Pronto-socorro público é palco de angústia cotidiana

Uma madrugada vivenciando o sofrimento da grande maioria da população brasileira.

Por Natanael Oliveira

 

Um dos dias mais inesquecíveis e impactantes da minha vida aconteceu no dia 15 de abril do ano de 2018. Nesse dia tão mágico por diversas razões, eu tive que ficar dentro de um pronto-socorro público em Jabaquara, localizado no Hospital Municipal Artur Ribeiro de Saboya por quatro horas seguidas no período da madrugada, para a realização de um trabalho universitário sobre humanização e problemas crônicos na sociedade e em temas relacionados a saúde. Cheguei ao Hospital de ônibus aproveitando o fato de morar relativamente perto do local onde eu teria esse dia que estaria marcado para sempre na minha vida. Dentro do transporte público, os meus principais pensamentos remetiam a surpresa e medo de estar enfrentando algo novo e que jamais pensaria em fazer na minha vida. Minhas mãos suavam excessivamente, minhas pernas tremiam de uma maneira que jamais experimentei durante minha ainda curta vida de um jovem universitário ávido por experiências novas, mas ironicamente receoso de vivê-las.

Fiquei cerca de 30 minutos dentro do ônibus, até que desembarquei na porta do pronto socorro público que eu ficaria. O relógio batia 23h00min quando eu cheguei ao meu destino, e de todos os potenciais pensamentos que eu poderia ter, estranhamente eu não tive nenhum. Minha mente estava paralisada, meu corpo estava entrando em um colapso nervoso decorrente do meu perdido e desnorteado cérebro. Eu estava enlouquecendo por estar prestes a vivenciar uma realidade nunca antes vista por mim pessoalmente, já que vivi grande parte da vida em uma sufocante bolha social que me impedia de ver o triste universo da maioria da população brasileira.

A entrada do caos

Assim que atravessei o enferrujado portão que dava acesso ao pronto-socorro, pude perceber o quanto a estrutura do local estava comprometida. Ambiente escuro, luzes apagadas, paredes pinchadas por todas as partes, portas deslocadas de tal forma que em um primeiro momento me pareceu impossível que alguém pudesse acessa-las, além de uma quantidade ínfima de cadeiras em relação ao número de pessoas esperando por uma simples consulta médica, e como tudo que está ruim tem sim a chance de piorar, observei que várias das já poucas cadeiras estavam quebradas.

Meu primeiro ato dentro do Hospital foi registrar todos os momentos que eu poderia, já que estava munido de uma câmera fotográfica. Lembro que tirei indiscriminadamente dezenas de fotos nos primeiros 30 minutos no local, sem ter nenhum critério além de fotografar o que eu jamais havia presenciado antes.  O meu choque inicial também foi um fator a ser considerado pelo número excessivo de fotos tiradas naquele momento.

Conforme o tempo ia passando, estranhamente aquele ambiente em estado deplorável foi se tornando mais confortável, familiar e menos tenebrosamente assustador para os meus olhos. Percebi que esse momento de calmaria para o meu corpo e mente deveria ser aproveitado para que eu pudesse planejar meus novos passos além de tirar infinitas fotos sem critério, e assim, abstrair ainda mais informações sobre essa nova experiência que estava vivenciando.

Decidi parar de tirar fotos da estrutura do local para focar no aspecto mais importante e principal motivo para que eu estivesse lá naquele momento: o aspecto humano. Quando bateu meia-noite no relógio, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que ainda esperavam para serem atendidas, e fiquei ainda mais incrédulo quando pude notar que em uma hora no local, havia visto um mísero médico e duas enfermeiras para atender dezenas de todas as faixas etárias possíveis de pessoas, desde de idosos até adultos, passando por bebês e suas mães, indo até jovens com idade semelhante a minha.

Esperei em pé e no canto do pronto-socorro até que uma cadeira desocupasse para que eu pudesse sentar, e para minha sorte, não tive que esperar tanto tempo até conseguir uma cadeira em uma localização privilegiada por estar no extremo canto do estabelecimento. Sentei na cadeira que para a minha não surpresa estava quebrada, e passei a observar toda a movimentação dentro do local, seja dos pacientes ou dos pouquíssimos profissionais da área da saúde que estavam presentes. Pensei, observei, analisei, imaginei e o único pensamento que se passava em minha mente era a história de vida de cada uma das pessoas que estava no local. Enquanto algumas pessoas vão ao hospital pensando na morte, eu só conseguia pensar na vida, nas histórias não noticiadas e que jamais saberemos, nas lutas que cada uma delas passa todos os dias e o quanto elas sofrem com isso.

As instruções dadas para a realização desse trabalho universitário deixava claro que eu deveria ao máximo evitar qualquer tipo de comunicação com as pessoas presentes, sendo assim, a única coisa que eu poderia fazer era observar o ambiente e mergulhar dentro desse universo que jamais pudesse imaginar o quanto poderia ser ruim. Enquanto eu estava sentado, olhando atentamente aquele ambiente com uma precariedade estrutural visível, como se ele estivesse completamente abandonado pela prefeitura, além de chãos sujos, paredes que davam a péssima sensação de que o pronto-socorro poderia cair a qualquer momento e objetos em estado de conservação severamente comprometida, vi mães desesperadas tentando acalmar o choro de seus bebês.

Uma particularidade que eu também pude notar enquanto estava no hospital, foi a maciça presença de cachorros e moradores de rua nos arredores do hospital. Sujos, com saúde fragilizada e com ares melancólicos em seus olhos, além dos olhares caninos que transmitiam nada além de tristeza e abandono por estar vivendo em condições tão adversas.

Sofrimento

Quando o relógio apitou, me avisando que já eram 1h30min da madrugada, me mantive ainda mais atento. Em determinado momento da experiência, eu foquei em duas mulheres beirando os 40 anos e vestindo roupas simples e claras, além de sandálias na cor marrom, provavelmente amigas, que estavam escorando uma na outra, tamanha a debilidade física e cansaço de ambas. Elas me chamaram a atenção porque desde que eu entrei no hospital, as 23h00min do dia anterior, elas ainda estavam exatamente no mesmo lugar, sem serem ajudadas, atendidas ou mesmo terem um mínimo de atenção voltadas para as duas. Um fato que me deixou intrigado enquanto acompanhava está situação foi ver que as duas não reclamaram da demora em nenhum momento, mesmo que estivessem com a saúde péssima. Elas simplesmente estavam sentadas, caladas, e com olhares distantes enquanto viam o mundo passar em suas mentes. Até que elas finalmente foram atendidas, depois de longas, e ao meu ver, intermináveis horas de espera.

2h00min da madrugada e eu confesso que já estava com uma vontade irresistível de ir embora, além do cansaço que estava abatendo sobre todo o meu corpo naquele momento, afinal, eu estava dentro de um pronto-socorro público localizado em Jabaquara, de madrugada. Eu engoli a seco toda a minha vontade de sair daquele lugar uma hora antes e permaneci firme, mas nem tão forte assim, no local onde eu estava.

Superar o cansaço e lutar comigo mesmo valeu muito a pena quando as 2h30min da madrugada em presenciei pessoalmente o primeiro caso grave do hospital no dia. Pude ouvir o barulho ensurdecedor das sirenes da ambulância a muitos metros de distância em relação onde eu estava, e assim que ouvi, eu corri para fora do estabelecimento para acompanhar e registrar esse fato novo que me encheu de ânimo pela raridade (nunca tinha visto nada parecido até aquele dia) que eu estava presenciando. Confesso que vi e registrei pouco sobre a situação por diversos fatores. Havia aparecido misteriosamente um grande número de enfermeiros e policiais, além de uma correria tão desenfreada que mal havia tempo para pensar no que eu poderia fazer. O engraçado de todo o caso é que em nenhum momento eu fiquei nervoso ou com medo daquele momento desesperador, mas sim com uma bomba de adrenalina que contagiou todo o meu corpo. Eu não pensava, apenas agia de uma forma tão instintiva e automatizada que eu me surpreendi quando passou. Pelo pouco que registrei, vi que era um homem com os seus 30 anos que aparentemente foi atropelado, dado a forma que estava e pelo sangue que escorria lentamente por suas roupas manchadas. O homem estava inconsciente.

A melancolia da vida

Os vários enfermeiros entraram rapidamente com o paciente em estado gravíssimo dentro do hospital e assim que a rápida ação terminou, os meus picos de adrenalina abaixaram rapidamente, me deixando abatido e incrédulo com o que tinha acabado de acontecer. 2h50min e eu não esperei os mais dez minutos para completar as 4 horas que eu deveria ficar no estabelecimento, pois percebi que eu realmente vivi de corpo e alma essa experiência e que não havia mais nada a ser feito ou registrado naqueles míseros minutos que faltavam. Pedi um Uber pois o transporte público 24 horas não englobava a linha que chegava perto da minha casa. 15 minutos de viagem, cheguei em casa e os meus pais já estavam dormindo. Tomei provavelmente o banho mais longo de toda a minha vida, e não fechei os olhos em nenhum momento assim que deitei na minha cama.Tive a certeza que experimentei um dos momentos mais incríveis de toda a minha vida, e tatuei em minha mente tudo que eu testemunhei naquelas 4 horas estranhamente mais longas e ao mesmo tempo mais curtas que tive o prazer de viver.

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