Por Luana Coggo

Parado em frente à porta de entrada do ponto de encontro dos narcóticos anônimos, Seu Manoel, de 41 anos, viciado em crack há 2 anos e meio e morador de rua há 5, ora de olhos fechados e mãos cruzadas antes de entrar para a reunião. O homem com cabelos grisalhos, que carrega um olhar cansado, manchas na pele e poucos dentes na boca, diz que nem sempre sua vida foi uma tragédia, e que se não tivesse conhecido a palavra de Deus, jamais teria forças para colocar os pés ali.

Manoel ocupava uma das 8 cadeiras que formavam um círculo dentro da sala abafada do Narcóticos Anônimos. O som dos ventiladores tornava a voz de quem falava mais amena e silenciosa, mas os olhares derrotados de cada uma daquelas pessoas não desviavam a atenção por nem um segundo. A organizadora e psicóloga do grupo de apoio perguntou quem gostaria de começar a reunião dividindo sua história, angústias e vitórias até então. Seu Manoel foi o primeiro e único a levantar a mão, ainda que com a cabeça baixa. Se apresentou e contou toda sua jornada, desde sua entrada na faculdade de pedagogia, como conheceu sua ex esposa Kátia, a trajetória que juntos eles criaram, o nascimento de cada um de seus 3 filhos, contou como foi gratificante quando ele foi efetivado na escola em que trabalhava e finalmente conseguiu realizar o sonho da casa própria.

O tom de voz de Seu Manoel mudou quando ele ingressou na parte de sua história em que sua irmã faleceu e ele entrou em depressão. Nas pausas longas que o senhor cansado dava para recuperar o fôlego, reinava na sala um silêncio ensurdecedor. O relato dele passou a ter um ar de arrependimento profundo quando ele confessou que nesse período passava no bar que havia perto de sua casa todos os dias depois do trabalho, e raramente sua esposa não tinha que ir até lá busca-lo, embriagado. Manoel contou que não aceitava ajuda de ninguém a nenhum custo, o que gerou um desgaste em sua relação amorosa e familiar, tornando sua casa uma morada de discussões e tristeza.

Rita, de 23 anos, que estava sentada ao lado de Seu Manoel, com pernas magras cruzadas, roupas velhas no corpo e um cabelo longo, cacheado e sujo, aproveitou uma de suas pausas para intersectar sua história com a dele. A jovem mulher contou com um ar de alívio que sabia exatamente como Manoel se sentia. Ela perdeu seu irmão de 5 anos em um assalto a mão armada que resultou no assassinato de seus pais e seu irmão caçula. Rita disse que naquele ano ela virou um zumbi, não passou pela fase alcoólica, entrou de cabeça no mundo das drogas. Manoel e Rita pareciam ter combinado as falas por tamanha semelhança na descrição do que sentiam quando usavam a droga e por que usavam. O crack os tirava da realidade que os torturava, e enquanto o efeito durava, sentiam-se anestesiados das dores que a vida lhes tinha causado.

Ambos estavam ali à procura de uma saída que os levasse de volta para a vida que a droga havia lhes tirado. Manoel desejava mais do que tudo voltar para casa em busca do perdão de sua ex esposa, para tentar recuperar a vida de marido e principalmente pai. Para ele, a saudade dos filhos era o que mais o incentivava a frequentar aquele grupo de apoio. Já Rita, sonhava em retomar os estudos e se formar em Direito, na esperança de conseguir estruturar sua vida, comprar uma casa própria e quem sabe um dia casar-se. O desejo deles era de deixar o passado doloroso no passado, e levar consigo apenas as boas lembranças que existiam dentro deles.

Após dividirem suas experiências, Rita e Manoel deram as mãos em um gesto de irmandade. O senhor terminou de contar sua história dizendo que as drogas o fizeram agredir sua esposa diversas vezes, maltratar seus filhos e magoar seus pais e que, naquela terça feira à noite ele finalmente pôde perceber o quão ingrato foi. Ele afirmou também que após recuperar-se, procurará ajudar todos os que precisarem, pois a situação do alcoolismo é a porta de entrada para as drogas, e depois que se está dentro, dificilmente se sai. Naquela noite, Manoel estava limpo há 6 meses. Rita, há 2 semanas. A sala apertada encheu-se de aplausos e algumas lágrimas que não deixavam dúvidas de que aquelas dificuldades eram comuns a todos ali presentes.

Inesperadamente uma mulher com chinelos desgastados levantou da cadeira em que estava sentada para pronunciar-se e dividir sua história. A mulher era Adriana, de 36 anos, livre das drogas há 25 meses. Diferentemente de Manoel e Rita, Adriana contou que sua vida nunca chegou a ser boa. Com pai traficante e mãe drogada, foi abandoada na rua e por ela foi criada. Aos 12 anos, já fazia pequenos assaltos à mercados para conseguir comer e aos 14, começou a trabalhar para um traficante de sua comunidade. Sem muitas saídas, começou a usar as drogas que deveriam ser vendidas por ela, e acabou se envolvendo em uma enorme dívida com o comandante do tráfico. Para tentar dissolver a dívida, se envolveu em assaltos maiores para obter meios de quitar o pagamento. Porém os juros exigidos pelo traficante nunca eram saciados e Adriana foi obrigada a fugir de sua comunidade, migrando apenas com suas roupas do corpo para a cracolândia.

Adriana passou muitos anos de sua vida fora da realidade devido aos efeitos das drogas que usava. Ela foi salva e levada à uma clínica de reabilitação por um grupo de voluntários que visita regularmente a região da cracolândia na tentativa de tirar o maior número possível de pessoas dali. Adriana, em uma dessas visitas, aceitou ajuda e passou 1 ano e meio internada. Depois que recebeu alta, recebeu a recomendação de frequentar um grupo de apoio com aquele em que ela estava naquela terça feira calorosa. Esse grupo que recebeu Manoel, Rita, Adriana e as outras 5 pessoas presentes é um dos milhares que existem por todo o Brasil e são chamados Sociedades ou Irmandades e não possuem fins lucrativos. São formados por homens e mulheres que apoiam aqueles que tiveram suas vidas devastadas pelas drogas. São pessoas em recuperação, que se reúnem semanalmente para a troca de experiências e a ajuda de uns com os outros a se manterem limpos. O grupo acolhe pessoas que desejam se abster de qualquer tipo de droga. O único requisito para a participação é a vontade da mudança. Os programas de cada grupo sugerem um conjunto de princípios escritos de maneira simples, para que todos compreendam e possam aplicar no dia a dia.

O grupo de Manoel, Rita e Adriana era também o grupo de Pedro, rapaz cabeludo e alto de apenas 17 anos. Pedro foi o último a falar e só o fez porque não lhe restava outra opção. Se ele estava ali por ajuda, precisava pedi-la. Com a voz rouca e quase muda, Pedro disse que não tinha muito o que contar, afinal, sua vida mal havia começado e ele já tinha destruído. Pedro vinha de família bem sucedida, sempre estudou nos melhores colégios e frequentou os melhores luagares. Ele relatou que tudo começou em uma saída com alguns amigos da escola, onde pela primeira vez lhe ofereceram maconha. O jovem diz sempre ter gostado de experiências novas que o tirassem da zona de conforto que seus pais o haviam colocado. Sendo assim, ele aceitou de primeira, e desde então passou a aumentar a frequência que fumava. De semanalmente, passou para diariamente. Após meses nessa rotina, a maconha já não satisfazia Pedro como antes; Ele sentia a necessidade de algo mais forte, que lhe trouxesse maior adrenalina. Nas baladas que ia, começou a experimentar Lsd, lança perfume e outras drogas alucinógenas.

Certo dia optou por experimentar cocaína, e nela se encontra viciado até hoje. 6 meses se passaram e o rapaz já não frequenta a escola, onde deveria estar terminando o ensino médio. Os pais do garoto, apesar da enorme dificuldade que tiveram que lidar ao receber a notícia de que seu filho estava viciado em drogas, estão apoiando o garoto em sua recuperação. Procuraram a ajuda de um psicoterapeuta que possa lidar com as questões sentimentais envolvidas na crise do garoto, levaram ele à uma clínica de reabilitação que oferece tratamentos que não exigem a internação do paciente, desde que haja no mínimo 2 responsáveis pelas medicações e observação. Aquela era a primeira reunião de Pedro. Era nítido em seu olhar que nada daquilo estava sendo fácil para ele, afinal, ele era apenas um rapaz de de 17 anos.

Ouvindo cada uma dessas histórias que conseguem ser, ao mesmo tempo tão distantes e tão semelhantes, não restam dúvidas de que o problema com drogas há de receber um olhar muito mais cauteloso do que recebe hoje. Motivos diferentes levam as pessoas à entrarem nas drogas, mas o mesmo as fazem querer sair. A maioria das pessoas vê nas drogas uma saída para os problemas que estão sendo postos à frente de cada um. Quando uma pessoa fragilizada entra no mundo das drogas, não faz ideia do que esse ato irá acarretar para o resto de sua vida, é por isso que é de suma importância a existência de grupos de apoio como os narcóticos anônimos.

Os Narcóticos Anônimos (NA) não possuem quaisquer filiações a outras organizações, partidos políticos, religiosos ou policial, não impõem taxas ou matrículas, nem exigem compromissos escritos ou promessas com quem quer que seja. Em nenhum momento os grupos estão sob vigilância, o que acontece lá, fica lá. Para ingressar nas reuniões, não há restrição de idade, raça, orientação sexual, situação financeira, crença, religião ou ausência dela. Eles não exigem explicações sobre o passado de cada um, apenas desejam saber da disposição em mudar de vida e em como podem ajudar de acordo com a situação do presente. Para eles, a experiência coletiva pela qual eles passam, faz com os frequentadores mantenham-se limpos.

Decorrente do cenário mundial atual, gerado a partir de um histórico de aumento na produção e consumo de drogas, a história de Seu Manoel é apenas um exemplo dentre os milhares que vivem em nossa sociedade, frequentemente perto de nós. Tratando-se apenas de São Paulo, estado em que Seu Manoel vive, destaca-se o aumento alarmante dos frequentadores e moradores da região da Cracolândia, área localizada no centro da cidade. Um levantamento feito pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social revela que, em um período de um ano, o fluxo de dependentes químicos na região da Luz cresceu em 160%. Os dados apontam que em média, a quantidade de frequentadores passou de 709 pessoas em 2016, para 1.861 em 2017. Esse levantamento feito sobre o perfil dos usuários da Cracolândia revela que grande parte das pessoas que se despuseram a dar entrevista não possuem ensino médio completo, porém a proporção de usuários com ensino superior aumentou nesse período de um ano. Foram apresentados também dados que apontam que nem todos os frequentadores são de fato usuários de Crack, com 15% de alcoolistas e 13% que referiram não usar nenhuma das substâncias.  

Seu Manoel e Pedro, assim como milhares de outros cidadãos, não frequentam a Cracolândia, mas isto não implica na ausência de moradores de rua em outras regiões da cidade ou a inexistência do problema relacionado ao aumento das drogas na maioria da ruas de São Paulo. São contabilizados, ainda que em média, os lugares onde há uma maior concentração de dependentes, mas se fosse estudado e calculado cada pequeno grupo que vive em cada viaduto, cada esquina e cada beco de São Paulo, a realidade viria à tona. Tratando-se de um cenário mais amplo, expandindo-se para a situação brasileira e mundial, o cenário fica ainda mais obscuro.

De acordo com o último relatório publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), cerca de 5% da população adulta, ou 250 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos, usou pelo menos uma droga em 2014. A pesquisa relatou também que o Brasil é o maior mercado de derivados de ópio (como a heroína) na América do Sul. No País, atualmente, há cerca de 600 mil usuários de entorpecentes. A Agência da ONU declarou que o consumo de cocaína e maconha aumentou de 0,4% em 2001 para 0,7% da população entre 15 e 64 anos em 2005.

A pesquisa ainda revela o crescimento do tráfico de cocaína na região Sudeste, além do aumento da exploração do Brasil por grupos do crime organizado internacional. Um dos fatores que podem ser responsáveis pelo aumento do uso de cocaína no País, segundo a UNODC, é a localização geográfica onde se encontra, favorável às rotas de tráfico de drogas vindas da Colômbia, Bolívia e Peru, com destino à Europa. Ainda assim, as regiões Norte e Nordeste são significativamente menos afetadas do que as regiões Sul e Sudeste. Para o representante regional do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Giovanni Quaglia, as drogas devem ser tratadas como uma questão de saúde pública. “É preciso trabalhar mais na prevenção e oferecer serviços a quem busca tratamento contra a dependência. E funciona. A Suécia, por exemplo, gasta 30% a mais em prevenção e tem 30% menos usuários de drogas que a média européia”, disse Quaglia em um comunicado da agência.

A legislação brasileira, assim como a maioria das demais em outros países, não prevê penalização para usuários e dependentes químicos. A defesa da liberdade é baseada em pesquisas que alegam que a atenção do usuário deve ser voltada ao oferecimento de oportunidade de reflexão sobre o próprio consumo, e não o encarceramento, que não o ajudaria a melhorar de vida. A justiça, portanto, deixa de basear-se em um princípio retributivo, que simboliza o castigo, e passa a seguir o segmento restaurativo, que possui como maior objetivo a ressocialização e reintegração do indivíduo na sociedade por meio de penas alternativas, como o tratamento psicológico oferecido para dependentes químicos.

No Brasil e no mundo tem se tornado frequente a presença de familiares ou conhecidos com problemas relacionados à drogas. Uma das atitudes que podem e devem ser tomadas por aqueles que querem ajudar alguém próximo, é a procura por uma clínica de reabilitação, que, na maioria dos casos, é capaz de devolver parcial ou totalmente a qualidade de vida do então usuário de narcóticos. A partir dos primeiros momentos de contatos com uma clínica especializada, o dependente já começa a ter um acompanhamento psicológico, garantindo que a readaptação ocorra da melhor maneira possível. Essa primeira fase do tratamento auxilia o cidadão a resolver as questões existenciais que o levaram a consumir a droga em um primeiro instante.

Além do tratamento psiquiátrico, os pacientes recebem auxilio com remédios que ajudam no processo de desintoxicamento e abstinência, sempre acompanhado por médicos. O tempo recomendado para a permanência de cada paciente na clínica é diferente, visto que os quadros raramente se igualam e dependem de avaliações médicas cautelosas que exigem como tratamento, diferentes planos. É de suma importância que os usuários tenham a chance de conhecer algum dos milhares de grupos de apoio, onde possam se sentir parte de algo maior e possam encontrar apoio e ouvidos interessados em sua história necessários. As histórias contadas no grupo de nacóticos anônimos provavelmente se intersectam ao pontuar a dor e a solidão sofridas por aqueles que vivem dessa maneira, ou até mesmo na forma como a maioria ingressou nesse universo tão complexo e tão abafado pela mídia e governos estaduais e federais.

É preciso um estado de maior cautela com essa significante parcela da população, que circula pela cidade apenas com um resto de vida que está sendo desperdiçado por falta de cuidados e monitoramento necessários. Se o estado procurar implantar medidas que acolham e tratem esses dependentes, os dados alarmantes que representam a realidade tenderiam a diminuir. Outro processo de suma importância é a educação escolar, que deve desde a base até a formação abranger assuntos de saúde pública, como é o caso das drogas. Principalmente nas periferias, onde o acesso à informação é ainda mais restrito do que nos lugares com média e alta renda, devem ser criadas medidas de conscientização e educação das crianças, jovens e adultos, para que o problema possa ser evitado, em vez de resolvido. Além das políticas preventivas e educativas, medidas devem ser criadas para que haja um maior controle sobre a questão do tráfico inter e nacional de drogas. Enquanto houver entorpecentes circulando pelas cidades e pelos países, a situação continuará quase que incontrolável.

 

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