Por Catharina Gaidzinski

Não há dúvidas que o processo da eleição à presidência brasileira em 2018 polarizou o país e causou inúmeros desentendimentos, inclusive dentro do próprio círculo social de cada um: esfriaram-se amizades e relações familiares, algumas, até, chegando ao seu fim. A corrida Bolsonaro x Haddad já era certa desde o começo, e não há como negar que discursos e propostas do primeiro candidato puseram medo em muita gente: negros, nordestinos, índios, gays, lésbicas, trans, mulheres; e seus simpatizantes. O pessoal do Teatro-Escola Célia Helena, localizado no Itaim Bibi, por exemplo, não se distancia de tais categorias: a maioria se encaixa em pelo menos uma, ou, no mínimo, é empático o suficiente para entender suas dores. E, com os resultados da eleição, os alunos se encontraram abatidos. Por opinião unânime, não é possível apoiar um candidato, agora presidente, que desrespeita todos os direitos pelos quais qualquer dessas pessoas já lutou. É suicídio: social, moral e até mesmo literal.

Quem não sente medo está certamente rodeado de privilégios, ou, no mínimo, alienou-se à verdade vigente e os ares de revolução que circulam no país. Não venho aqui criticar quem possui privilégios, mas a sua voluntariedade em continuar confinado numa bolha, sem ao menos querer entender o lado de quem muito provavelmente sofrerá as consequências da eleição do candidato. É o ódio pelo ódio, a intolerância porque “podem”; é a divisão da população entre quem tem medo do que está por vir e entre quem não liga, porque não lhe atingirá. É a morte da empatia, e com ela, também a morte de minorias, mesmo que só política, já que a reivindicação pelos seus direitos cessa.

O ano de 2018 dividiu o Brasil, e assim, abriu um portal para a população se rebelar contra tudo que desacredita, seja ela de direita ou esquerda, pró ou contra Bolsonaro. Os anos que nos seguem provavelmente não serão pacíficos. Não se conquistará a paz mundial. O Brasil mostrou sua verdadeira face, e não haverá irmandade entre esquerda e direita. E, mesmo que 45% da população votante (sem contar os votos nulos ou brancos) tenha se posicionado estritamente contra o que o candidato Jair Bolsonaro proferiu ou defendeu, há ainda os 55% que o apoiam minimamente, e os que fazem sinal de arma com a mão, que defendem a inexistência de um passado corrompido pela censura na ditadura, e que se colocam contra os direitos humanos, ou no mínimo, não ligam o suficiente para defendê-los universalmente. Nega-se a história do país e nega-se o que está por vir. Todavia, o pessoal do teatro não concorda. Atores e atrizes, jovens e revolucionários, se rebelam contra a extrema direita e o fascismo, comparecendo a manifestações, tendo conversas longas e fraternais, e, principalmente, se opondo ao atual presidente do Brasil.

Mural da entrada do Teatro-Escola Célia Helena. Foto: Catharina Gaidzinski

No dia 29 de outubro de 2018, um dia após o segundo turno da eleição à presidência, estudantes do Célia Helena se reuniram no galpão da escola com o Núcleo Corpo Palavra para discutir sobre o triste futuro do Brasil e seu retrocesso. A dança organizada pelas professoras Karina Almeida e Liana Ferraz reuniu alunos de todos os tipos, raças e sexualidades para virarem um só: um coletivo de proteção a si mesmo e ao próximo. O teatro, desse modo, se tornando um escape para poderem conversar, debater e criticar o atual cenário político do Brasil. Ao adentrar os corredores da escola, é impossível não sentir que os ares não são de felicidade, mas sim de tristeza, medo, e, principalmente, de resistência e força. Choro, grito, riso. É uma mistura de emoções. Os jovens se abraçam calorosamente. “Ninguém solta a mão de ninguém” dizem uns aos outros. Se for preciso, lutarão por seus irmãos do teatro.

Antes da dança proposta pelas professoras, houve uma reunião da FECH: a frente estudantil do Célia Helena. Desse modo, oito alunos se reuniram na sala de maquiagem para debater suas angústias e dores, rodeados de espelhos. Dezesseis pares de olhos pegando fogo, multiplicados pelas infinidades dos espelhos. Alguns sentam no chão, outros em bancos. Suas roupas são das mais variedades e cores: Calças jeans, vestidos floridos, blusas básicas, calças legging, all-stars e tênis destruídos. Olhos cheios d’água e fúria, porém sem derramar uma lágrima. Eles não darão esse tipo de força ao “outro lado”. Quando adentro a sala, eles já discutem sobre os atos aos quais compareceram, dizendo ser de máxima importância. Mas, defendem que quem não pode comparecer teve suas razões. Naquele momento, o movimento não parará. “Quando você falou, ‘eu queria estar lutando’, você já está lutando estando aqui. Quando você coloca a sua fala, quando você coloca o seu posicionamento, quando você vem aqui escutar os outros. Isso é luta. Quando a gente vem pensar aqui o que a gente vai fazer agora na frente. A gente ainda está no nosso processo de luta. A luta está em todos esses âmbitos. Então você não está deixando de lutar.” Diz um dos membros da FECH. “Você deixa de lutar quando a gente tenta se abstrair disso para entrar numa satisfação pessoal. Quando a gente se torna passivo e observador apenas. Observador é votar nulo”.

Eles continuam, dizendo que tem que ‘cuidar dos nossos’. De acordo com eles, a luta se faz vivo. Por isso, é preciso se vacinar, agasalhar e cuidar de si mesmo. A saúde é extremamente importante, e parte do próprio indivíduo perceber quando ele tem que olhar para a vida pessoal e quando ele tem que olhar para a vida política, de luta e resistência, mesmo que as duas coisas não se anulem. Eles prezam o coletivo, e ‘passar a força para o outro’, por isso a dança é tão importante. É preciso cuidar um do outro. A força é coletiva, e é preciso transformar a dor em luta, porque ela nasce daí. Eles continuam por discutir a manutenção do coletivo e do indivíduo, e um deles se dispõe a conversar com quem não se sente bem, caso necessário. De acordo com ele, a luta não é para ser fácil, e cada um tem que estar consciente da própria manutenção. Sabendo também que é possível buscar a manutenção nos outros, se for o caso.

“Nós estamos apenas um dia após a eleição. Pode ser que o baque melhore, diminua, mude, desenvolva. Mas o que a gente tá sentindo não é ilusão, a gente não tá louco. A manifestação através do ódio é real. Muitos votaram por causa de medo, e poucos votos foram a favor do amor. A gente tá sim sentindo o peso de tudo isso, mas, que isso, de alguma forma, vire incentivo para a luta. Só que a gente só vai poder fazer isso se a gente tiver bem.” O aluno diz. “Não tem como a gente se dilacerar. Olhem nos olhos uns dos outros. Os corredores do Célia estão aqui para isso.” E, realmente eles estavam. Então, a coordenadora Nani de Oliveira abre a porta de correr da sala de maquiagem. “Amores” diz ela. “Vamos lá para o galpão para a gente pôr os bichos para fora”.

Os alunos dizem que já vão, e quando a professora sai de sala eles voltam a discutir, por mais ou menos mais uns vinte minutos. A discussão que segue é rodeada de divergências. Eles questionam a dança, se perguntando se é o melhor momento e lugar para se mexerem de tal forma. Tão ligados ao corpo e ao emocional, alguns acham que não devem dançar agora. Talvez por medo do que isso possa trazer emocionalmente, ou talvez por simples ato de luto e tristeza. Mas, dizem que, se algum deles ali tivesse a necessidade de ir dançar, deveria ir, e até se propunham para acompanhar. Não deveria se pesar a consciência de cada um pelas suas necessidades individuais num momento tão difícil, já que a dança não seria um ato de irresponsabilidade. Ainda assim, defendem que a hora da FECH é de extrema importância, e mais importante ainda é a presença de cada um ali no núcleo. Aquele tempo deveria ser utilizado para discutir e fazer política.

Símbolo da FECH. Foto: Reprodução

Um dos alunos sugere a discutir e enumerar outras formas de mobilização, sem ser necessariamente os atos e manifestações que muitos não podem comparecer. “Por que a gente não abre de fato a FECH, falando algo do tipo ‘A situação tá ruim, mas a FECH tá aberta para conversar com você’.” Um deles propõe, dizendo ainda que “trocando ideia” seria possível ser mais produtivo e transformar as dores de todos os alunos em luta. Assim, ele diz que, mesmo não podendo ditar o que devem fazer ou não, não concorda que a ação das professoras deva ser incentivada por eles, e que eles não deveriam trocar o seu tempo precioso, já que o espaço político da frente talvez não seja mais importante para todos, mas que ele tem que existir, e não se deve trocá-lo.

Assim, eles encerram a reunião, e três dos oito alunos se dirigem ao galpão, para participar da dança. O galpão é uma grande sala, com chão de tatame preto e uma janela grande coberta por cortinas vermelhas, que deixa a iluminação mais dourada. Os alunos sentam na arquibancada, fitando a professora. Ela começa explicando que os movimentos que trariam à superfície o turbilhão de emoções. E que, se precisassem parar, era inevitável que parassem. Continua dizendo que construiriam imagens e pulsações, podendo utilizar do espaço da forma que quisessem, e também soltar sons, gritar e cantar junto com a música. De tal modo, ela começa com um aquecimento: três repetições de pulo, cada uma regida por uma música diferente.

Os alunos, de tal forma, muito excitados e felizes, quando ouvem a primeira música, começam a pular, sorrindo e gargalhando. O clímax do aquecimento, no entanto, vem quando é posta a segunda faixa: “Don’t Stop Me Now”, do Queen. É quase unânime: os alunos, ao ouvirem os primeiros segundos da música, se olham, energizados e eufóricos, e cantam junto a cada palavra. Os pulos então se fortalecem, e o chão estremece. O verso que dá nome a música, “Don’t Stop Me Now”, é cantado com extrema exaltação, quase que num grito conjunto. Quando Freddie Mercury, ídolo de muitos ali, canta “Cause I’m having a good time, having a good time”, os alunos vão à loucura. Fazem os movimentos que bem entendem, estremecem os braços, as pernas, sacodem a cabeça, sempre pulando com máxima energia. Ouvem-se gritos, uivos e os pés batendo no chão. “I don’t want to stop at all”, eles cantam. E, então, vem os “La La La’s” mais cheios de dor e felicidade já ouvidos. Até que, então, a professora Liana troca de faixa, já com os alunos extremamente animados. “Maria, Maria” toca no fundo, porém, quase não se ouve a voz de Elis Regina, tão grande é o entusiasmo dos atores em formação.

Freddie Mercury. Foto: Reprodução

“De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta”

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria”

Entre mãos ao alto, pulos, palmas e gritos, tais versos são cantados com máxima emoção, e ouve-se palavra por palavra. Os alunos conhecem a música de cor, e sabem de sua procedência inspirada pela ditadura. Assim, entram em sintonia com seus sentimentos de dor e angústia, compartilhados por Elis, mas sabendo que, no fundo, lutarão por uma arte decente e livre de censura.

Desse modo, terminada a última música, os alunos, extremamente suados e exaltados, partem para o “Jam” de dança. Movem seus corpos ao som da música, livres de qualquer julgamento ou pretensão. Fecham os olhos e sentem tudo que querem sentir. E então, começam a trocar de lugar e fitar uns aos outros, como quem diz “Estou te desafiando, mas ao mesmo tempo, estou aqui para você”. Os corpos balançam em uma união, fazem roda, desfazem, se movem como loucos, caem no chão, gargalham. Não ligam se não se conhecem, se são de cursos ou salas diferentes, tratam a todos como seus próprios irmãos. Assim, a prática de corpo proposta pelas professoras liberta os alunos para se expressarem e resgatarem suas energias coletivamente. Terminada a última música da Jam, todos se encontram exaustos e suados. Mesmo assim, sorriem, com os olhos cheios d’água. A professora profere suas últimas palavras de esperança, e diz que os alunos estão livres para ir. Esses pensam positivo, se abraçam, e reúnem forças, certificando uns aos outros de que “terá sim um amanhã”, e nele, se reuniriam no mesmo lugar, na mesma hora, com o mesmo sentimento de união e fraternidade, como faziam toda semana.

Dança organizada pelas professoras do Célia Helena no dia 29 de outubro de 2018. Foto: Catharina Gaidzinski

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