Pelo menos 30 milhões de brasileiros sofrem com a síndrome de burnout

Os sintomas, físicos e psicológicos, aparecem naqueles que são viciados no trabalho

Por Beatriz Lourenço, Carolina Bertoldo e Laura Barbosa

O mercado de trabalho tem ficado cada vez mais competitivo e tornou o esgotamento profissional algo normal na vida de quem trabalha. Esse cansaço é inofensivo na hora de tomar de decisões corriqueiras, mas quando se torna permanente o buraco é um pouco mais fundo e pode resultar em consequências sérias.

No final da década de 60, especialistas anteviam a nova doença que hoje é conhecida como Síndrome de Burnout. Às pressões geradas pelo trabalho podem causar desgaste emocional, físico e psicológico.. Essa exaustão emocional nada mais é que um distúrbio psíquico, um transtorno já classificado na Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). De acordo com a pesquisa realizada pela Internacional Stress Management Association (Isma), o Brasil tem cerca de 100 milhões de trabalhadores, e pelo menos 30% possuem a síndrome.

O termo burnout é originado do inglês no qual burn significa queima e out exterior. A expressão simboliza que o desgaste emocional de uma pessoa afeta diretamente os aspectos emocionais e físicos. Problemas relacionados a vivências ruins com chefes, colegas de trabalho, clientes e falta de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional são combustíveis poderosos para o estresse. Aqueles chamados de workaholics, conhecidos por viver apenas para o trabalho são os maiores candidatos a desenvolver a doença.

Entre os grupos mais propensos à doença estão os profissionais da saúde, RH e educação, além das mulheres mulheres, que enfrentam dupla jornada. Assim, é preciso estar atento aos sintomas da síndrome de burnout.

Segundo a psicóloga Jéssica Constantino de Paula, especializada em doenças do trabalho, há sintomas físicos e psicológicos que podem ser identificados em quem desenvolve a síndrome. São eles: pressão alta, dores musculares, enxaquecas, suor excessivo, taquicardia, insônia, dificuldades respiratórias e gastrointestinais, agressividade, isolamento, mudanças repentinas de humor, falha na memória, desconfiança, baixa autoestima, irritabilidade, entre outros.

No dia a dia, a pessoa tende a ficar isolada, passa a ser cínica, irônica e sua produtividade despenca. Todos os sintomas podem levar ao uso de drogas, álcool e até ao suicídio. Muitos profissionais acreditam que as férias sejam a melhor opção; porém, ao voltar para a rotina, todos os sinais da síndrome aparecem novamente.

Para a terapeuta, reverter o quadro significa, primeiramente, perceber quando o corpo começa a dar seus sinais. “Não foque somente no trabalho, tenha momentos de lazer, pense se realmente vale a pena o esforço, tente manter uma alimentação e hábitos de vida mais saudáveis, isso contribui com o equilíbrio de corpo. Além disso, se possível realize exercícios físicos”, diz.

É o caso da aluna de Letras Noêmia de Oliveira. Ela diz durante quase toda sua vida profissional ela trabalhou na indústria farmacêutica, onde acabou desenvolvendo a doença. Noêmia estava acompanhando o marido havia 3 anos no tratamento de câncer de próstata, o que exigiu três cirurgias em um ano, no mesmo período em que começou a trabalhar em uma nova empresa, também do ramo farmacêutico, na área de fidelização de clientes. Chegou a trabalhar 12 horas por dia no cargo numa época em que, além das preocupações com a saúde de seu marido, também estava estudando.

“O estresse logo começou a causar sintomas físicos, eu sentia náusea constantemente, parei de comer e cheguei a perder oito quilos” conta a estudante. A preocupação com a saúde fez com que ela procurasse orientação médica. Ao ser diagnosticada com a síndrome de burnout, seu médico orientou que ficasse afastada do trabalho por pelo menos trinta dias, mas assim que voltou às suas atividades, foi demitida.

Segundo o advogado Sérgio Monteiro, a síndrome de burnout é considerada pelo Ministério da Saúde como doença de origem ocupacional, acidente de trabalho ou até mesmo situação equiparada ao acidente de trabalho e é um direito do trabalhador receber o auxílio doença do INSS. Porém, por vezes, seja por mero desconhecimento do empregado ou até mesmo pelo encaminhamento equivocado do profissional contratado para requerer o benefício, o trabalhador não consegue obter o auxílio, nem usufruir da estabilidade de doze meses depois do período em que recebeu o benefício.
No trabalho que realiza como psicóloga, Jéssica Constantino de Paula prevê como a doença evolui ao decorrer do tempo através de etapas. Primeiro, há a necessidade de se afirmar; segundo a dedicação ao trabalho é intensificada; após isso, ocorrem descasos com necessidades básicas como comer, dormir ou ter tempo para lazer; em seguida, o portador da síndrome se vê na situação de não enfrentamento do problema; em quinto, há a desvalorização de seus desejos, avançando para a negação do outro (em detrimento do trabalho) e isolamento; depois acontecem as mudanças repentinas de comportamento e humor junto da despersonalização (foco apenas no trabalho) e do vazio interior; por fim, o ciclo se fecha com o aparecimento da depressão (desesperança) e do esgotamento caracterizado pelo colapso físico e mental.

Ao identificar a doença, é preciso passar por um exame cuidadoso e detalhista para saber se a síndrome está ou não ligada ao trabalho. É indicada a busca por um profissional da área e a realização de exames psicológicos.

No decorrer do tratamento é preciso focar em três pontos específicos: a relação com a profissão, o ambiente de trabalho e a relação dos sintomas com o trabalho.

Os profissionais da área indicam que a melhoria na qualidade de vida é um bom começo para o tratamento ou para evitar a síndrome. Praticar atividade física, alimentar-se bem, dormir pelo menos oito horas por dia e manter interesse pela vida social é o melhor remédio contra a síndrome.

“Você não consegue entender muito bem onde foi que esse gatilho disparou”, afirma Noêmia de Oliveira. Hoje, livre do ambiente que causou a doença, a futura professora sonha com sua carreira acadêmica, mas continua com o acompanhamento médico – dado o risco que a área da educação corre no desenvolvimento de doenças causadas pelo estresse.

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