Séries médicas inspiram futuros profissionais

Produções do gênero cativam audiência desde a década de 1950

Por Catarine Figueiredo, Kauan Coelho e Sarah Melchior

Práticas médicas sempre despertaram a curiosidade das pessoas e ainda que o dia a dia da profissão para muitos não seja interessante, a curiosidade em saber o que ocorre com o corpo em um simples resfriado, ou até mesmo em casos de cirurgia e doenças graves. Talvez, seja por isso que as séries de medicina seja um fenômeno mundial, mas também não podemos descartar a romantização da vida de um profissional da saúde, trazerem quase sempre casos raros e evitarem os termos e procedimentos técnicos.

As series começaram a ser produzidas nos anos 50, entre as primeiras estão a britânica “Emergency Ward” 10, de 1957, e as americanas “Bem Casey” e “Dr. Kildare” de 1961. No Brasil, o gênero chegou só nos anos 90, com o seriado “Mulher”, de 1998, estrelado por Patrícia Pillar e Eva Wilma que interpretavam duas ginecologistas. Com o tempo, o gênero ganhou o interesse mundial, e hoje encontramos grandes produções, com centenas de episódios, e muitas horas de conteúdo. Falaremos aqui das renomadas “Grey’s Anatomy”, House, da recente “The Good Docto”r, e da brasileira “Sob Pressão”.

Pode-se dizer que tudo começou com a série “Dr. House”. Vencedora de cinco Emmys e dois Globos de Ouro, a série, com o provável protagonista mais famoso do mundo, foi lançada em novembro de 2004 e teve a última das oito temporadas exibida em 2012.

“House M.D.”, ou “Dr. House” para os brasileiros, tem como personagem principal o Dr. Gregory House, médico especialista em doenças infecciosas e doenças dos rins. O personagem chama a atenção pela capacidade de dar diagnósticos precisos de uma maneira inovadora, e também por seu temperamento. House é cético, quase sempre mal-humorado, evita e critica a aproximação com os pacientes, o que por um lado, o que acaba quebrando o estereótipo de que a medicina é uma área de felicidade garantida e realização completa.

Neste sentido, a estudante Beatriz de Oliveira, que pretende cursar medicina, afirmou que House lhe parece bem realista quando comparada a outras séries do gênero, mas ainda acredita que haja uma romantização da profissão. “As pessoas caem no pressuposto de que médico só ganha bem, enriquece, pode trabalhar pouco, não vai se machucar com as perdas”, acrescendo que  “todos querem ser médicos, enquanto outras áreas carecem de profissionais”.

Beatriz diz que de certa forma, foi influenciada na escolha do curso pelo seriado norte-americano. Segundo ela, a rotina dos profissionais e estudantes do hospital universitário Princeton-Plainsboro Teaching Hospital era “maneiríssima”, pois resolviam casos praticamente impossíveis. Porém, afirma não se sentir preparada para agir em situações emergenciais, que exijam cuidados médicos ou primeiros socorros.

A estudante Bruna Makini que pretende cursar medicina veterinária, concorda com Beatriz, ressaltando que o dia a dia dos profissionais aparenta ser fácil em House mas, diferentemente, afirma que se sente sim influenciada, e de certa forma mais preparada, a realizar pequenos procedimentos emergenciais após assistir séries do gênero.

“Grey’s Anathomy” é uma das séries médicas de maior sucesso no mundo, tendo sido lançada em 2005 e possuindo o total de 15 temporadas exibidas até o momento.

A série conta a história de Grey, uma cirurgiã-geral que trabalha em hospital, e todas as situações vividas por ela e seus colegas enquanto atendem aos mais diversos tipos de caso. Há muito romance, drama e situações de conflito, que fazem com que o público que assiste sinta-se envolvida com os personagens e parte da série.

Já em “The Good Doctor”, Freddie Highmor vive um autista residente de cirurgia. A série começou a ser exibida em setembro de 2017 e entre críticas e elogios, teve sua segunda temporada lançada agora em 2018.

Shaun Murphy, um jovem cirurgião que diagnosticado com autismo e savantismo (distúrbio marcado por uma grande habilidade intelectual aliada ao déficit de inteligência), se muda de uma pequena cidade do interior para uma bem maior onde ainda que sob resistência da comunidade, se juntar à equipe de cirurgia do hospital San Jose St. Bonaventure. Lá, apesar das suas dificuldades de socialização com colegas e pacientes, ele tenta mostrar suas incríveis habilidades médicas.

Raquel Cazalini, de 18 anos, está no terceiro semestre de enfermagem na Universidade Anhembi Morumbi, e conta como assistir séries como estas influenciou a escolha de seu curso. “Minha decisão foi em grande parte por séries, porque o modo como retratam o meio hospitalar é algo que eu sempre tive curiosidade e admiração”.

A jovem é grande fã de “Grey’s Anathomy” e “The Good Doctor”, e o que mais chama sua atenção nestas séries é a mistura de dramatização com a proximidade com a realidade. “O modo como eles tratam as doenças é de certa forma mais leve, mas também tem um drama envolvido. Parece muito com a vida real, a forma como os personagens agem entre si, os mais diversos conflitos, tanto médicos quanto amorosos”.

A série, segundo Raquel, lhe traz mais confiança na hora de tomar alguma decisão dentro de sua área. “Me sinto um pouco mais confiante, mas não agiria em momentos assim a não ser que eu fosse a única pessoa mais especializada no local. As séries não são totalmente verdade. Eu me sinto capaz de executar procedimentos básicos só com o que vejo, mas ainda acaba sendo muito arriscado, pois a situação pode se piorar”, diz.

Médicos de todo o país lidam todos os dias com casos e consequências de vida ou morte. Pacientes que chegam em estado gravíssimo em que muitas vezes os médicos têm de dar conforto, amizade, consolo à família e amigos. Esses são alguns dentre vários fatores na vida de um médico que não vemos por não estarmos presentes em um hospital todos os dias. Mas será que tudo o que vemos nas séries é tão próximo da nossa realidade?

A pediatra Maria de Lurdes Coelho Monteiro de Figueiredo trabalhou durante 21 anos em hospitais e nos diz que muito do que produzem nas series é real. Noventa por cento das coisas que ocorrem na série ocorrem de verdade. Algumas coisas eles podem até exagerar com relação aos tipos de acidentes e doenças, mas somente para mostrar “diversidade de doenças”. Mas com relação à gravidade de processos clínicos é muito próximo do que acontece de verdade”, afirma.

Com o grande sucesso das séries médicas internacionais, a rede Globo decidiu criar uma produção brasileira, intitulada Sob Pressão, que tem atraído a curiosidade de muitas pessoas.

Ricardo Goulart está no sexto semestre de biomedicina na Universidade Anhembi Morumbi, e conta que foi motivado a assistir a série brasileira por conta do tema que ela aborda: a realidade de hospitais públicos. “Ela mostra a precariedade do serviço de saúde pública, a falta de infraestrutura e equipamentos básicos”.

Ricardo diz que a série o faz se interessar ainda mais pela área que já havia escolhido antes de começar a assisti-la. “Acho interessante ver representados na televisão procedimentos que eu aprendi na faculdade, principalmente os de primeiros socorros. Passa uma confiança maior. Com certeza a competência e o nível de conhecimento dos médicos da série me incentivam a estudar e ser um excelente profissional no futuro”.

Mas as séries de saúde não influenciam apenas pessoas que querem trabalhar na área. Dra. Maria de Lurdes não vê como algo ruim, pois pode fazer com que as pessoas aprendam a diagnosticar sintomas ou casos simples, resolver o problema sem necessariamente buscar ajuda. “Estas séries podem ensinar as pessoas a prestar mais atenção nos próprios sinais clínicos e de pessoas próximas”. Segundo a pediatra, as pessoas passam a procurar o pronto socorro somente para casos de real necessidade, o que evita a contaminação hospitalar, pois muitas vezes uma doença simples que poderia ser controlada em casa pode se agravar simplesmente por entrar em contato com outra pessoa em estado grave. “Aprendendo a identificar sintomas, as pessoas diminuem o uso de antibióticos, pois já sabem resolver de uma forma mais leve sem prejudicar muito o corpo, já que o uso frequente deles, além de diminuir imunidade, pode comprometer as funções renais e do fígado”.

A psicóloga Eliana Geraidini Naressi Bernardo também diz que podem trazer benefícios. “Por um lado pode levar sim `a automedicação, mas as séries na maioria das vezes instigam a somatização de sintomas e levam as pessoas a procurarem especialista quando precisam. As pessoas veem essas séries com muita curiosidade de saber e entender o que sentem. Acredito que isso leva as pessoas a buscarem entender o que se passa com elas, mas tudo depende do perfil de quem assiste“.

 

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