Foto: Ato "Ele Não" em Salvador/BA - Mídia Ninja/Flickr Foto: Ato "Ele Não" em Salvador/BA - Mídia Ninja/Flickr

São Paulo, outubro de 2018. Segundo turno das eleições presidenciais.

Ana, como preferiu ser identificada por esta entrevista, é uma jovem de 22 anos que mora no bairro Itaquera, Zona Leste de São Paulo. Ana é evangélica, mas há alguns meses deixou de participar dos cultos da igreja, a qual boa parte da sua família ainda frequenta. Ela trabalha em uma farmácia no mesmo bairro em que vive desde que nasceu e é bolsista do curso de Serviço Social em uma faculdade privada no centro da capital paulista. Seu nome não é Ana. Ana é o nome que ela escolheu para poder dar o seu relato em segurança, como definiu. Ana, segundo ela “é um nome pequeno, porém forte” e que “representa muitas mulheres que Bolsonaro violenta todos os dias”. Ana está com medo frente aos ataques que a democracia vem sofrendo. Ela está com medo de retaliações físicas e morais, assim como tantos outros casos que foram desencadeados desde a forte polarização gerada pelo processo eleitoral. Ana está com medo pois resolveu dizer por que não deposita mais o seu voto em Bolsonaro. Ana, por mais que não frequente mais a igreja por motivos políticos, segue com fé em Deus e afirma que o Deus de Bolsonaro não é o seu Deus.

Na noite do último dia 07 de outubro, o candidato Jair Messias Bolsonaro foi para o segundo turno das eleições presidenciais com o ex-prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. Com uma candidatura polêmica e polarizada, Bolsonaro não tem vergonha de assumir em público posições que vão de encontro aos direitos humanos, à igualdade e à democracia. Para ele, o politicamente correto não existe. Homenageou torturador em pleno Congresso Nacional, já fez declarações misóginas e machistas, assim como homofóbicas e racistas, com conteúdo que sobretudo estimula a violência. Bolsonaro incita o ódio, promete legalizar as armas e declara na mídia que não tem controle sobre seus eleitores. E Bolsonaro tem muitos eleitores. Mas será que todos conhecem realmente em quem estão votando?

A princípio, a entrevista com Ana tinha o objetivo de focar nos fatores que levam uma jovem evangélica a assumir uma posição contrária frente à família e à Igreja, mudando seu voto. Porém, Ana pediu para se chamar Ana justamente pelo medo de assumir publicamente os motivos os quais a fizeram mudar de opinião em relação a Bolsonaro. Ana teve medo de dizer quem é e o que pensa. Ana é uma jovem comum, mas mesmo assim pediu para não ser identificada. Que tempos sombrios são estes?

Conheci Ana antes do primeiro turno das eleições presidenciais, no ato intitulado “Ele Não”, no Largo da Batata, dia 29 de setembro, em São Paulo. Começamos a conversar porque ela estava comentando com umas amigas que mudou o voto. Achei, no mínimo, curioso. Ana e a família estavam convencidos a votar no Bolsonaro, mas como ela mesma coloca, “por conta de ideias construídas”, principalmente no ambiente da igreja evangélica a qual frequentam. Ana parou de frequentar a igreja, mas crê em Deus e diz que seu Deus e o Deus de Bolsonaro não são os mesmos. “Ele promove a guerra”, diz ela.

Bolsonaro surge enquanto um “herói” que pode salvar o Brasil da crise com um discurso de mudança, de segurança e de “Brasil acima de tudo”, assim como o lema de Hitler na Alemanha. Ele mistura setores historicamente conservadores com grupos que incitam a violência e a intolerância, promovendo a massificação de ideias, via fakenews, com o uso de caixa 2 e apoio de empresas estrangeiras, que acabam por convencer a população a votar nele. “A grande questão é que ele faz isso neste momento em que o Brasil está mais precisando de cuidados e de verdade”, define a jovem. O povo pede uma saída, mas será que a violência é o caminho? Ana se desafia a dar uma dica: “a saída é a informação, é o diálogo. Devemos cuidar da democracia, mas para isso precisamos nos cuidar e viver”.

 

Quando foi a primeira vez que você ouviu falar do Bolsonaro?

Se não me engano, era maio de 2016, um domingo, almoço em família. A maioria da minha família é Evangélica e, neste dia, estávamos na casa de um tio, irmão de minha mãe. Meu tio tinha ido ao culto no sábado, e contou, em meio ao almoço, que o Pastor tinha falado de um tal Jair Bolsonaro. Ninguém da família tinha ouvido falar dele antes. Segundo meu tio, o Pastor havia dito, no dia anterior, que Bolsonaro era um político diferente de todos os outros políticos. Era lá do Rio de Janeiro e estava cansado de tanta insegurança, de tantos ataques às famílias brasileiras, de tanta roubalheira, principalmente dos impostos que pagamos e que quase nunca vemos o retorno. No início, ninguém acreditou no discurso de “político diferente” e lembro que até zombaram do meu tio. “Político diferente? Nem em sonho…” era o que todo mundo dizia para ele.

Como a sua família mudou de ideia em relação ao “político diferente”?

Então, pensando agora não sei se é engraçado ou trágico. Na época eu costumava ir ao culto com minha mãe e minhas irmãs toda a semana. Poucas semanas depois que meu tio falou pela primeira vez do Bolsonaro no almoço de família, tornou-se corriqueiro o mesmo Pastor citar o Jair Bolsonaro na igreja, durante os cultos. Hoje eu aprendi que uma mesma visão passada sempre como verdade, se torna verdade. Pelo menos pra quem escuta sempre a mesma história. Bolsonaro foi se tornando uma espécie de herói lá em casa, foi se tornando verdade. Porque representava as ideias que tínhamos em torno do Brasil dos nossos sonhos. Deus. Família. Ordem e Progresso. Tudo isso em segurança, pra que a gente construa nossas vidas. Mas o mais engraçado, ou trágico, no caso, é que a gente foi criando essa imagem do Bolsonaro sem nunca ver ele. Sem nunca ler sobre ele. Sem nunca saber o que ele fazia. Eu e minha irmã, que também pensa como eu agora, estávamos conversando esses dias. Nós criamos um personagem em torno do Bolsonaro. Não era ele. Ele, na realidade, é quem estamos conhecendo agora, principalmente no segundo turno. Mas sobre sua pergunta, é isso… Fomos levados a acreditar que Bolsonaro era um político diferente. Só que não.

Para você, por que ele pareceu ser uma boa alternativa à Presidência?

Por tudo isso que já disse pra você. Acho que ele surgiu, pelo menos pra minha família e pra quem eu conheço que acredita nele, como uma luz no fim do túnel. Um herói mesmo. Um político diferente em meio à (Operação) Lava Jato. Lembro dos meus primos dizerem que Bolsonaro falava igual ao meu tio. Um cara familiar, com os defeitos e acertos das pessoas normais do Brasil. O cara que pode tirar a gente daquela crise que estávamos vivendo. Você lembra de toda aquela loucura do impeachment, né? Uns de vermelho, defendendo a Dilma e outros de verde e amarelo batendo panela. Lembro que na época eu estava bem perdida. Não sabia, e nem queria saber, quem era o certo e quem era o errado, só queria o Brasil unido e em paz. Nisso, surge “Bolsonaro 2018”. Não à toa, depois de toda a construção prévia, minha família, de pronto, fortaleceu a ideia. De uns tempos para cá começamos a receber correntes enviadas por conhecidos, mas também por contatos desconhecidos, por e-mail e WhatsApp dizendo o quanto ele era capacitado para ser um bom Presidente.

Quando é que as certezas deixaram de ser tão certezas?

Foi no início de 2018, quando eu comecei a faculdade. As eleições começaram a se tornar um assunto cada vez mais corriqueiro entre os colegas. Lembro das pesquisas de intenção de voto que apareceram nos jornais da (Rede) Globo ainda no primeiro semestre. Lula já tinha sido preso, mas ainda assim estava sendo apontado como candidato nas pesquisas. Bolsonaro já aparecia em todas as pesquisas. O que meus colegas começaram a falar do Bolsonaro me deixou intrigada. Eu nunca tinha procurado informações sobre Bolsonaro para além das que eu recebia das correntes e ouvia do pastor. Nunca me interessei muito por política. Mas foi aí que eu comecei a ir atrás para ver quem era de verdade o candidato da minha família à Presidência da República. Foi uma grande decepção e revolta por eu, minha família e muitos brasileiros estarem sendo enganados.

Você foi atrás de informações? Como?

Fui sim. Um dia cheguei tarde da aula depois de ficar conversando com colegas sobre o Bolsonaro e procurei informações na internet. Simplesmente me apavorei. Achei vídeos dele ofendendo negros, mulheres, pessoas LGBT. Achei vídeos dele defendendo a tortura, dizendo que a ditadura não tinha sido tão ruim e até homenageando aquele cara que torturava… o Ustra. Depois, me certifiquei com os colegas da faculdade que essas informações eram reais e que o que eu sabia dele era como se fosse a pontinha falsa de um iceberg. Pesquisei livros de história e me senti enganada pelo próprio Pastor. Parece que saber a verdade sobre Bolsonaro foi uma porta que não se fecha mais. A cada declaração dele, fico mais apavorada com o que pode acontecer.

Porque você não vai mais votar em Bolsonaro?

Por tudo! Você viu o que ele disse sobre as famílias chefiadas por mulheres? Por causa disso consegui mudar o voto de minha mãe e minhas irmãs. Mas não foi fácil. Você viu o vídeo dele fazendo um sinal de arma com a mão da garotinha? Que horror! De fato, não é esse o Brasil que eu quero. Não é esse o futuro que quero para as minhas sobrinhas e para os filhos que quero ter. Não voto mais no Bolsonaro porque o Deus dele não é o meu Deus. Porque ele quer que as mulheres recebam menos porque engravidam. Porque ele não é um herói. Porque ele não vai nos salvar. Porque ele incita a violência ao mesmo tempo em que quer armar a população. Isso é um perigo! Não voto mais em Bolsonaro porque ele não fala como nós e nem fala para nós. Porque sequer ele fala. Queria mesmo era ver ele em um debate com o Haddad agora no segundo turno, mas ele tá fugindo. Não voto mais em Bolsonaro porque fui naquele ato que as mulheres chamaram e que a gente se conheceu. Aquele ato me deu mais força de gritar “ele não”! Então, não voto mais nele porque também me senti totalmente representada naquele ato. Estamos juntas e vamos vencer quem quer nos matar. Hoje eu sei isso.

Você está conversando com outras pessoas sobre o processo eleitoral no seu dia-a-dia? Se sim, porque?

Sim, estou conversando com todo mundo que eu acho seguro conversar sobre eleições. Muita gente precisa conhecer de verdade o Bolsonaro, assim como eu tive a oportunidade de conhecer. Mas a gente tem que se cuidar. Tem muita gente do mal que anda declarando voto no Bolsonaro. Você viu todos os crimes que vieram à tona desde o final do primeiro turno? Por isso não divulgo meu nome pra essa sua entrevista. Mas independente do nome, sei que tenho uma missão, que é passar a diante o que aprendi e pude ter acesso. Muita gente ainda está crente em votar nele no segundo turno porque não sabe da metade. É dever de quem sabe, informar o restante do povo. A maioria do pessoal que vota nele não é do mal, mas ele é.

O que você sonha para o Brasil?

Eu sonho com um Brasil sem ódio, sem violência. Sonho com um Brasil onde as crianças tenham oportunidade de estudar e ser alguém na vida. Sonho com um Brasil onde não tenha mais fome e nem miséria e onde tenha saúde pra todo mundo. Onde todos tenham direitos e deveres iguais e onde todos os deuses sejam respeitados. Sonho com um Brasil onde as mulheres não apanhem mais e onde elas possam ser valorizadas por levarem a casa e a família nas costas. Sonho com o fim do racismo. Sonho com um Brasil mais feliz. Sonho com a democracia.

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