O ativismo brasileiro em universidades portuguesas

Por Gabriel de Souza Damião e Mariana Lopes

 

A Frente de Imigrantes Brasileiros Antifascistas (FIBRA) foi criada em 14 de novembro deste ano por um grupo de colegas que partilhavam dos mesmos princípios progressistas em Porto, ao norte de Portugal. Os integrantes afirmam que o coletivo é uma frente circulatória e potencialmente renovável que pretende organizar, de forma horizontal, imigrantes e estudantes brasileiros residentes temporal ou permanentemente em Porto, tendo como elo o antifascismo e o ideário progressista. O grupo ainda está fechado para organização interna, mas a intenção é  estabelecer eventos abertos em breve. ”Portugal, nossa casa fora do Brasil – para muitos de nós a primeira casa – , também não está imune à toxicidade dos discursos de ódio, tendo os grupos de populismo nacionalista que neles se afirmam crescido de forma preocupante” dizem em sua primeira postagem.

Desde 2005, o número de estudantes universitários brasileiros que optam por se formar no país lusitano subiu de 1.900, para 12.245, um aumento de 540%. Um dos atrativos para os jovens, e que pode explicar o aumento súbito nas solicitações de vistos, foi a aceitação do ENEM pelas universidades de Portugal a partir de 2014. Já são mais de 30 universidades que admitem a prova como modo de aceitação do aluno brasileiro. Em 2017, só no estado de São Paulo, o número de vistos expedidos para estudar no país aumentou 35% em comparação ao ano anterior.O Instituto Nacional de Estatísticas de Portugal (INE), publicou que estudantes estrangeiros compõem cerca de 30 mil do país.

Segundo Julia Lopes, estudante brasileira da Universidade de Coimbra, os portugueses não são envolvidos em questões sociopolíticas nacionais, como o brasileiro tem se tornado, com o fortalecimento crescente dessas pautas. “Eu, particularmente, sou muito ligada com a questão feminista, e participo da Assembleia Feminista, mas de 40 pessoas, 20 são brasileiras, 17 italianas e 3 portuguesas” afirma a jovem, “ ela só passou a existir porque algumas brasileiras e italianas se uniram para criar em 2016, então é muito recente”. A universitária diz ver que os portugueses apenas se envolvem coletivamente nas questões internas das faculdades, como em eleições para Associação Acadêmica. “Tem muito brasileiro aqui em coimbra que era muito ligado a causas sociais e políticas no brasil, mas ao chegar aqui grande parte parou de se manifestar em coletivos”.

Para a estudante portuguesa Alexandra Venade, a população é “habituada ao fado, destino e às dificuldades”. Ela os compara com os espanhóis e italianos, que tendem a reagir contra pressões ou políticas com as quais não concordam, saindo para a rua. Já os lusitanos vivem com uma cultura de resignação e mal-estar, assolados pela sombra da ditadura extremamente opressora de António Salazar (1926-1974). “esta cultura faz com que as pessoas não exploda, não reajam às questões”.

 

Uma reunião da “Frente Unitária Antifascista” em Braga. Fonte: https://ominho.pt/frente-antifascista-criada-em-braga/

Uma reunião da “Frente Unitária Antifascista” em Braga. Fonte: https://ominho.pt/frente-antifascista-criada-em-braga/

 

Além da FIBRA, foi criada a Frente Unitária Antifascista em Braga, na Universidade do Minho, que também aceita jovens brasileiros pelo ENEM. O grupo é constituído por associações de esquerda e estudantes da universidade, e tem como objetivo a expansão de seus ideais de luta pelo território nacional, combatendo a ociosidade política da população local.

Após as eleições no Brasil, de acordo com Julia Lopes, que faz parte da rádio universitária que cobriu as eleições, a opinião em Coimbra foi bem dividida, apesar de Portugal ter sido o país europeu que mais votou no futuro presidente Jair Bolsonaro.  “Existiam diversos cartazes espalhados pela cidade dizendo #EleNão, mas logo após as eleições um grupo de eleitores tirou os cartazes, afirmando EleSim.”

Em meio ao turbilhão político, os brasileiros não deixam de manifestar um claro contraste com a população portuguesa. Após uma eleição marcada por extremismos, as manifestações políticas transbordam as fronteiras nacionais e permanecem presentes nos estudantes de universidades estrangeiras.

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