Por Maria Eduarda Cury

Era 1989 quando o cineclubista Adhemar Oliveira participou da criação da Mostra Banco Nacional de Cinema – um evento cinematográfico de extrema importância no território carioca – e que, posteriormente, abriria portas para a criação do primeiro cinema de rua da rede Espaço Itaú de Cinemas.

Além de participar da criação dos cinemas da rede – cuja base é promover a maior integração do público não-centralizado em grandes centros urbanos com o movimento do cinema –, Oliveira também fundou a empresa Cinespaço, baseado no conceito de Cinema Artplex – também conceituado por Adhemar –, que visava ampliar o acesso tanto ao circuito de filme de arte quanto ao alternativo, para todos os públicos.

Antes da instalação do Espaço Banco Nacional de Cinema – nome original – na Rua Augusta, residia lá o Cine Majestic, fundado em 1947 pela família Moussali e que se encontrava em péssimo estado; Adhemar, então, reformou o local e três novas salas modernas, com direito à livraria e café – que existem no local até os dias de hoje – para deixar o local mais convidativo, além da presença de vegetação.

O que não estava nos planos de Adhemar era que, em 1995, o Banco Nacional viria a falir. No entanto, o Unibanco logo o absorveu para si e a rede foi incorporada pela fundação cultural mineira Instituto Moreira Salles, que passou a utilizar o nome de Unibanco Cinemas para a divulgação e abertura de novos complexos, que seriam em Belo Horizonte – Cine Imaginário Banco Nacional e Cineclube Banco Nacional Savassi -, e também a abertura de novas salas nos complexos já existentes de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Foi somente em 2010 que a rede viria a mudar o seu nome para Espaço Itaú de Cinemas, quando a marca Unibanco Cinemas deixou de existir; com isso, veio também uma remodelação do estilo visual de todos os cinemas da rede, e também a adição destes em shoppings centers, como o Shopping Casa Park em Brasília e o Shopping Bourbon em São Paulo.

O portal virtual FilmeB, especializado no mercado cinematográfico mundial e, principalmente, norte-americano e brasileiro, reúne dados e estatísticas que dizem respeito aos resultados finais de cada setor do ambiente cinematográfico – seja por venda de ingressos por cinema, filme, público e alcance respectivo ou geral.

Foram reunidos dados da database do Box Office do FilmeB e do relatório anual da ANCINE sobre o desempenho somado das salas de cinema do Espaço Itaú com as do Cinespaço para fazer uma tabela de comparação:

Outro fator que contribuiu para a adesão de um público quase que centralizado, é a opção de o espaço passar filmes que não rodam nos circuitos Multiplex – filmes que alcançam maior bilheteria e são feitos por grandes nomes como Warner Bros e Fox – (Cinemark e PlayArte, por exemplo) e possuem uma “pegada” mais alternativa e independente, além de atraírem especificamente o público que tem um conhecimento mais aprofundado e interesse em ir além das obras da indústria Hollywoodiana.Com o avanço tecnológico e melhoria dos cinemas dentro de shopping e complexos, a preferência por estes ao invés dos tradicionais cinemas de rua vem aumentando consideravelmente, visto que há a questão da segurança, comodidade e melhor localização em jogo; isso pode ser observado na consistência de público que a rede conquistou entre 2012 a 2015, e na queda presenciada em 2016.

No entanto, sabe-se que para manter um cinema é necessário que se atenda a todo tipo de público, principalmente pelas suas casas estarem localizadas em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte; portanto, também são exibidos filmes blockbuster. Citando alguns que estão em cartaz atualmente no Espaço Itaú da Rua Augusta, temos: Nasce Uma Estrela, dirigido por Bradley Cooper; Animais Fantásticos e Onde Habitam, da franquia cinematográfica Harry Potter; Bohemian Rhapsody: entre outros que são produzidos para a demanda popular – que, no contexto, refere-se à produções de grandes distribuidoras.

Além da questão da rede cinematográfica ser uma ideia de reunir tanto os filmes do circuito Artplex quanto os do circuito Multiplex, é importante também ressaltar que a estrutura e ambiente destes (principalmente os de rua) foi pensada para ser algo  mais aconchegante e que trouxesse um ar maior de simplicidade e conforto para àqueles que se deslocam para assistir aos filmes, principalmente por ser um lugar aberto.

O acesso para o cinema é uma escadaria inclinada que dá vista ao “pátio” do local, com vegetação lateral e uma sensação de ser um local pequeno; chegando ao topo, há uma placa chamativa escrita em giz indicando o cardápio do pequeno café que se encontra à direita, e é decorado com postêres de filmes antigos na parede, como o clássico “Noites de Cabíria”, dirigido pelo italiano Federico Fellini em 1957; seguindo em frente a partir da placa e virando à esquerda, logo temos a bilheteria, indicada por uma placa de metal. Sobre os filmes em cartaz, a disposição destes não varia muito de como ocorre em outros cinemas: são dispostos em sequência por meio de painéis digitais que ficam alternando a cada 15 segundos.

Como fora representado acima, não só de boas salas de cinema se faz um cinema moderno – por mais antigo que seja – e aconchegante: em 2017, no “Oscar das Salas de Cinema” realizado pelo Estadão, a bonbonniére do Espaço Itaú de Cinema da rua Augusta foi eleita a melhor de São Paulo, e foram analisadas as instalações de 46 complexos cinematográficos do estado. Sobre avaliação virtual e dos consumidores, dentre um total de 3.487, a média é 4,5/5 estrelas, com clientes avaliando também a acessibilidade virtual do local.

Responsável por ter retomado a produção de filmes brasileira entre 1994 e 1995 – em 94, foram exibidos durante um ano oito filmes nacionais para 100 mil espectadores. e em 95 o número triplicou, com a exibição do longa “Carlota Joaquina” ficando em cartaz por um semestre inteiro -, o cinema é ainda responsável por promover filmes nacionais, tendo em exemplo os que estão em cartaz atualmente: “O Grande Circo Místico”, com Jesuíta Barbosa e Bruna Linzmeyer; “O Colar de Carolina”, com Letícia Sabatella; “A Voz do Silêncio”, com Marieta Severo; entre outros, sendo que o único a também ser exibido na rede Cinemark é o primeiro da lista, dirigido por Carlos Diegues, embora os três tenham um elenco relevante e renomado na televisão brasileira.

Quando o filme “Aos Teus Olhos”, dirigido por Carolina Jabor, estava em cartaz, fui assisti-lo na primeira semana e, junto à mim, estavam apenas mais três pessoas no cinema. embora o filme tenha sido amplamente divulgado e o ingresso ser mais barato do que os demais cinemas. É preciso que, além de incentivo, promova-se um debate maior sobre o cinema nacional e a valorização do mesmo, relembrando a população que os anos de glória cinematográfica – de 1998 à 2002, com Cidade de Deus e Central do Brasil” – não estão tão distantes quanto se pensa, em termos de produção. O que não é visto e compartilhado, não é comentado e valorizado.

 

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