Projeto leva medicina a localidades carentes

Alunos da USP adentram o Brasil atendendo e realizando cirurgias

Foto: Adauto Nascimento/ Alunos da USP realizando uma cirurgia durante o projeto

Por Carla Matsue e Laura Brichesi

 

Assistência, ensino e pesquisa. Essas são as três frentes do projeto acadêmico Bandeira Científica – Expedição Cirúrgica (ECFMUSP), no qual, alunos da Universidade de São Paulo (USP) prestam serviços de saúde, aprendem com a prática e movimentam a pesquisa na área com o levantamento de dados.

Anualmente, desde 2013, estudantes da USP que se voluntariam passam por um processo seletivo para participarem da Expedição Cirúrgica que tem durabilidade de sete dias. O maior objetivo é realizar cirurgias e atendimentos em regiões carentes de saúde. A ação é de mútua benevolência, já que além de ser uma experiência de importante relevância para os alunos participantes, presta amparo aos moradores de áreas que necessitam.

Os alunos são os grandes responsáveis pela organização da expedição. Escolhem a cidade, contatam a prefeitura para fechar acordos de hospedagem e do local onde podem executar seus atendimentos, buscam ajuda financeira de patrocinadores e preparam todos os equipamentos médicos que devem ser levados.

Quando os estudantes desembarcam na cidade, pacientes pré-selecionados pela secretaria de saúde num processo de triagem já aguardam pelo atendimento e processos cirúrgicos.

Até 2016, 133 cirurgias foram feitas ao todo durante as expedições, como também exames e atendimentos clínicos. ?O projeto, além da assistência social, sempre busca fazer uma intervenção na cidade que seja duradoura, como, por exemplo, o da expedição de 2016, em Bandeirantes no Paraná, que foi a Oficina de Primeiros Socorros, na qual os alunos convocaram a população para uma aula aberta sobre o tema.

Acesso à saúde no Brasil

No Brasil, apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) estar disponível nas mais diversas áreas remotas, a assistência à população de regiões afastadas dos grandes centros urbanos sofre pela falta de recursos e de profissionais, principalmente no contexto cirúrgico. Nas 39 cidades com mais de 500 mil moradores vivem 29,4% dos habitantes do país e trabalham mais da metade de todos os médicos. Foi nesse cenário de contraste que o projeto surgiu.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o parâmetro ideal de atenção à saúde é de um médico para cada mil habitantes. No Brasil essa média é superada: hoje, são pouco mais de dois médicos para cada mil habitantes. Porém, devido a essa concentração, faltam profissionais e recursos em diversas áreas do país, principalmente nas regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.

Tabela de dados retirada do site: http://www2.fm.usp.br/expedicaocirurgica/mostrahp.php?origem=expedicaocirurgica&xcod=Cen%E1rio%20Nacional&dequem=Apresenta%E7%E3o

Tabela de dados retirada do site: http://www2.fm.usp.br/expedicaocirurgica/mostrahp.php?origem=expedicaocirurgica&xcod=Cen%E1rio%20Nacional&dequem=Apresenta%E7%E3o

 

Além dessa má distribuição de médicos no país, a falta de verba nesse setor de saúde, que implica em investimentos de hospitais públicos, materiais para consultas e cirurgias, entre outros, também é um déficit. De acordo com a OMS, apenas 3,6% do orçamento do governo federal foi destinado à saúde nesse ano. Percentual abaixo da média mundial de 11,7%.

Essa situação de baixo investimento na saúde pública mão tem significativas chances de mudar e melhorar nos próximos anos, graças à Emenda à Constituição aprovada em dezembro de 2016, que limita o crescimento dos gastos públicos pelos próximos 20 anos ao percentual da inflação nos 12 meses anteriores. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Aplicada, esse congelamento dos gastos vai representar perdas de R$ 743 bilhões para o SUS.

A falta de acesso à saúde não se resume apenas a precariedades no investimento e na distribuição, ela se aplica também em discriminações nos atendimentos, principalmente em razão a classe social do paciente. A Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE, aponta que 10,6% da população brasileira adulta (15,5 milhões de pessoas) já se sentiram discriminadas na rede de saúde tanto pública quanto privada. A maioria diz ter sido maltratada devido questões de classe social.

A importância da expedição 

Tendo em vista esse cenário de contraste, no qual o Brasil vive, a expedição busca amenizar as filas de atendimento médico em regiões carentes.

Além do amparo momentâneo à população nas cidades, a equipe composta por médicos e alunos retorna ao município após o fim da expedição com o intuito de acompanhar a evolução dos pacientes operados e de fornecer uma análise das impressões acerca da qualidade do serviço de saúde local, bem como de apresentar sugestões para o que pode ser melhorado.

Para o professor associado do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP, a expedição é um incentivo para avanços da saúde local. “Não são só ações pontuais. Isso se sustenta pela repercussão na região e motivação dos médicos e enfermeiros locais”.

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