Indústria brasileira pode estar ameaçada, dizem especialistas

Superministérios tendem a perder o foco, segundo o professor Gustavo Coelho

Por Mayara Akie

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, decidiu unir os Ministérios da Fazenda, do Planejamento e o Mdic (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços) e fazer um superministério da Economia, que será comandado pelo economista Paulo Guedes.

Antes do anúncio, que aconteceu no dia 30 de outubro, Bolsonaro chegou a descartar a inclusão do Mdic no superministério, durante a campanha eleitoral devido à pressão de donos de indústrias.

Para o economista e mestre em economia Marcos Henrique do Espírito Santo é difícil ter certeza que a criação do superministério vai acontecer, já que eles anunciam algo e em seguida mudam de opinião, porém, se de fato ocorrer, é preocupante. “É preocupante no sentido dos interesses diversos e contraditórios dentro de um único ministério que vai ser gerido por um czar, que a gente está vendo que vai ser o Paulo Guedes, que tem um pouco de dificuldade, talvez, política até pelo tipo de resposta que ele dá, a forma como ele enfrenta questões mais complexas”, diz o economista.

Após o anúncio de criação do superministério, Guedes afirmou “salvar a indústria, apesar dos industriais”. Para o economista e mestre em economia política André Paiva Ramos, a fala é impressionante e gera uma preocupação pelo próprio perfil de Guedes. “Mostra-se um superpoder que vai ter uma pessoa que se apresenta superarrogante. É um economista com formação ultraliberal, e tem uma atuação muito direta no mercado financeiro”, afirma.

Para o doutor em Ciências Sociais, mestre em Geografia e professor da PUC-SP Gustavo de Oliveira Coelho de Souza, a indústria brasileira está passando por um processo de desinvestimento, sobretudo dos setores que incorporam maior inovação. “Tal processo ocorre pela falta de uma política clara de apoio governamental na área de pesquisa e inovação, sobretudo partir do vínculo entre a universidade e o setor produtivo”, diz o professor.

A preocupação no impacto do superministério na indústria acontece, de acordo com Souza, pois, ao incorporar uma grande gama de atividades, todo grande ministério tende a perder o seu foco e as ações prioritárias. “Esse é o grande temor de um “superministério” da indústria (aliado ao da economia e desenvolvimento), agindo em uma área já bastante fragilizada”, afirma o professor.

Espírito Santo vê que a indústria será pouco menos participativa, já que em comparação a grandes países, como Estados Unidos e Alemanha, o papel do Estado é decisivo para recuperação industrial e para dar subsídios. “Quando se coloca tudo isso embaixo de um único superministério onde tem uma visão, no caso do Paulo Guedes, ultraliberal, ou seja, não se deve dar nenhum subsídio, não se deve dar nenhum tipo de facilidade, você deve operar sozinho num sistema que é altamente competitivo”, diz o economista.

Para ele, colocar o Ministério de Indústria na estrutura da Economia é perigoso e um problema. “Faz com que a gente possa minar, ainda mais, a nossa industrialização, que já vem sendo minada nos últimos 30 anos”, diz.

De acordo com Paiva, a maior abertura comercial, ou seja, a diminuição de tarifas para importados pode gerar um grande impacto para as empresas brasileiras em termos de concorrência. E as pautas da equipe de Guedes devem favorecer o mercado financeiro e não o setor produtivo, que gera emprego e renda. “Pode gerar uma dificuldade adicional no setor produtivo doméstico e, dessa forma, impactar o processo de retomada do setor produtivo”, declarou.

Devido ao quadro econômico do Brasil, outra questão importante para o setor produtivo é a redução do papel do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Segundo Paiva, justamente porque o BNDES é praticamente a única instituição que garante oferta de crédito para a economia a preços competitivos e oferta de crédito de longo prazo.

“Essa já é uma medida que eles têm apontado de cunho mais liberal, principalmente, redução do papel do governo na economia, mas que pode trazer um efeito extremamente negativo para as empresas produtivas”, afirmou o economista.

Segundo Paiva, as empresas brasileiras já sofrem por vários aspectos que diminuem a competitividade em relação às companhias internacionais. As questões macroeconômicas, logísticas e tributárias precisam ser avaliadas muito bem para não ter um impacto negativo muito forte para a competitividade das indústrias e, de certa forma, acabar impactando e gerando um excedente maior de desempregados e uma quebra de empresas.

Para o professor, a falta de investimento em setores estratégicos da indústria nacional diminui sua competitividade o mercado, tornando-a vulnerável à concorrência de competidoras internacionais. Essa situação se potencializa pela lógica das economias globais, que, por serem extremamente seletivos, excluem mercados não competitivos, como o brasileiro.

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