Abertura de Semana de Jornalismo destaca problemas de mobilidade, desigualdade social e especulação imobiliária em São Paulo

por Guilherme Zocchio

Discussão com representantes da sociedade civil organizada aproximou noção de desenvolvimento sustentável à luta pelo acesso à cidade

Com o tema “O Jornalismo e a Cidade”, começou hoje, segunda-feira (28/05), a Semana de Jornalismo de 2012 da PUC-SP. O evento, que vai até o dia 1º de junho e conta com palestras, debates e entrevistas coletivas, tratou nessa manhã do tema “Desenvolvimento e Cidades Sustentáveis”. Tiveram destaque os assuntos sobre a mobilidade urbana e a questão de moradia em São Paulo.

Participaram da discussão o sócio-ambientalista e assessor do Instituto Vitae Civillis, Pedro Telles, e a coordenadora de comunicação da Rede Nossa São Paulo e jornalista formada pela PUC-SP, Luanda Nera Motta, além do professor do Departamento de Jornalismo e coordenador da TV PUC, Julio Wainer, que mediou a discussão.

Wainer abriu o debate destacando a importância de pensar o desenvolvimento sustentável na cidade de São Paulo e questionou o papel do jornalismo. Enquanto mostrava um exemplar da Folha de S. Paulo do último domingo, ele atentou para a quantidade de anúncios de automóveis e lançamentos imobiliários.

“Como que o mercado imobiliário pauta os nossos jornais? Como que a indústria automobilística pauta o jornal?”, questionou o professor, ao passar a fala aos convidados.

“Sempre que a gente fala de desenvolvimento sustentável, muitas vezes puxa para a questão do meio-ambiente. E já tem uma bola boa, de trazer para a questão do carro e do imóvel”, começou Telles, que perguntou aos presentes o que entendem por desenvolvimento sustentável para iniciar a discussão.

“É o modo de desenvolvimento que permite que os indivíduos de uma sociedade, tantos os que vivem hoje quanto os que vão viver no futuro, sejam livres para viver suas vidas da maneira que optarem por viver”, definiu o assessor do Vitae Civillis, após ouvir as respostas do público.

Ele explicou que o excesso de empreendimentos imobiliários em São Paulo convivendo com um número cada vez maior de pessoas na rua, bem como o trânsito da cidade que “bate recordes toda semana”, são sinais de que não há desenvolvimento sustentável e, portanto, nem liberdade.

Telles apontou também o desenvolvimento sustentável como uma saída à crise econômica mundial, a qual definiu como “crise de valores”. “Está nítido o que tem a acontecer. A gente tem que conseguir migrar de uma sociedade que vê o crescimento econômico como principal índice de desenvolvimento para uma outra sociedade que tenham indicadores muito além disso, como justiça, democracia, direitos humanos”, declarou, destacando, além disso, que a conferência Rio+20, da ONU, pode ser esse momento para traçar as mudanças e repensar os espaços urbanos.

Luanda Motta, em sua fala, tentou “dar o olhar um pouco dos dois lados”, já que trabalhou durante muito tempo como jornalista cobrindo a sociedade civil e hoje está em uma organização do setor. Mas destacou que “em poucos anos conseguiu perceber importantes mudanças do ponto de vista da cobertura da mídia”.

Ela explicou que, por conta disso, começou a trabalhar na Rede Nossa São Paulo para também “oferecer aos jornalistas da grande imprensa um olhar diferenciado na cobertura das cidades”. A organização paulistana, que reúne mais de 700 ONGs, tem entre outros objetivos fortalecer a gestão pública dos municípios.

“Em resumo, começamos levantando indicadores da cidade de São Paulo, pensando sempre na proposta de uma cidade mais sustentável, mais justa — a gente sempre fala justa e sustentável porque ainda tem esse ranço de que sustentabilidade fala só de meio-ambiente”, explicou a jornalista, que também disse que a idéia é “pensar a sustentabilidade em São Paulo, focando em seus maiores problemas”, como a desigualdade social. Entre os exemplos, citou o índice de desigualtômetro, que mede a desiguladade entre as sub-prefeituras do município e chega a até 2000 vezes de diferença.

Além disso, ela ponderou que ter números sobre a cidade “sempre foi muito difícil”, pois “não se tem números e não se tem interesse em divulgar os números, não se tem condições técnicas ou a gestão pública está muito desqualificada”. Mas a partir dos dados levantados, segundo ela, a idéia é tanto apontar problemas quanto propor idéias: “não só criar embates, mas também apresentar propostas”, disse.

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