Você é o que você toma

O que vem primeiro: o sintoma ou a doença? Verificar os hábitos de medicação dos brasileiros pode deixar esta resposta mais clara. Ao analisar o top 10 dos remédios mais vendidos em comparação com as doenças que podem necessitar o tipo de tratamento, é possível traçar um perfil de como uma população cuida de si mesma.

Segundo dados do Ministério da Saúde e do IBGE, as doenças mais frequentes no Brasil são: hipertensão arterial, diabetes, doença crônica de coluna, colesterol alto e depressão. Para o cardiologista Heron Rached, é possível entender a relação dos medicamentos mais vendidos a partir das doenças mais prevalentes. “Ainda há muitas pessoas subdiagnosticadas que tomam medicação para tratar sintomas. A doença primária é a hipertensão, mas como o paciente não sabe que é hipertenso, toma remédio para a dor de cabeça decorrente dela.” Isso faz com que os medicamentos para dor permaneçam na lista.

Informações do Conselho Nacional de Farmácia indicam que é possível que o Brasil ocupe a quarta posição entre os maiores mercados consumidores de medicamentos no mundo, à frente de Estados Unidos, China e Japão. Da lista dos 10 medicamentos mais consumidos no Brasil divulgada pela IMS em 2015, apenas 3 precisam de receita. Continuamos no topo da lista mesmo com diferenças na comercialização dos medicamentos em comparação com grandes mercados, como dos Estados Unidos. Aqui, antibióticos, corticóides e psicotrópicos, por exemplo, requerem a solicitação médica. Possivelmente, com os mesmos critérios do primeiro lugar em vendas de remédios, estaríamos um nível acima na “competição”.

Para dados mais precisos sobre a venda de remédios sem prescrição médica, visitamos algumas farmácias em diferentes zonas da cidade de São Paulo e para surpresa (ou não) os dados que obtivemos foram muito parecidos: o campeão unânime em vendas é o paracetamol, às vezes aparecendo como Advil, às vezes como Tylenol; outro medicamento que aparece com vendas altíssimas é o Omeprazol, usado principalmente para o tratamento de gastrite, refluxo ácido e úlceras. O mais irônico desse alto índice de vendas do Omeprazol é que um estudo recente das universidades de Hong Kong e a University College London indica que o uso prolongado do medicamento pode dobrar o risco do paciente desenvolver câncer de estômago e tudo isso pois o medicamento elimina bactéria nativa da flora estomacal de grande importância para sua proteção.

Outro medicamento que apareceu em todas as farmácias entrevistadas foram os estimulantes sexuais, aparecendo principalmente com o nome de Viagra. Segundo o farmacêutico Flávio Rodrigues, o consumidor desse medicamento vem se tornando cada vez mais jovem. “Antigamente o público-alvo desse medicamento eram idosos, que por conta da idade, possuíam dificuldade de ereção. Hoje em dia, vendo o medicamento para homens entre 25 e 40 anos em uma demanda muito maior; eles querem aumentar a potência sexual e acabam recorrendo ao medicamento”.

O fácil acesso à medicação é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que a população tem acesso a diversas substâncias, consideradas fortes, sem receituário médico, a indicação feita por familiares e amigos é o ponto focal da automedicação. Os brasileiros baseiam-se em indicações de medicamentos que funcionaram e amenizaram os sintomas de pessoas próximas para “tratarem” algo semelhante.

Com o envelhecimento da população, as doenças mais prevalentes tendem a ter mais representatividade ainda. Segundo dados do Ministério da Saúde, a hipertensão atinge hoje 21,4% da população brasileira. A doença atinge em torno de 50% da população com mais de 60 anos. Segundo estudos do IBGE, em 2060 haverá 58,4 milhões de pessoas com esta faixa etária. Se mantivermos as mesmas proporções para prevalência de hipertensão, até lá serão quase 30 milhões de pessoas, apenas nesta faixa etária necessitando de tratamento e consumindo medicação regular.

As chances do brasileiro apresentar esses problemas de risco à saúde se devem, em boa parte das vezes, a hábitos como o tabagismo, a falta de cuidado com a alimentação, usualmente acompanhada pela baixa incidência, quando não nula, de atividades físicas.

Além disso, tais dados, quando coletados, tendem a mostrar uma realidade, no mínimo, curiosa. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), em conjunto com o IBGE, no ano de 2014, o número de mulheres com doenças crônicas é superior ao dos homens, o que não significa um descaso delas com a própria saúde. Aliás, eles comprovam exatamente o contrário. Os índices de mulheres com essas doenças está maior, justamente, pela pouca procura dos homens por médicos e especialistas, o que, de certa forma, “mascara” as informações e prejudica um possível estudo, que seria mais aprofundado e exato quanto à saúde da população.

Automedicar-se se tornou um hábito do dia a dia dos brasileiros, algo que a indústria farmacêutica encoraja e até ajuda a alimentar de forma assustadora. Um laboratório montou uma lista on-line de medicamentos sem receita para ajudar as pessoas à dormir. Anti-histamínicos, medicamentos para labirintite e plantas medicinais estão na matéria que diz ajudar a regular o sono das pessoas. A ironia é que, no final, o site alerta que determinados medicamentos podem causar dependência e que não recomendam e, muito menos, incentivam a automedicação.

Mesmo com o cenário de automedicação, Rached ressalta que há um problema de distribuição de medicamentos para a população em geral. “Fora da caixinha de São Paulo, o acesso à medicação é muito reduzido. O paciente acaba utilizando apenas o que o governo disponibiliza. Por isso toma o que outras pessoas tomam ou o que tinham sobrando em casa de algum tratamento anterior.” Ele alerta para a questão de que não é apenas o valor que dificulta a aquisição do produto, mas também a dificuldade de encontrar farmácias.

A farmacodependência é um vício da sociedade atual. A automedicação está presente em todas as classes, seja por falta de acesso à hospitais e necessidade de controlar os sintomas de uma doença ou pelo uso abusivo de calmantes e os conhecidos “tarjas preta”.

“Todo remédio tem efeitos colaterais”, afirma Arnaldo Lichtenstein, clínico-geral do Hospital das Clínicas. A cortisona causa pressão alta e problemas gástricos. Os antibióticos prejudicam os rins e podem interferir no aparelho auditivo. Os anti-inflamatórios podem causar hemorragia no estômago. E até os suplementos vitamínicos podem causar graves danos à saúde.

A diferença entre um dependente de drogas e um viciado em remédios é a intolerância social diante das drogas ilícitas . “Do ponto de vista científico, não há diferença entre um dependente de cocaína e um viciado em remédios que contém anfetamina. Droga é droga, não importa se ela foi comprada num morro ou numa farmácia dentro de um shopping.”, disse o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Assistência Dependentes (PROAD).

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