Giulia Avventurato
11/09/2018

Faltando um mês para as eleições do primeiro turno, a política nacional parece ter se implodido com uma série de acontecimentos determinantes para os resultados dessa fase. O ataque contra Bolsonaro em Minas Gerais; o movimento online “Mulheres contra Bolsonaro”, que mais tarde se transforma num ato político público; Moro estrategicamente libera para o público a fala de Palocci; Cabo Daciolo se transforma em meme. Correntes de WhatsApp se intensificam e a sociedade se dirige para uma inevitável disputa polarizada.

Entre a data limite para a formalização das candidaturas à presidência em Brasília e a decisão do TSE de impugnar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, as sedes de pesquisa eleitoral tiveram que lidar com duas possibilidades para simular as intenções de voto: Lula ou Haddad como candidatos à presidência pelo PT (Partido dos Trabalhadores). A ação é pertinente, quando os resultados entre as duas situações variam drasticamente. No primeiro turno, as pesquisa apontam que Lula ganharia com uma grande vantagem entre o segundo mais votado, Jair Bolsonaro; enquanto que se Haddad concorre, seus votos seriam pulverizados para os outros candidatos e sua intenção estaria fragilizada.

Lula, após 8 anos seguidos como presidente do Brasil, com 87% de aprovação e popularidade no final de seu mandato em 2010 e com mais de 30% das intenções de voto nas eleições de 2018, é um exemplo de como a sua imagem ultrapassou o partido que se filia. Independente dos escândalos de corrupção em que seu nome e partido foram citados, ele se mantém como uma liderança política de peso.

Antropologicamente falando, Lula é a personificação do mito do herói cultural. Enquanto presidente, seus projetos sociais como “Minha casa, minha vida”, redução da pobreza, distribuição de renda e a diminuição do desemprego cria uma personalidade que consegue, conseguiu ou até tentou superar questões consideradas épicas. Ao mesmo tempo, sua história pessoal é também uma forma de superação e identificação social com a classe trabalhadora, e na posição que ocupava, era visto também como intermediário entre “Deuses” (senadores, deputados) e mundanos. Essas características quase mitológicas buscam a mantenedura de um salvador e justificam muitas vezes a sua popularidade.

Do outro lado da moeda temos Jair Bolsonaro, que seria afetado caso Lula estivesse concorrendo à presidência. No inicio da campanha presidencial, o candidato do PSL se despontava com 25% das intenções de votos, mas perderia logo no primeiro turno caso disputasse com o ex-presidente. Com a confirmação de que Lula continuará preso, Bolsonaro subiu para 45% antes mesmo da primeira fase, com a possibilidade de ganhar logo no primeiro turno (a última vez que isso acontecerá no país foi em 1998 com FHC). Como dois candidatos com ideologias e morais opostas podem ser os mais votados?

Bolsonaro, supostamente liberal, pode ser a personificação de outro aspecto brasileiro: a cultura da violência.

Com formação na academia militar, seus discursos geralmente incitam a agressão verbal e até física das minorias, se apoiando no ideal de um governo autoritário. Até agora, sua estratégia é a de, pelo anti-petismo presente após os casos de corrupção, falar mal e desmerecer o seu maior adversário. Em relação às suas propostas, ele visa respostas fáceis, como por exemplo, a ideia de que o porte de arma possa de alguma forma diminuir as taxas de violência.

A cultura da violência e a relação entre o oprimido e o opressor tem uma história a se levar em consideração quando se fala da cultura do nosso País. Os aspectos se mostram desde os noticiários até nos costumes familiares e patriarcais presentes na sociedade brasileira. Usado de forma irracional e injustificada, essa cultura é vista como natural e como a única forma de resolver os problemas, uma forma linear de ver o mundo e que o seu resultado é o de uma única saída.

O “mito”, como é chamado pelos seus eleitores, pode não ter aquela imagem do salvador semidivino ou aquele que tenta superar problemas épicos (teve somente dois projetos aprovados em 25 anos de Congresso), mas definitivamente expressa a herança que temos de um brasil onde orgem significa combater problemas com violência. Historicamente, temos a ditadura militar de 64 como um dos últimos episódios de intolerância e anti-democracia, mas que é vista por muitos como um “mal necessário” diante de um momento de crise. A favor da tortura e da censura, Bolsonaro reformula esse episódio diante de uma sociedade que se sente traída e com medo do que o futuro pode proporcionar se o lado social se manter no poder.

Leave a Reply