A Luz da Mauá. Histórias de vida compõem uma ocupação no centro de São Paulo

Usava uma boina de crochê, uma camisa do Che e estava pronto para compartilhar sua história. Muita resistência não poderia faltar, porque ali, grafitada na parede ao seu lado, Marielle estava presente.

Por Vitória Macedo Castro

Um brilho diferente emana por detrás de um estreito portão branco na rua Mauá. O número 340 está pintado nele com tinta vermelha. Ao lado, o Artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos pintado junto a um saci com uma lupa que foca a palavra vida. É isso o que tem depois do portão. Ele dá para um corredor pequeno, onde ao lado fica um porteiro guardado por uma grade preta. A frente, mais outro portão com grades vermelhas. O porteiro, atrás de uma grade preta que formava uma pequena sala, logo soube quem estava sendo procurado. Apontou para o final do corredor e disse “aquele negão lá no fundo, parecendo o Bob Marley”. O corredor depois daqueles dois portões era longo e iluminado, estava cheio de luz, condizia com o nome do bairro, mas não com a sua aparência desacolhedora e áspera. Até uma fileira de plantas de um lado e puffs do outro havia no corredor. Lá, no fundo do túnel iluminado, encontrava-se a figura que procurava.

Entrada do prédio com o Artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por: Vitória Macedo Castro

Parado, mexendo no celular estava o Seu Nelson. Com um forte aperto de mãos, as boas vindas foram dadas. Essas mãos, muito já tiveram que segurar; a voz, que logo pronunciou um “tudo bem?”, se fez forte. Uma voz de sabedoria que cria vínculo de proximidade; os olhos escuros de vivência de quem já teve muito o que aguentar; a barba branca de quem carrega incontáveis experiências, a apele escura que carrega a dor e aluta de um povo. Um bamboleio corporal, de quem muito já teve de rebolar para desviar e sobreviver às falcatruas da vida. Usava uma boina de crochê, uma camisa do Che e estava pronto para compartilhar sua história. Muita resistência não poderia faltar, porque ali, grafitada na parede ao seu lado, Marielle estava presente.

Grafite de Marielle Franco no corredor da entrada do prédio. Por: Vitória Macedo Castro

No corredor, pessoas passavam e o cumprimentavam, “oi, filha” respondeu a uma moça que estava indo visitar os parentes. Enquanto uma moradora passava, ele deu-lhe uma advertência ao dizer que ninguém poderia entrar de madrugada. Após ela dizer que estava trabalhando e que compreendia isso, com um ar paterno, o senhor a chamou de filha e adentrou na conversa do trabalho.

Ele pediu ao porteiro a chave de uma porta cinza que ficava no fundo do corredor. Parecia estar com algum problema no trinco. Estava emperrada e Seu Nelson não entendia o porquê, empurrou até abrir. Atrás da porta tinha uma sala comprida, cheia de materiais de construção para a reforma que o prédio estava passando, uma lousa e carteiras escolares. No local aconteciam algumas reuniões. Se acomodou em uma cadeira de plástico, à luz de uma alta janela que o iluminava do lado esquerdo.

Sentado naquela cadeira estava Seu Nelson da Cruz, que carrega nas veias sangue baiano. Alguns até o chamam assim, Baiano. Lições de verdade ele não aprendeu na escola. Estudou até a 8ª série, mas não por falta de incentivo dos pais, que não faziam outra coisa a não ser empurrá-lo para a escola. Acha graça ao lembrar que corria igual bicho velho. Isso parece lhe trazer uma reflexão, tem o olhar vago e longe, faz uma longa pausa. Ao contrário dos irmãos, ele não quis saber de estudar. Desde pequeno queria ganhar o seu lugar, trabalhar e depender de si, por isso, com 13 para 14 anos saiu da casa dos pais. Demora até lembrar o ditado que condiz com a situação, “quando um passarinho cria asa ele quer voar”. Seu Nelson voou para a única escola que frequentou, a vida. Quebrou a cara e reconhece a dificuldade de quem não estuda passa, mas não voltou, porque a vida era a melhor faculdade que poderia cursar. O mundo é tão difícil que acadêmico nenhum tem as respostas e os macetes para enfrentá-lo.

Por um momento, sua voz se mistura com o canto dos pássaros, um som leve, diferente da trajetória de pássaro que passou e passa, cheia de turbulências. Chega na selva de concreto, São Paulo, na década de 90. Entrou no movimento de moradia no final de 1991 e ficou por volta de quatro anos. Saiu e ajudou algumas famílias que estavam ocupando um casarão na Av. do Estado, posteriormente fizeram uma ocupação que durou dois anos e oito meses até que fundou o M.M.R.C (Movimento de Moradia da Região Centro).

Seu Nelson entrou nessa luta e se inspirou porque tudo o que aquelas pessoas passavam ele também havia passado. Precisava de um lugar para morar, não tinha lugar no mundo, não tinha um lar. Ficou seis meses na Praça da Sé, naquele centro calamitoso, de cores insaturadas, sem esperança. Havia quem se encontrava ainda mais calamitoso, insaturado e principalmente sem esperança. Aquilo não estava certo, não era o que ele queria para si, sentia que era capaz de mais do que um chão duro de pisadas e uma garrafa de cachaça na mão. Naquela praça está o monumento que simboliza o marco zero da cidade de São Paulo. O totem hexagonal que possui seis caminhos representados na lateral do monumento, poderia também representar o marco zero da vida de Seu Nelson. Ele deveria escolher qual caminho seguiria. Estava pronto para amolecer as ruas de pedras. Foi para o movimento de moradia, e nesse caminho viu a verdadeira realidade das coisas. Se deparou com pessoas que passavam necessidades, pessoas não vista, mas que ele viu. Acabou se envolvendo tanto que passou a ajudar a coordenar o movimento.

Seu Nelson da Cruz. Por: Vitória Macedo Castro

A primeira ocupação que morou foi na Líbero Badaró, 58. Era uma antiga agência do banco nacional. Depois houve o despejo. Lembra indignado que Mario Covas jogou eles dentro do mato no Ipiranga. Achou que eles iriam ficar lá, feito bichos, mas a única coisa que queriam era um lugar para morar. Não queriam baderna, caso contrário o terreno não teria ficado habitável com 130 famílias.

Seu Nelson foi aprendendo a forma como queria ser tratado. Antes, refletia o outro, mas não conseguia se enxergar, se sentia nu e cru, sem nada o pertencer. Quando começou a viver a realidade e o presente, passou a se sentir inserido no mundo. Nu e cru o tratamento era obscuro, sem cor, sem olhar. Ele afirma que o movimento tem a capacidade de te fazer voltar no tempo, na verdade, ele dá outra chance. E com isso, uma das lições mais importantes, ao que parece, que aprendeu: tratar os outros bem para que também seja tratado bem.

Imagine só, uma pessoa vir do nordeste para essa cidade grande sem parente e viver, saber dar a volta em cima do próprio corpo e estar sobrevivendo. (Sobre)vivendo, algo sempre está acima do viver. Não vivem, sobrevivem. Lutam para sobreviver. Lutar e sobreviver. Essas palavras quase se fundem em um só significado. Sobreviver significa lutar todos os dias contra o sistema e contra o fardo carregado nas costas. Eles lutam. Buscam, um dia de cada vez, a mínima dignidade possível que lhes restam. Aqueles que vivem de forma extraordinária, às margens da sociedade lutam e sobrevivem.

Prédio. Por: Vitória Macedo Castro

O quintal do prédio é repleto de cartazes e grafites. Cartazes com frases de luta se embaralham com umidade e rachaduras do prédio. Os pássaros ainda cantam e chamam a atenção de Seu Nelson, que olha para cima a fim de localizá-los. Seu olhar se perde nas janelas com roupas penduradas e no céu cinzento que mescla com o cinza da construção. São lares anônimos que sequer existem, ou sequer são vistos. Mas que lugar é esse? Essa pergunta não pode ser melhor respondida do que com uma outra pergunta: quem são as pessoas que moram lá? Elas constituem esse lugar, suas histórias são esculpidas nas paredes, correm por cada andar do prédio que por ora chamam de lar. O tempo estava começando a fechar, mas como o canto dos pássaros, sua esperança ainda soava forte. “Rumo à vitória” ele disse. Apesar do cinza, muitas cores vibravam.

Quintal do prédio. Por: Vitória Macedo Castro

O elevador do prédio não vai para baixo nem para cima. Os moradores sobem degrau por degrau, um passo de cada vez. As paredes da escada são vermelhas, assim como a dos corredores. Impulsionam energia, luta, sangue, coração. Que bate. Mesmo que se bater na porta de número 126 ou 115 alguém dificilmente abrirá, o vermelho coração ainda pulsa.

Presunto e queijo 3 reais o quilo, bandeiras de cartões, adesivo Haddad 13. Tudo isso em uma grande porta aberta que dá para um mercadinho ao lado da escada. Prateleiras cheias de salgadinhos, bolachas e chocolates. Lá dentro Seu Júlio conversava com alguns moradores. Se aproximou e ficou ao lado dos recipientes com pães de leite.  Os olhos umedecidos e avermelhados; o preto desbotado da camisa polo combinava com o cabelo. As mãos repousavam confortavelmente em sua avantajada e curvilínea barriga, os dedos se entrelaçavam. O antebraço virou um cabide que sustentava o casaco marrom. Ao fundo, um cachorro latia tão alto que mal se ouvia a voz do senhor, baixa e rouca. Tais características não o impediu de ser direto e dizer que as pessoas ganham pouco e não conseguem pagar aluguel caro, caso contrário ninguém estaria ali. Ponto.

Conhece bem aquele prédio, ou melhor, quase não o reconhece. Faz parte da Mauá desde quando tudo começou, em 2007. Participou do processo para ocupar o prédio, ajudou a limpá-lo, a tirar oito caminhões de lixo. Com a mão ao lado da cabeça mostra a que altura estava o entulho. Agora está tudo uma beleza, nem parece que tinha a quantidade de ratos e baratas da época em que entrou, corredores limpos com placas de aviso sobre barulho depois das dez e estacionamento de bicicletas. Parece casa de gente, ele reconhece orgulhoso, não mais Carandiru. Pintada, limpa, e organizada, Seu Júlio diz que parece até casa de Doutor. No mar bravo e agitado, o prédio da Mauá é um barco que carrega muita cultura, as ondas querem virá-lo, mas os marinheiros-moradores continuam remando. (foto do corredor)

Seu Júlio já teve um barco só para ele. Já teve muitas casas e apartamentos na época em que veio de Minas para São Paulo, em 1962. Hoje não tem nenhum nem outro. Olhar para o passado é muito doloroso, visto o que lhe restou. Por um momento ele para. Diz que muitas pessoas o aconselhavam, mas ele nem dava bola. Adentrou em um mundo obscuro, de jogo, muitas mulheres, bagunça, até chegar na miséria. Sua boca entorta com o desgosto da lembrança. Correu para a ocupação quando se deu conta de que não tinha onde morar. O conselho não escutado fez falta. Estala a língua, deixava tudo para lá.

Seu Júlio. Por: Vitória Macedo Castro

 

Com 64 anos bem manifestados na pele, Seu Júlio mora sozinho, mas a solidão não é maior do que a sua fé. Para ele, mais do que estudo, o que tem valor é a vida eterna do coração, foi o que tentou ensinar aos dez filhos.  Se ficar doente, só Deus para tomar conta, quem sabe um morador aqui e outro ali. Veja só o que lhe aconteceu. Como de costume, todas as manhãs aparecia pelo mercadinho, até que uma semana se passou e nada do senhor dar as caras. Sete dias talvez seja o número mínimo que alguém sozinho leva para fazer falta. Os colegas começaram a perguntar por ele, achando que já estava até no sono eterno. Mal sabiam que estava em casa, não se aguentando de dor.  Uma mulher foi até a sua casa e chamou o demorado socorro. O atendimento foi de um descaso tremendo, o socorrista achava que tinha lugar melhor para estar. Pegou o Seu Júlio como um pedaço de carne, para demonstrar como foi, ele se arrasta pelo mercadinho. Se nem nas casas da cidade havia vaga para ele, imagina na Santa Casa. Solta um sorriso irônico que logo se transforma em uma risada, a situação de tão trágica chega a ser cômica. De lá foi parar em Santana, tomou sopa e foi dispensado. Ficou em uma praça sem poder levantar por nove dias. Pede a confirmação da Jo, moça que trabalha no mercadinho, que assente com a cabeça. Dado aquele momento, o pessoal todo já achava que ele estava a sete palmos abaixo da terra.

O levaram para outro hospital, mas dessa vez insistiram que ele precisava de ajuda. A solidão, como única companheira, nesses momentos não tinha o grado de ajudar. Ficou quatro dias internado. Soro e injeção, soro e injeção e remédio, os dedos iam da veia até as nádegas enquanto essas palavras eram pronunciadas. Deus salvou sua vida, só ele sabe o que o velho passou.

A rua é o seu local de trabalho. Vende água e vive com um salário de fome, não tem corpo que sustente. A coluna não aguenta mais; a hérnia, que Seu Júlio mostra a cirurgia levantando a camisa, já se manifestou; as pernas e os joelhos doem. Ainda espera sua aposentadoria, preocupado diz que esse negócio vai embarcar.

Escada. Por:Vitória Macedo Castro

 

O vermelho não está só nas paredes do prédio. Está no vestido florido, nas unhas descascadas, nos cabelos presos em uma piranha rosa. Está no olho esquerdo de Dona Elizabeth. Inchado e dolorido, nenhum remédio ajudou. Olho que lhe causou insônia, inchava cada vez mais. Não tinha jeito, teria que ir ao médico. A vaidade se faz presente em seus anéis, pulseiras, colar, e orelha cheia de furos com um brinco. Toda essa exuberância dourada contrasta o seu jeito tímido e fechado. Cruza as mãos sozinha em uma cadeira.

Chama a Mauá de casa há mais de três anos. Apesar da selvageria, a selva de concreto lhe agradou. Saiu de João Pessoa, Paraíba, na década de 80. Morava com o marido, só os dois, em uma casa humilde, até ele migrar para São Paulo atrás de emprego. Isso a fez voltar a morar com os pais. Um mês depois ela já estava com o marido novamente, teve que acompanhá-lo e também tentar a vida.

Dona Elizabeth preza pelo sossego de seu canto. Altas conversas e encontros no corredor? Nada disso, daí só aparecem fofocas. Prefere chegar do longo dia de trabalho e ir para o seu quarto. Afinal, sua rotina não é nada fácil, trabalha na rua com o marido das 11:30 até às 18:00 vendendo água, suco e refrigerante. Essas mercadorias com um piscar de olhos podem sumir enquanto trabalha. É a mágica do rapa. A todo momento ela e o marido têm que recuperar as bebidas para o ganha pão.  Além da mercadoria, ela mesma foi levada pela polícia como um pedaço de carne indo para o açoite, como se fosse uma ladrona. Os ladrões de verdade pela rua ficaram roubando, e a polícia passou por eles, mas pegou ela.

O preço para sair da cadeia era caro. Cobraram R$10 MIL pela sua liberdade, preço que não lhe cabia no bolso. Mais caro ainda por perceber indignada que o modo que encontrou para se sustentar era fortemente recriminado, um ladrão de celular passava ileso perto dela. Os “caras” não querem nem saber. O marido disse à polícia que não tinha esse dinheiro. O preço da liberdade caiu pela metade, no final, saiu por R$2 mil e pouco.  A Luz, onde trabalha, parece se apagar cada vez que ouve os gritos de alerta “olha o rapa!”. Corre para cima e para baixo o dia inteiro no escuro. O marido trabalha até mais tarde para ver se consegue uma grana a mais, horário em que os cavalos não ameaçam subir nas calçadas.

Alegria mesmo vem quando chega em casa e se depara com o amor inocente e puro de sua neta. O pai da menina mora no primeiro andar da ocupação, mas ela praticamente mora com a Dona Elizabeth, que até chama de mãe. Conta que a menina nasceu na portaria da Prestes Maia, acha graça e diz que não deu tempo de ela chegar na sala de parto.  A voz da avó desperta o grito de “mamãe, mamãe” da netinha, que a todo momento quer estar por perto. Se Dona Elizabeth vai ao mercadinho, tem que levá-la.

A rua lhe responde com opressão, a ocupação lhe responde com amor.

Enquanto esperava o filho para ir ao médico ver o olho vermelho, Maria José se aproximava. Dona Elizabeth carinhosamente chamou “venha cá neguinha”. A moça estava indo ver se o filho já havia terminado o corte no cabeleireiro. Seu cabelo preso no rabo de cavalo, vestia uma regata preta. Nas mãos segurava a chave do quarto que lhe pertence há um ano. Conheceu o prédio a partir de um tio que havia morado lá. Antes morava no Brás, mas as coisas começaram a apertar. O salário de doméstica e o trabalho de camelô do marido não conseguiram sustentar o aluguel. A mudança de casa teve seus lados positivos. Ali na Mauá ela se sente mais segura, mais à vontade.

Os oito anos em São Paulo já foram o suficiente para sentir falta da sua terra natal, Paraíba. A vida soa mais agradável ao sol do Nordeste, e mais familiar porque toda sua família está lá. No entanto, que a puxava para São Paulo era mais forte: o amor. Conheceu o marido paulista e veio para a cidade grande morar com ele. O amor foi forte, deu frutos, mas não supriu tudo. Não supriu a saudade que ainda sente. Hoje, segue firme com a sua família, ela, o marido, Deus e o menino. Falando em menino, estava na hora de ver se ele já tinha cortado o cabelo.

Maria José caminha pelo corredor iluminado em direção ao portão. Passa pelas plantas com algumas folhagens seca que o Seu Nelson rega e tenta cuidar ao máximo. Ele diz que elas são como a gente, precisam comer e beber também. Passa pela grade do porteiro e o cumprimenta. Dentro daquele cubículo, atrás da grade preta estava Carlos, sentado em uma cadeira preta giratória, de frente para uma bancada com papéis e um notebook. Vestia uma blusa de frio cinza, a manga direita levantada até metade do antebraço. Observava o fluxo, pessoas indo e vindo entrando e saindo.  Estava de costas para a parede com a televisão presa no alto, sintonizada em um programa matinal. Possuía um olhar desafiador, um sorriso de canto. Cabelo baixo, pintas no rosto.

As vozes altas da TV se confundiam com a voz de Carlos. Por estar próximo ao portão, as vozes da rua também se misturavam com a sua. Era o porteiro folguista. Enquanto os outros tiravam uma merecida folga, ele estava lá. Mas esse não é seu cargo oficial, pelo menos não desde quando chegou na Mauá, há nove anos atrás. Durante a semana faz algo completamente diferente, trabalha na Defensoria Pública. De Segunda a Sexta, o seu trabalho é com os Doutores, aos finais de semana, seu trabalho é em um prédio que parece de Doutor, como disse Seu Júlio. Ainda por cima, de vez em quando dá um de jornalista para aliviar o ócio. Quem diria que por trás daquela grande, estaria um ser tão amplo quanto Carlos.

O direito entrou na sua vida por acidente, como ele gosta de dizer. Fez a prova do ENEM, e como trabalhava, mas não tinha dinheiro para pagar a faculdade, foi atrás de um curso com 100% de gratuidade. Era apaixonado por sociologia, foi até uma faculdade que oferecia o curso, mas lhe ofertaram só 50% de desconto. Não desistiu, foi até uma faculdade de Serviços Sociais, mas também não lhe ofereceram bolsa integral. Até que o Direito lhe abriu as portas. Cursou, a partir de 2011, com gratuidade total. E não para por aí, desde sempre desejava trabalhar na área da biologia. Agora está pensando em finalmente entrar no ramo e fazer biologia marítima. Ainda está remando.

Desde aquela época já morava na Mauá. Chegou ali de maneira “esdrúxula”. Morava no interior do Maranhão, o qual diz conhecer todinho. Se separou da família e por consequência do destino foi parar em Portugal. A adaptação não veio, o clima era diferente, a comida, o lugar, tudo contribuiu para que ele não se aclimatasse no país. Logo foi embora, mas queria desbravar lugares novos, tentar a vida. Não queria ir para casa, e sim descobrir um novo lugar que pudesse chamar de lar. Chegou em São Paulo com a roupa do corpo e usando uma bela dose de coragem. Por sorte, as pessoas que o acolheram eram da mesma cidade que ele, a sobrinha de um padre muito amigo coordenava a ocupação.

O acolhimento foi digno de uma família como a da Mauá. Eles sempre procuram saber do dia-a-dia de cada um, estão juntos nos momentos bons e ruins, principalmente agora com toda essa crise. Todos tentam se ajudar da maneira que podem, o que falta para uns, outros completam. Ali é um coletivo… demora até achar a palavra que caracterize esse coletivo. Difícil definir a Mauá, porque são muitos corpos, muitos rostos, muitas personas. Enfim, diz: liberal. Todos se respeitam, convivem em harmonia e compreendem que cada um tem a sua opinião.

Além da família grande do prédio, tem também o seu núcleo. Mora com a companheira que faz bolos de tudo quanto é tipo, Carlos demonstra orgulho do trabalho dela. Os filhos já saíram de casa. Um é técnico na Segurança do Trabalho e o outro foi embora para Campo Grande onde se tornou pastor.

Assim que chegou na cidade grande, começou a trabalhar como auxiliar de cozinha. Como não gostava do que fazia, resolveu voltar a estudar. Estudou, estudou e estudou. Quanto mais estudava, mais portas se abriam. Empregos bons, até mesmo ruins, prestou concurso e viu sua vida melhorar um pouquinho. Com o semblante sério, ele diz que o estudo definitivamente é a melhor válvula de escape, principalmente dos pobres. A miséria desse povo pode ser grande, mas se tem uma coisa que esbanjam é a essência. São miseráveis porque estão à margem da educação, do serviço público, do transporte público, mas o espirito é riquíssimo.

A saída do interior do Nordeste mudou completamente a vida de Carlos. Antes de chegar ali, não conhecia os seus direitos como cidadão, nem seus deveres. Não conhecia praticamente nada, por isso não se interessava pelo social e consequentemente não podia levantar o braço e lutar. Hoje, sua percepção é outra. O interesse dele pela vida das pessoas, pelo o que o povo passa aumentou. Aprendeu que tem deveres, e que não são poucos, mas mais do que isso, aprendeu que ainda possui muitos direitos que precisam vir à luz. E literalmente no bairro da Luz ele luta e espera que esses direitos se revelem.

A saída do interior, não apenas físico, é essencial para perceber que no túnel escuro deve haver luz ao longo do caminho inteiro. Alguém impediu que as luzes dos túneis dessas pessoas fossem acesas. É preciso ter força o bastante para enxergar isso. Creio que elas enxergaram.

Leave a Reply