Casos de depressão deixam universidades em alerta

Saúde metal de alunos estimula debates no ambiente acadêmico

Por Giovanna Caliope e Marcos Vinicius Xavier

Em todo o Brasil, a preocupação com a saúde mental no ambiente acadêmico vem crescendo. Após os casos de suicídio na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Federal de Viçosa (UFV), e a verificação de aumento dos transtornos mentais entre estudantes, representantes de grêmios estudantis em todo o Brasil tem se organizado para debater o tema.

A depressão é a doença mais frequente entre os adolescentes com idades entre 10 e 19 anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O relatório da organização, divulgado em abril de 2017, apontou que cerca de 800 mil pessoas morrem por ano de suicídio. Entre a população jovem, é a segunda maior causa  de morte no mundo, ficando atrás apenas dos acidentes de trânsito.

Os casos de problemas nesta faixa etária estão diretamente relacionados com pressão no ambiente acadêmico, problemas familiares ou de relacionamento, violência, uso de drogas e falta de voz no ambiente acadêmico.

Pressão da universidade

Os problemas psicológicos na universidade estão ligados à relação entre estudantes, professores e instituição.

Adriane Barbosa, estudante de psicologia da PUC-SP, relaciona a falta de saúde mental no ambiente acadêmico com as conexões e a dificuldade que as pessoas têm de se desconectar do trabalho ou da universidade, causando ansiedade.

Pressão psicológica em ser um bom aluno e obter boas notas relacionado com a falta de proximidade de professores e da universidade como instituição. Ainda existe um estigma que obriga o aluno manter um pensamento positivo por estar em um privilegiado processo de formação, o que oculta a imagem da universidade como um local tradicionalista, burocrata, violento, cheio de problemas, que os estudantes têm de lidar todos os dias.

Outro ponto fundamental na discussão das relações no ambiente acadêmico tem a ver com a verticalização do ensino. O atual debate do tema, questiona se o método tradicional em que o professor fala e os alunos apenas escutam, ainda é efetivo em um mundo tecnológico e interativo. A ausência de diálogo muitas vezes prejudica os estudantes que devem lidar com uma quantidade absurda de trabalhos, exigências além do possível, e a falta de empatia por parte dos docentes.

Movimento organizado

A partir do debate sobre o tema saúde mental no ambiente acadêmico, representantes do movimento estudantil da UFV criaram o movimento #NãoÉNormal.

Segundo o próprio movimento, o objetivo é promover um debate sobre as questões que os alunos enfrentam e a forma de aplicação de conteúdo no ambiente acadêmico, que de alguma forma prejudica o desempenho e a saúde dos estudantes.

Após a hashtag ganhar força, centenas de estudantes passaram a relatar casos de situações vividas ou de como se sentem em relação à instituição nas redes sociais.

De acordo com Amanda Pereira, estudante do décimo semestre de psicologia da PUC-SP, as organizações em coletivos como o movimento “Não é Normal”, são extremamente importantes para estabelecer o diálogo com professores e com as instituições de ensino, colocando em evidência a necessidade de debater o tema.

“Essa organização estudantil pode igualar as relações entre professor, estudante e instituição, por meio do debate, para trazer meios de reduzir os casos de transtornos na universidade”, explicou a aluna.

Em resposta ao movimento, a UFV informou que, está aberta ao diálogo e tem um canal disponível na ouvidoria para denúncia de casos que ferem a conduta acadêmica ou que possam afetar os estudantes.

Dor oculta

Diferente de outras doenças, os casos depressivos são silenciosos. “Isolamento, irritabilidade, falta de atenção e mudanças de comportamento repentinas, podem indicar casos de depressão”, declarou Lee Fu I, psiquiatra e coordenadora do Programa de Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência do IPq-HC USP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP), em entrevista ao JC debate, da TV Cultura, exibido em março do ano passado.

Ainda de acordo com Lee, as pessoas próximas e as instituições de ensino devem atentar-se a mudança de hábitos fora do comum por parte dos alunos e buscar o diálogo, dando voz, ouvindo as opiniões, já que a repressão pode agravar os casos.

Mídia e saúde mental

A mídia pode ter contribuído com o aumento dos casos entre os adolescentes. Em novelas e filmes que apresentam casos de depressão, a forma como é mostrado o problema banaliza a questão de doenças psicossomáticas no ambiente acadêmico. Muitas vezes, os casos em que, são apresentados de uma forma agressiva, ou a partir de um estágio avançado, onde o personagem exibe sinais de loucura, dando um tom romantizado do problema.

A partir do papel extremista em que a mídia tratou a ideia de casos de depressão, criou-se um preconceito e uma recusa em procurar um especialista, já que, quem faz essa procura é tratado como louco na mídia tradicional, seja em filmes e novelas.

“O papel idealizado da mídia contribuiu negativamente para a rejeição do público em procurar ajuda.”, ressalta Amanda.

Além disso, é assunto pouco tratado nas grandes mídias, um fato que vem preocupando a população, em maioria o público estudantil, por se tratar de uma “onda de depressão” na universidade, como mostrado nos dados abaixo:

 

A série americana 13 Reasons Why, gerou polêmica por mostrar um suicídio sem cortes,o que poderia ser um gatilho para quem já enfrenta problemas. A série gira em torno de uma estudante que se mata após uma sequência de eventos, provocadas por indivíduos selecionados dentro de sua escola. Uma caixa de fitas cassetes gravados por ela antes de se suicidar relata os 13 motivos pelos quais ela tirou a vida. A principal crítica feita à série foi de que seus índices seriam muito maduros para ser apresentados ao público adolescente, por ter cenas fortes de suicídio estupro e violência, fato que poderia ter influência no público jovem.

Outro ponto em que a mídia pode ter influencia foi em relação ao jogo “Baleia Azul”, que preocupou a população ao apresentar conteúdo de mutilação ou até suicídio. Iniciado na Rússia em 2016, o jogo consiste em 50 desafios distribuídos por um “curador” em grupos fechados de redes sociais. Todos os dias, os curadores publicam uma mensagem com a nova missão, que apresentam diferentes graus de dificuldade. No começo, as tarefas são mais simples, como assistir a um filme de terror sozinho ou desenhar uma baleia numa folha. Aos poucos, elas vão ficando cada vez mais perigosos, como a mutilação. Ao fim o último desafio, é o suicídio.

Para a advogada Alessandra Borelli, especialista em núcleo de combate aos crimes contra a inocência da comissão de direito eletrônico e crimes de alta tecnologia da OAB/SP, a forma que foi apresentada o jogo no Brasil, comprometeu a integridade de milhares de jovens que já tinham alguma tendência à depressão, já que a mídia ao normalizar o caso, apresentou pontos do jogo. “O fenômeno, a partir de um boato, tornou-se responsabilidade da sociedade de não divulgar sem conhecer a precedência. A partir disso pegou uma população vulnerável, já que a maneira como foi divulgada trouxe um tutorial do jogo fazendo com que pessoas mal-intencionadas pudessem usar contra a população jovem.

Volta por cima

É necessário que o próprio estudante preste atenção à situação e faça um feedback de hábitos ou mudanças de comportamento diferentes do comum.

Acordar desmotivado e ter dificuldades de se relacionar, por exemplo, pode indicar o início de um problema relacionado à saúde mental.  Além disso a dificuldade de se expressar, o nervosismo contínuo e a perda de vontade para determinadas atividades também podem ser sinais de um problema.

Para as especialistas, os casos devem ser tratados como problema de saúde pública e deve haver o acompanhamento das pessoas que estão ao redor. Instituições de ensino devem ter responsabilidade e oferecerem ajuda para os alunos que possuem algum problema psicossomático, assim como é necessário trazer o debate nas mídias e universidades para que haja diminuição no índice de casos de desistência do curso ou até mesmo suicídio.

As universidades que possuem o curso de psicologia, oferecem ajuda clínica com um profissional ou aluno, à preços baixos ou gratuitamente em alguns casos. O aluno, ou sua rede de apoio próxima, devem perceber determinados comportamentos e procurar ajuda profissional.

A saúde mental no ambiente acadêmico é uma discussão urgente, de profunda relação com a maneira como os alunos levam a vida acadêmica e suas relações na universidade, sendo assim uma questão institucional.

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