Vulva a Revolução

Um outro olhar sobre a higiene íntima feminina

Ilustração: Eva Pacheco

Por Eva Vila Pacheco

Eu tive aula de orientação sexual (OS) no ginásio (atualmente, Ensino Fundamental II). A aula era, obviamente, dividida por gêneros. Se você, moça, também teve, provavelmente aprendeu desde cedo a importância de manter uma higiene íntima impecável. Enquanto isso, na sala ao lado, os meninos estavam aprendendo que masturbar-se era normal e até desejável.

Lembro-me da coordenadora da quinta série nos ensinando a lavar a “região íntima” — será que ela usava a palavra vagina? — e a optar pelas calcinhas de algodão. Para as meninas que já haviam “ficado mocinhas” — será que ela usava a palavra menarca? —, a instrução era a de trocar o absorvente descartável, ao menos, quatro vezes por dia.

Lembro-me também de uma atividade, realizada por ambos os gêneros, que consistia em escrever, em um grande cartaz de papel kraft, as vantagens e desvantagens de pertencer ao seu sexo. Primeiro, vinham à mente as imposições estéticas: depilar-se, ter de usar salto alto, entre outras. Entre os tópicos (que eram decididos coletivamente e só passavam a figurar no cartaz se dispusessem da aprovação quase unânime do grupo), “ficar menstruada” também aparecia.

Claro, para conter aquele sangue sujo, tínhamos de usar absorventes plásticos que incomodavam (diurnos ou noturnos, a depender do fluxo de sangue). Se grandes demais, assavam a nossa virilha, que passava a arder. Se pequenos demais, poderiam vazar parte do fluxo para a calcinha e, na pior das hipóteses, para a calça do uniforme (que era azul, ainda bem!). Durante o período menstrual, a pergunta mais comum entre as meninas era: “meu absorvente está ‘marcando’?”. Isto é, “os outros conseguem ver que estou menstruada?”.

A menstruação fazia parte do (não tão) seleto grupo de atributos femininos dos quais todos tínhamos ciência (ok, talvez não na quinta série), mas de cuja existência não precisávamos ser relembrados.

Não me lembro de ter aprendido a respeito da composição da menstruação. Lembro-me, sim, de ter aprendido a como me livrar dela. Foi só no segundo colegial (quando voltávamos a estudar o corpo humano) que tive consciência das fases do ciclo menstrual. Até hoje, faço uso de um aplicativo para manter o controle sobre o meu ciclo e fazer a famosa “tabelinha”.

O que dizem as pesquisas

Neste ano, uma pesquisa realizada pela marca de absorventes Sempre Livre (da Johnson & Johnson), em parceria com a Kyra Consultoria, mostrou que 54% das mulheres entre 14 e 24 anos sabiam nada ou pouca coisa sobre a menstruação quando passaram pela sua menarca (o primeiro ciclo menstrual). A pesquisa — feita com 1,5 mil mulheres, de cinco países, incluindo o Brasil — ainda indicou que 39% das entrevistadas pedem um absorvente emprestado como se fosse um segredo e que muitas tentam esconder, de alguma forma, que estão menstruadas.

Em 2017, o site Trocando Fraldas (especializado em temas referentes à gestação e à maternidade) realizou outra pesquisa que revelou um resultado paradoxalmente espantoso e previsível: cerca de 45% das mulheres não conhecem o próprio ciclo menstrual. A pesquisa entrevistou 12 mil mulheres de todos os estados do Brasil, por meio de um questionário online.

Deparamo-nos com um cenário em que nada muda da infância ou adolescência para a idade adulta. A maioria das mulheres continua atada aos preconceitos e aos receios que vêm sendo cristalizados, década após década, sobre o corpo feminino.

Perspectivas

Ilustração: Eva Pacheco

Parece, mas não é / Ilustração: Eva Pacheco

Que mulher nunca visitou a seção feminina da farmácia ou do supermercado e se deparou com a infinidade de ofertas de produtos para a higiene íntima, perguntando-se: “Eu realmente preciso disso?”.

Protetores diários, sabonetes íntimos e, por que não, desodorantes vaginais não são exclusividade de uma marca ou outra. Nas redes sociais, sobretudo no YouTube, mulheres vlogam sobre os cuidados que têm com a sua “região íntima”, muitas vezes encorajadas por tais marcas (das quais recebem os famosos “mimos”): são os chamados publiposts.

Mas “como nos perceber além daquilo que nos ensinaram, ou do que está nas prateleiras do mercado?”. Esse é o questionamento que se faz a educadora de corpo e movimento Beatriz Mentone*. Em suas palavras, “há uma pressão social para que sejamos mulheres irreais, com vaginas que cheirem a flor e isso não existe. Vagina tem cheiro de vagina”. Ela acrescenta: “E se o cheiro não te incomoda, mas incomoda a pessoa com quem você se relaciona, talvez você esteja precisando trocar de relação, e não de sabonete (risos)”.

Para Beatriz, que trabalha sob o ponto de vista da ginecologia natural, o caminho para fazer boas escolhas — a respeito do que fazemos e consumimos — se baseia na percepção. Em sua opinião, problemas ginecológicos recorrentes, como a candidíase, poderiam ser evitados se as mulheres superassem o distanciamento com relação ao próprio corpo. “Não temos o hábito de observar como estão os nossos cheiros, os nossos fluidos, de nos tocarmos”, ela avalia. “É possível entrar em contato com a vulva e perceber se já não há um comecinho de corrimento, ainda perto do colo do útero, antes de a coceira chegar àquele ponto insuportável.”

Para a ginecologista e obstetra Ana Thaís*, questões como os odores vaginais ou a presença dos pelos pubianos estão diretamente ligadas às convenções sociais. “Há um modelo do que deva ser o aparelho genital externo feminino. A necessidade de tirar todos os pelos — e a ideia de que eles sejam ‘feios’ e ‘sujos’ — ou de ter de disfarçar o cheiro da vulva nos leva a uma discussão sobre feminismo, mais do que sobre saúde.”

Tópicos de discussão

Com base em perguntas enviadas por mulheres à reportagem, elencamos alguns pontos de interesse feminino e pedimos para que profissionais compartilhassem suas visões.

Ilustração: Eva Pacheco

Mulher é bicho estranho. Todo mês sangra / Ilustração: Eva Pacheco

Absorventes descartáveis (plásticos)

Beatriz Mentone acredita não haver nenhum benefício no uso dos absorventes plásticos. “Além de ser péssimo para o meio ambiente, nós estamos colocando a nossa área mais íntima em contato com químicos que podem ser nocivos. Os absorventes contêm produtos para ficar ‘branquinhos’, ‘cheirosinhos’, para a mulher ficar ‘seca’ durante o dia inteiro.”

Segundo ela, as opções absorventes distanciam as mulheres do contato com o próprio sangue. “Quando usamos o ‘copinho’ [coletor menstrual], podemos ver a cor, o cheiro e a textura do nosso sangue com mais fidelidade. A menstruação é uma informação que recebemos mensalmente. E poder se observar é muito valioso.”

Coletor menstrual

Na visão de Ana Thaís, o coletor só traz benefícios. “Ao contrário do OB, que resseca as paredes da vagina e tira a sua proteção natural, o coletor ajuda a preservar a boa flora vaginal”, diz.

“Há quem diga que o ‘copinho’ seja perigoso”, diz Beatriz. No entanto, ela argumenta: “Se usarmos pelo tempo certo, o sangue que já saiu não fica em contato com o ar, não oxida, não traz risco de infecção e nem mau cheiro. Mas temos de tomar os cuidados básicos: higienizar, ferver, lavar bem entre um uso e outro, não usar por mais do que doze horas, dentre outros”, adverte.

Sabonetes íntimos e higienização do trato

Tanto para Beatriz quanto para Ana Thaís, o uso dos sabonetes íntimos específicos é “puramente uma questão de mercado”.

“Em princípio, a vulva não precisa de sabonete para ser higienizada. Não sabemos o quanto os sabonetes que dizem ‘matar as bactérias’ interferem na flora vaginal, favorecendo as infecções, ao invés de preveni-las. Só a água ‘dá conta’, preservando a flora e evitando os fungos e as bactérias que possam trazer algum desequilíbrio”, explica Beatriz.

Sobre o assunto, Ana Thaís diz que não existe uma verdade ‘única’. “Tenho pacientes que não lavam a parte interna da vulva, para não tirar a proteção de gordura que nosso corpo produz. Algumas lavam só com água morna e relatam total conforto, sem mudanças no cheiro ou na produção do corrimento. O ideal é chegar à solução que seja melhor pra você”, defende.

 

*Beatriz Mentone Nogueira é dançarina formada pela Unicamp e educadora de corpo e movimento pelo método Rolf de integração estrutural. Possui formação livre de facilitadora em ginecologia natural.

*Ana Thaís Vargas é médica obstetra e ginecologista, formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e especialista em endocrinologia ginecológica pela Santa Casa de São Paulo.

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