Por Ana Catharina Bessa

O antigo Elevado Costa e Silva, agora com outro nome, tem sua própria fala. É como se a diversidade fosse celebrada nos pequenos detalhes, que vai de cartazes colados em postes, a grafites e jardins verticais nas fachadas dos prédios. A sua grandeza chama a atenção. Os mesmos 3,4 km que suportam o caos da cidade recebem crianças, cachorros, atletas, fotógrafos e curiosos.

De dia, carros enfileirados em duas faixas, que, muitas vezes, perdem a oportunidade de sentir o cheiro de cultura que o mais famoso viaduto de São Paulo proporciona. A velocidade permitida de 50 km/h nunca é respeitada e mostra que a preocupação dos que passam por lá motorizados é pequena, ou até nenhuma. De noite, quase que toda a semana um grupo de adolescentes aproveita o espaço do final do viaduto, logo após a Avenida Francisco Matarazzo, para uma partida de futebol. São cinco, que se organizam entre goleiro e atacante. Fazem dos cones que fecham a rua de gol, e usam as faixas no chão para marcar quando a bola sai de campo. Enquanto o jogo rola, duas crianças menores brincam de correr do outro lado da via, tudo sob o olhar cuidadoso da mãe. Para quem passa por perto, uma pitada de esperança aparece. É como se o perigo da cidade grande não chegasse ali. Na outra ponta, a que se liga à praça Roosevelt, são os skatistas que dão show, entre manobras e tombos. O grupo é grande, e eles se divertem apenas com aquele pedaço de asfalto. Ficam ali, aproveitando a rua fechada. São observados pelos moradores de rua que vivem no túnel e têm o seu direito à cidade negado. Moradores de rua que, mesmo com o Minhocão fechado, se arriscam ao atravessar o fluxo de carros que passa por ali de dia e de noite.

Ao cruzar a cidade da Praça Roosevelt até a Barra Funda, apenas os atentos conseguem perceber a minuciosidade daquele enorme pedaço de concreto. Do volante, o Edifício Copan se destaca entre a grandeza da selva de pedra. Os que tiram um minuto para contemplar conseguem ver o Edifico Itália e o Banespa na paisagem – que quase que se juntam ao horizonte. Os jardins verticais são um charme à parte. Ficam nas fachadas, ora com desenhos interessantes, ora apenas jardins incomuns. Enfeitam os prédios que ainda não tinham ganhado algum tipo de arte. No que mais chama a atenção, a folhas mais escuras fazem companhia paras as claras, formando a imagem de um vampiro, ou qualquer outra interpretação que fizer. Os olhos, a boca e os dentes afiados são bem perceptíveis e aparece no feed do Instagram de muita gente. Uma contradição curiosa entre o concreto e o verde.

Os grafites também são parte do show. Se na Avenida 23 de maio eles viraram grandes paredes cinzas, aqui a expressão da cidade é bem-vinda. A arte resiste num enorme e colorido painel, que celebra a liberdade transexual. “A luta começou desde que percebi que meu corpo era proibido pra mim mesma”, estampado quase que na nossa cara. Na outra direção, uma grande imagem de uma mulher muçulmana. Os detalhes da diversidade não são tão pequenos assim. Sem a elite que anda pela Avenida Paulista aos domingos, o Minhocão parece uma outra São Paulo. A que muitos gostam de morar, mesmo que isso só apareça quando o trânsito dá espaço para as pessoas.

No passeio a pé, a história é outra. Ali aparecem resquícios ainda mais fortes de resistência. No poste, recados para quem quer ver que a democracia vive livre, por enquanto.  São milhares deles: poemas, adesivos e até crochê. Muitos nos faz lembrar da desigualdade social em que vivemos. Outros, nos deixam apenas pensativos. É a arte exercendo o seu papel na cidade grande.

Especialmente aos domingos, enquanto os atletas aproveitam para se exercitar, crianças brincam, futuros casais se conhecem ou estão prestes a se desencontrar. Uns aproveitam o sinal de “perigo” pintado no chão para o trocadilho numa foto. A proximidade dos prédios dá a sensação de que, o agora Viaduto Presidente João Goulart, abraça quem passa por lá. Os carros que não são bem-vindos para os moradores da região dão espaço para a população Paulistana. O relacionamento entre eles não fica apenas no olhar e no concreto. As pessoas celebram o amor incomum de várias maneiras. Da janela de um apartamento, um teatro acontece. Aquele pequeno quadrado serve de cenário para histórias infantis serem contadas. São atores vestidos de palhaços e fantoches bem elaborados que animam as crianças por 50 minutos num espetáculo de graça. Ali a resistência continua de forma sutil como, por exemplo, na música inicial do show: “Cidade é bicho grande e solto que não cabe na gaiola…”

A relação cidade-cidadão é tão forte que as pessoas aproveitam para comemorar eventos importantes. E foi ali, que Carol comemorou seu aniversário. Com tenda, mesa de bolo decorada e tudo. Parecia até uma festa na piscina. Os amigos se juntaram para fazer uma verdadeira festa em espaço público. Em qual outro lugar de São Paulo isso aconteceria? Brigadeiros, docinhos, bolo decorado, drinks. Tudo o que ela tinha direito. Tudo decorado com cuidado, minuciosamente enfileirados. Uma tenda foi montada e a festa rolou solta, com pessoas que foram convidadas e outras que se juntaram à festa.

Os que não enxergam a beleza do lugar preferem ficar cegos. Já quiseram derrubá-lo, agora é parque municipal. Para um viaduto mal visto para os que estão mais interessados no capital, e no trânsito caótico, não importa se a diversidade vive ali. A desvalorização do bairro é mais importante para o governo. Dória, por exemplo, preferiu tentar elitizar aquele pedaço e transformá-lo numa espécie de High Line, igual ao de Nova York. Se for assim, democracia em forma de cultura e diversidade, que já não tem espaço, vai precisar achar outro lugar para se expressar da forma como consegue se expressar há anos.

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