Por Maria Fernanda Hohlenwerger 

Dentro de uma casa no meio da grande cidade há cotidianos de idosos que compõem uma família. De diferentes idades , diferentes  fragilidades, o que há em comum entre eles e que os une é o carinho que ali se faz presente.

Todos que compõem a casa de repouso formam uma grande família. Essa é uma das primeiras coisas que  percebi ao entrar no local. A casa te acolhe e envolve nesse ambiente familiar. No primeiro momento senti uma certa estranheza, afinal aquela é uma realidade diferente para  quem não tem contato direto com esse tipo de vivência. Muitos idosos são particularmente “difíceis” devido as suas limitações e gritam, por exemplo, o que pode passar uma imagem errada para quem escuta e não sabe o que se passa ali, ou até agem de uma maneira que é a de que como se eles estivessem em outra realidade, e não no presente, no momento que estão ali vivendo. Mas há quem diga que, o que para muitos soam como gritos, para outros soam como uma cantoria, um som que preenche o ambiente e todas as suas lacunas.

Ora, mas o asilo é muito mais do que só gritaria e velhos debilitados, e é por isso que todos devem vivenciar aquilo para tirar todos os preconceitos que a sociedade coloca sobre os mesmos. Os próprios velhinhos se ajudam,muitas vezes até mesmo por sentirem falta de afeto de seus familiares, são muito unidos, carinhosos, amorosos e sinceros com todos os outros da casa. A casa de repouso é aquele lugar em que você senta ao lado de uma amiga e ganha carinho, assim de graça, sem esperar nada em troca.

A casa nasce do amor. Há respeito e paciência que suportam os pilares do ambiente. A cada asilo que se ergue, um ambiente alegre,  repleto de luz, com um ar que rejuvenesce nasce. É um ambiente que, apesar disso ainda causa certo estranhamento pois não condiz com o meio em que vivemos, porém estando presente ali, percebe-se como o ambiente é preenchido com amor, respeito, energias positivas que alegram o ambiente mesmo sabendo que muitos ali estão no fim de trajetórias de suas vidas, mas nem por isso deixam de viver, afinal eles também são gente que refletem a sociedade, ou seja, as ruas, suas vivências, refletem o que cada um é e se tornou hoje, em cada detalhe que o faz ser ele, uma pessoa única em meio a tantas outras iguais.  

É um lugar simples, mas que ao mesmo tempo tem tudo, tanto fisicamente quanto sentimentalmente, e é algo que pude ver e sentir em cada canto do lugar. O cheiro é agradável, leve como a casa e suas cores são suaves como as pessoas que ali vivem.

 Enquanto alguns já estão mais debilitados, outras se encontram, ou aparentam estar muito bem, ou seja, ao se pensar em um asilo, não necessariamente se deve pensar em um lugar em que estão pessoas “acabadas”, sem vida. Muitos se encontram ativos, e utilizam a casa de repouso como uma espécie de hotel com todo auxílio hospitalar que precisam, assim, muitas vezes, acabam por sair durante o dia e voltar no período da noite.

Diferente do que se pensa,ou do que pelo menos eu pensava, o que dá menos trabalho são os pacientes, e sim as famílias pois por exemplo, muitos idosos esquecem das coisas ou contam coisas que nunca aconteceram ou que quisessem que acontecesse um dia em alguns casos detalhadamente e faz com que os familiares acreditem no que foi dito por eles. Alguns dizem que não comeram quando comeram há 5min, outros caem, se machucam e familiares creem que foram maltratados e aí tem que mostrar vídeos das câmeras para provar o ocorrido . Alguns contam histórias tão detalhadas que familiares tem que se certificar com o asilo se aquilo que os foi contado é real ou não, além de falarem que não fazem algo sendo que fazem. Além disso. todos criam rotinas e vínculos entre eles, alguns até bem fortes ( em muitos casos, para não piorar um paciente, o asilo fala que a amiga de uma delas saiu do asilo, está com a família quando na verdade morreu).

O amor lá dentro também prevalece. “Cuida da minha veinha” foi uma das frases que escutei na casa. Enquanto sua mulher está no asilo, ele mora do lado de fora, e mesmo assim não deixa de visitá-la e amá-la todos os dias. O asilo não é um muro que os separa, exclui da sociedade. Pelo contrário, os cuida para que não deixem de aproveitar cada segundo da vida, da melhor maneira que podem.

Como é que elas se veem como idosas? Quais são suas histórias? Essas são algumas das perguntas que pude fazer a duas velhinhas.

“Eu tive uma infância maravilhosa. Eu fui criança. Aproveitei bastante, tive uma adolescência muito feliz, em que também aproveitei muito. Apesar de ter me casado nova, no começo eu até fui feliz, depois começaram os problemas e eu sofri durante um bom tempo.”

“A minha memória está ótima e graças a Deus ainda está funcionando, tá muito boa.”

“Graças a Deus ainda tenho minha independência, cuido de mim, resolvo minha vida.

“A minha relação com a minha família também é muito boa, graças a Deus. Me dou bem com meus irmãos e com meus filhos. Amo meus netos. Tenho 9 netos um bisneto. Amo a todos, morro de paixão. Gostaria que todos morassem pertinho de mim, mas moram no meu coração.”

“Eu acho que hoje em dia nós vivemos em uma sociedade podreEu acho que sou esquecida pela sociedade.”

“O envelhecimento para mim foi ótimo, aceitei ‘numa’ boa.”

“Possuo muitos sonhos. Eu acho que na hora que eu parar de sonhar eu não estou mais aqui. Enquanto vida tiver, eu to sonhando.”

“Quais conhecimentos eu adquiri na minha vida? A entender os jovens. Hoje em dia eu entendo a adolescência com muita mais compreensão, do que no tempo que eu tinha meus filhos adolescentes. Eu fui uma mãe muito rigorosa, sei que eles hoje se queixam disso, mas era porque eu não entendia ainda os jovens e hoje em dia eu entendo muito bem.”

“As minhas melhores memórias da minha vida são de quando meus filhos eram pequenos, que eu curti bastante. Eu amava demais meus filhos crianças. Hoje em dia eles estão grandes, são muito rebeldes.”

“O idoso ainda precisa ser respeitado nesse país. O idoso não é respeitado em lugar nenhum, os jovens não respeitam os idosos, são poucos os que respeitam. Mas faz parte da vida, eu entendo os adolescentes.”

“Tenho 77 anos e sou feliz assim, muito feliz.”

E foi assim que a idosa Azeneth Tavares terminou sua fala. Muito bem humorada, leve como uma pena, ela pôde preencher o ambiente, com palavras que te conduzem a uma viagem no tempo.

Mostrando as diferenças e as particularidades que cada um possui dentro de si, Zorilda Silva, de 74 anos também partilhou um pouco de sua história.

“Eu vejo a sociedade como uma união de pessoas que têm um objetivo. Então dentro desse objetivo, cada pessoa vive a sua vida. Eu, por exemplo, não me acho esquecida pela sociedade. Me acho membro ativo dela e jamais me esquecerei dela, porque sempre vou procurar conviver, já que é um hábito que a gente deve ter de não viver sozinha, mas sempre em convivência com outra pessoa que forma a sociedade.”

“O envelhecimento ‘pra’ mim acho que ainda não aconteceu. Tenho 74 anos, me acho muito ativa, trabalhei até os 72 e continuo trabalhando voluntariamente. O envelhecimento é aquilo que as pessoas pensam que perdem a memória, que não servem mais para nada, e isso não aconteceu comigo. Eu continuo ativa e acho que meu envelhecimento vai acontecendo à medida que a idade passa evidentemente, mas sempre buscando um objetivo de construção na vida.”

“Eu ainda tenho sonhos de realizar, ajudando as instituições que precisam de mim, contribuindo para que as pessoas com mais necessidade vivam melhor.”

“As melhores lembranças da minha vida são de quando eu vivia em minha cidade do interior, onde a gente era conhecido de todo mundo. Meu pai era chefe político então a gente convivia com político, eleitor, índio, convivia com todos. Isso foi uma experiência maravilhosa porque eu aprendi a conviver com pessoas diferentes, com classes e pensamentos diferentes.”

“Minha saúde continua bem, graças a Deus, e tenho uma memória, claro que a gente às vezes esquece de nome de pessoa, etc, mas a memória em si continua boa, e continuo lendo e querendo aprender cada vez mais porque essa é a vida que a gente deve ser, ativa e produtiva.”

“Com relação a família, eu procuro sempre ter a melhor possível, porque a sociedade mais próxima da gente é a família, é a construção que no momento que a gente casa, forma uma união, constrói uma família, e essa família é a nossa base, é a base do edifício da sociedade.”

“Eu acho que o objetivo maior da vida da gente, para viver bem, é desejar ao outro aquilo que a gente gostaria que o outro nos desejasse e nos fizesse, o que acontece com os outros, acontecesse com a gente. Se a gente deseja o bem, o bem volta pra gente. Então é desejar ao outro aquilo que a gente deseja para nós mesmos.”

Ao conversar com as duas, observei como ambas, apesar de serem tão próximas, são tão diferentes. Cada uma com seu passado, sua história, elas deixam suas marcas no asilo, e em cada um de nós. O ambiente é marcado por diferenças, mas as próprias diferenças são capazes de uni-los. 

Apesar de tudo isso, não me vejo morando lá, apesar de ser um ambiente bem receptivo, amoroso, carinhoso. Acho que muito disso se dá por conta da nossa cultura que ainda  possui uma visão negativa enraizada dos asilos/ casas de repouso. Mesmo após ir lá e ver o contrário, ainda não foi o suficiente para me ver morando lá quando envelhecer.  

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