Da esquerda para direta: Dilma, Lula e Haddad. Fonte: https://istoe.com.br/320563_LULA+APROXIMOU+DILMA+E+HADDAD/

Por Gabriel de Souza Damião e Mariana C. K. Lopes

 

“Vota em Bolsonaro porque ele é antipetista e votaria sem hesitação no diabo que fosse para evitar uma vitória do PT”. Assim foi descrito pela Revista Cult boa parte do eleitorado que escolheu o futuro presidente do país neste ano . Em uma votação marcada por extremos, o ódio ao Partido dos Trabalhadores, que encabeçou o executivo brasileiro durante 14 anos, ocupou parcela significativa da argumentação de 57,7 milhões de eleitores junto a um discurso conservador.

Segundo Fabio Luis dos Santos, professor de Relações Internacionais da Unifesp e autor do livro “Para além do PT”, esse sentimento antipetista se fundamenta em duas categorias: aquele que vem da elite brasileira e o que emana das classes mais baixas.  O autor afirma que “o antipetismo dos de cima na verdade é um antiesquerdismo disfarçado” pois, mesmo que a alta sociedade não tenha sofrido prejuízos financeiros substanciais durante as gestões, o ataque se dá não ao que o partido é atualmente, mas o que representava em seu princípio, como o primeiro instrumento autônomo da classe trabalhadora nacional, permitindo que a população entre na política favorecendo a si mesma.

No segundo caso, considerado mais complexo pelo professor, há um “envenenamento” da imagem petista por parte da grande mídia, agravado no período que avançava o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, somado com um sentimento de traição da camada trabalhadora em relação ao governo do PT, ocasionada pela política de conciliação de classes implementada na presidência de Lula ao invés de levantar reformas sociais. A análise de Luis dos Santos é corroborada pela visão da professora da UFRJ Marília Zaluar, que declara que a promessa de um governo de esquerda poderia ter melhorado o país e viria a destoar das oligarquias clássicas brasileiras, mas não se concretizou de tal forma. “O Brasil se sentiu traído”.

Em relação aos veículos de imprensa, o professor titular do Centro de Pesquisas Físicas e exilado na ditadura pelo regime militar, Alberto Passos Guimarães reconhece que “o oligopólio da mídia conduziu, durante os últimos quinze anos, uma campanha maciça contra o PT”. No artigo 220, parágrafo 5º, da Constituição Federal de 1988, que não foi assinada pelo Partido dos Trabalhadores, os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. Embora a campanha da mídia tenha sido enviesada, constata Guimarães, no sentido de não dar um tratamento equilibrado para as denúncias contra os diferentes partidos, ela serviu para demonizar a Política em geral, o que traz riscos para a Democracia em si. “A demonização da Política abriu o caminho para o triunfo dos salvadores da pátria e dos ditadores”.

Ao encarar o resultado final da eleição deste ano, muitos julgaram que o PT elegeu, indiretamente, Bolsonaro, mas para Fabio Luis dos Santos essa é uma “leitura malvada e uma visão simplista”. Ele defende a crítica feita pelo rapper do Racionais MC, Mano Brown, de uma falha na comunicação da campanha petista neste ano. Vista em dois pontos pelo professor, estrutural e conjuntural, o primeiro mostra que a política proposta pelo PT perdeu o lastro com a realidade do país, continuando seu discurso voltado aos seus eleitores tradicionais. No tópico conjuntural, o partido fez uma campanha por Lula “como se fosse um plebiscito para soltá-lo”, deixando a oficialização de Fernando Haddad para o último momento, despolitizando a campanha e a deslocando para o plano moral.

Apesar de concordar que o PT utilizou uma politização tardia em sua campanha, a professora de economia da PUC-SP Leslie Beloque, admite ver forte responsabilidade no resultado desta eleição. “Tem muita gente que votou no Bolsonaro porque não votaria no PT e, amanhã ou depois, pode deixar de apoiar ele”. Beloque afirma que o mesmo vale para os eleitores do PT, que podem deixar de apoia-lo a qualquer momento.

Ao analisar a ótica econômica dos governos petistas, Beloque diz que o país nunca enfrentou uma situação similar. Citando as pesquisas do IBGE que foram iniciadas em 1940,  “desde a década de 40 até 2018 a economia nunca passou por uma recessão tão violenta quanto essa criada no governo PT”. Apesar de ter passado por diversas recessões ao longo de sua história, o Brasil nunca se deparou com uma como esta. É a primeira vez que o país teve decréscimo da atividade econômica três anos seguidos, com perda na massa do PIB, somado com desemprego de aproximadamente 27 milhões.

Ao manter a visão de um PT fiel a suas raízes, a elite brasileira coloca-o precipitadamente como imagem geral da esquerda nacional por configurar uma movimentação política popular, ao passo que na prática, ao subir no Planalto, se tornou um partido convencional. Enquanto o antipetismo é movido por um sentimentalismo contra o Partido dos Trabalhadores, o horizonte da esquerda brasileira acaba sendo resumida a ele. Contudo, na visão dos  próprios esquerdistas, o PT deixou de ser um instrumento eficiente para implementação de políticas sociais. Para eles, é necessário fazer críticas e superar o partido, tirando a generalização dessa imagem.

 

Confira a seguir trechos das entrevistas com Fabio Luis dos Santos e Leslie Beloque:

 

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