Praça do Pôr do Sol é espaço de convivência e de lazer

A Praça Pôr do Sol é um espaço verde, com concreto pintado de branco ajudando o formato do lugar. O nome dado a ela a princípio é Coronel Custódio Fernandes Pinheiros. Mas mesmo para quem gosta de coronel, há de se concordar que o nome popular representa melhor o que o espaço.

Foto: Gabriela Neves

 

Por Natasha Meneguelli

O dia está nublado. A Praça Pôr do Sol é um espaço verde, com concreto pintado de branco ajudando o formato do lugar. O nome dado à ela é Coronel Custódio Fernandes Pinheiros. Mas mesmo para quem gosta de coronel, há de se concordar que o nome popular representa melhor o que o espaço. É vista no meio de quarteirões de casas grandes, classe média alta, com muros e portões fortes. A entrada de baixo dá para uma descida. Subindo por ali, o espaço mais vazio, que num dia nublado parece denunciar que não são muitos os dispostos a passear pelo lugar num tempo não tão bom. Há algumas árvores, mas a maior parte do espaço é tomado apenas por grama, tudo aberto. Em ziguezague chega-se na metade, então uma leve subida que leva ao ponto mais alto daquele pedaço. Olhando para trás, a paisagem é estranha para os olhos de quem está acostumado a ter sempre alguns prédios bloqueando a visão. As casas grandes, baixas, não atrapalham a visão da cidade, e é possível ver até mesmo os morros verdes ao fundo.

Alguns grupos de amigos sentados conversando, um casal aos beijos, uma garota fazendo exercícios e Roberto, de barba e bigode grisalhos, cabelo comprido amarrado, óculos de sol no topo da cabeça, sentado num dos bancos, com sua bicicleta preta e vermelha ao lado, um capacete com caveiras desenhadas pendurado no guidão, um violão bege nos braços e uma lata de cerveja. Canta sozinho, relembrando os velhos tempos, de amigos que já partiram, de outros que estão longe, momentos muito particulares para serem falados em voz alta.

Já faz 40 anos que conhece o lugar. É um lugar raro em São Paulo, que está carente de boas praças. As que têm estão mal cuidadas. Ali viu o passar das gerações, quem trouxe os filhos, e depois os netos, para desfrutar da tranquilidade e da boa visão da cidade. Num momento onde tudo é sobre ficar em casa, desfrutando de tecnologias, um espaço assim é valioso. A educação das crianças, nesse espaço, é mais livre.

Nem que seja para ver o pôr do sol, a paisagem, ler um livro. São tanta preocupações e pressas na vida. Tantos jovens que acreditam que passar algumas horas numa praça é perder tempo. É necessário para agir contra uma cultura de valorizar as aparências, as marcas do que se veste. Mesmo quando é necessário um salário inteiro para comprar um único tênis.

Espera que a praça continue. Está mal cuidada, em comparação com o que era antes. A nova geração não é muito atenciosa nesse aspecto. Joga embalagens de plástico no chão. Quebram garrafas de bebidas. Use o que quiser, mas não deixe ali. Isso além do pessoal que infelizmente encontrou ali um lugar para morar. Que montou barracas. É ruim para o espaço, mas ele entende que é uma necessidade. Aquelas pessoas não têm para onde ir. Não se pode expulsá-las.

Mas em relação às outras de São Paulo é um ótimo espaço. Mas talvez isso seja o começo do declínio. Quem frequenta tem que cuidar. Espera que dure mais algumas gerações. Roberto, que sai da Vila Mariana para ir até a praça, visita vários parques também. Mas ali é diferente. É uma coisa magnética.

O canto dos pássaros complementa seu violão. A vista é linda, apesar da fina camada cinza que chega antes da paisagem. Há prédios coloridos nas laterais distantes. Uma boa massa de árvores à frente, e edifícios e casas cada vez menores ao fundo. Mais para o lado, após uma barraca, a concentração de pessoas aumenta. O início do frio não parece incomodar ninguém. Há alguns carrinhos de pipoca e bebidas. Luana, de 18 anos, aparece de fim de semana com o namorado, para ajudar a vender pipoca. Sente que o lugar é relaxante, e não vêm só para trabalhar. Aparece para estudar às vezes, já que é um lugar tão calmo e relaxante.

Foto: Gabriela Neves

Um homem com uma cesta passa de grupo em grupo oferecendo brisadeiros. No final da parte mais alta da praça, um círculo de concreto contém um pequeno parque para crianças, com pais brincando com as pequenas pessoas nos balanços e escorregadores. Alguns balançando ou balbuciando com bebês no colo.

Abaixo, antes do segundo círculo de concreto, José Reinaldo, 48 anos, chapéu homenageando a bandeira da Jamaica, dreads no cabelo e uma cesta com artesanato. Sempre aparece quando o dia está bonito, e quando está nublado e ainda consegue ver o céu, pois mesmo assim a vista é muito bonita. Até os cariocas já falaram para ele que lá não se tem esse privilégio. Talvez seja por causa da poluição, mas no dia anterior, o céu estava vermelho. Lindo. Parecia o mar. As ondas de fogo eram as nuvens. Concorda com Roberto. É um lugar perfeito para encontrar amigos. Para sentar com as pessoas e conversar. Ótimo para sair da cidade, sentar um pouco na grama, descansar com tranquilidade. Muito bom para isso. Mora na Vila Sônia, na região do Morumbi. A primeira vez foi por volta dos anos 2000, mas está em São Paulo desde 94. Vem da Bahia.

Alguém disse a ele que futuramente aquele espaço vai se tornar um parque. Talvez o pessoal não fique mais tão à vontade. É uma questão que envolve segurança, mas ele não queria que colocassem muros, ou que mudassem o ambiente. Não. Tira a essência do lugar.

Um casal brinca com os dois cachorros. Um é branco e preto, grande, e pega o frisbee animadamente. O outro é pequeno, um pastor alemão ainda filhote, atento, sentado observando tudo. Um grupo maior de animais passeia e interage mais acima. Cinco deles. Parecem conversar. Seus donos os observam, trocando palavras, sorrisos nos rostos. Um casal, sentado numa canga colorida, toma vinho e comem alguns petiscos. Sérgio, de 33 anos, está de camisa azul, é magro e possui uma barba escura. Sempre separa um tempo para observar a paisagem do local. O principal é ver o pôr do sol, que a cada estação do ano, muda um pouco de lugar. Ali se usa e se faz mais ou menos o que se quiser. Ele sempre vai de bicicleta. Esporte tem que fazer parte da vida. Gosta de pegar pitangas e acerolas dos pés que estão na praça. Mora perto da estação Morumbi, na zona sul, sobre pedalando. É de Brasília, mas já mora em São Paulo há alguns anos.

Carla, uma mulher de 25 anos, sorridente, está de blusa preta e óculos escuros com armação dourada. É sua primeira vez. Também de Brasília, chegou em São Paulo há poucos meses, e está aproveitando a folga, descansando, conversando de tudo um pouco, encontrando o amigo. Mora no Butantã. Não acha que ali é um ponto de fácil acesso, pelas subidas todas, mas é um ponto perfeito para ficar tranquila.

Um outro casal, Marlandi e Caroline, 30 e 24 anos, estão sentadas em cima de uma canga, e têm outra em volta dos ombros. Uma tentativa de conter o frio, já que vieram com roupas para um outro tempo. Sempre estão ali. Vivem em Taboão da Serra. É fora da cidade, então parece longe, mas não é. Gostam do clima, da tranquilidade de fazer o que quiser, da vista bonita mesmo em dias nublados. Não parece São Paulo. Essa é a parte mais legal. Vêm sempre em feriados, nos fins de semana, nas férias. Durante a semana normal ninguém tem tempo. Já ficaram loucas ali muitas vezes. O ruim é não ter banheiro. Têm poucos parques próximos. A praça serve como um bom espaço.

O arruamento da praça aconteceu apenas em 1937. Como disse José Reinaldo, a Prefeitura de São Paulo têm a intenção de criar um parque municipal, apesar de aparentemente não estar interessada em modificar a arquitetura original. Prefeito não é algo em que se confia facilmente, mas só o tempo dirá o que vai se fazer da praça.

Foto: Gabriela Neves

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