados e News Lab Lead no Google, o ‘data journalism’ é um ramo do jornalismo tradicional, porém que surgiu após algumas evoluções no setor tecnológico, como a criação da Lei de Acesso à Informação (nº 12.527/2011)  – lei que regulamenta o direito constitucional de acesso às informações públicas, o desenvolvimento tecnológico como um todo e a facilidade de acesso com ferramentas gratuitas para poder processar esses dados.

“Então, o que chamamos de jornalismo de dados hoje é esse contexto aplicado ao jornalismo, com técnicas para trabalhar com dados. O jornalista de dados hoje precisa trabalhar com mais ou menos seis etapas: definir seu problema, encontrar esses dados, baixar os dados, validar esses dados, limpar, analisar e apresentar”, diz Pires. “Quando a gente fala de jornalismo de dados hoje, todos os projetos ou iniciativas têm esses espaços em comum. E cada um desses espaços requer um grupo de habilidades diferentes. E aí podemos trabalhar uma habilidade específica de um passo especifico ou podemos trabalhar com todos os passos ao mesmo tempo”, completa.

Segundo Marco Túlio, é importante que um jornalista busque aperfeiçoar sua capacidade de programação, devido ao leque de possibilidades e modos de contar uma história. “O jornalista hoje que sabe programar certamente vai conseguir contar histórias que outros jornalistas não vão conseguir. Então, é um diferencial”, diz. “Se todos tem que fazer? Eu acho que isso é uma discussão um pouco mais profunda. Eu sou, assim, partidário da ideia de que as pessoas podem escolher de maneira informada se elas querem seguir essa trilha ou não”

No século 21, as redes sociais mudaram diversas coisas no dinamismo da profissão jornalística como um todo. A notícia tem que estar pronta de forma mais rápida e a apuração deve ser cada vez mais efetiva. Além disso, proporciona também a facilidade em divulgar infográficos, tabelas e matérias interativas, expondo os dados de forma mais simples para o leitor. O Nexo, por exemplo, é um jornal online muito conhecido pela interatividade em sua plataforma. Ao longo do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, o jornal lançou diversos gráficos – sobre a ordem da votação, sobre a tramitação do processo na Câmara e no Senado e outros – que tinham como finalidade facilitar o entendimento do internauta. Os dados, portanto, eram captados e utilizados rapidamente, sendo expostos da melhor forma possível.

O futuro do jornalismo está na conexão próxima da internet às pessoas. Atualmente, o jornalista de dados trabalha incessantemente com programação e aplicativos, que traduzem os dados em algo visual. O ‘gif’, por exemplo, ganhou muita força no Twitter ou Facebook, onde a visualização é momentânea na linha do tempo do leitor. A criação deste conteúdo especifico para redes sociais é, também, benéfico ao criador no acompanhamento de estatísticas relacionadas à quantidade de pessoas que viram e interagiram com seu conteúdo.

No jornalismo televisivo, seja ele esportivo, político ou até cotidiano, os programas usufruem muito de telas interativas. O apresentador do telejornal, ou das famosas mesas redondas de futebol, tem sempre um conteúdo pré-preparado para expor e interagir – em grande parte das vezes, ao vivo -, transmitindo ao telespectador os dados em tempo real. Nas eleições de 2014, que teve a disputa do segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves extremamente acirrada, os dados eram levados diretamente às telas da mídia brasileira e conduziu o resultado final a todos que assistiam rapidamente.

Além disso, Pires ainda completa dizendo que a programação capacita o profissional a realizar buscas e interagir com computadores para obter os dados necessários, proporcionando a criação de matérias baseadas nestes dados. “O jornalismo de dados permite fazer histórias, investigações, produzir produtos jornalísticos que tem como sua fonte principal os dados. Não quer dizer que você vai esquecer o material humano, mas quer dizer que você vai trabalhar os dados de forma que você vai guiar seu projeto a partir deles. Seja para solução de problemas, para contar histórias legais que antes não estavam disponíveis porque você não teria capacidade de analisar essas informações sem trabalhar uma base de dados, ou simplesmente contar histórias a partir de base de dados”, explica.

O jornalismo de dados não é um modo de dificultar a apuração e divulgação da notícia. Mas, se utilizado com as ferramentas certas, é um modo de facilitar todo o processo. Os dados são apurados com muito mais rapidez, sem necessidade de uma pesquisa ‘tradicional’ – indo à biblioteca, por exemplo. “A programação te permite a fazer busca e conversar com computadores de modo que eles vão fazer os trabalhos para você. Trabalhos que poderiam levar, de forma manual, semanas, meses, anos, e os computadores vão fazer em segundos para você”, termina Pires.

Toda a ascensão da profissão recentemente induziu o mercado a criar diversos cursos que abordam e se aprofundam no jornalismo de dados. Hoje, um dos que possui mais relevância no meio jornalístico é da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que busca ensinar os participantes a trabalhar com informações de bancos de dados públicos e produzir suas notícias a partir deles.

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