Proposta de Bolsonaro para saúde vai desassistir mais de 40 milhões de brasileiros, diz ex-secretário do governo Dilma

Eleito no último domingo, 28, Bolsonaro possui postura negativa em relação ao programa de saúde pública e assusta especialista da área

Por Isabella Marzolla

Por Lucas Estanislau

Por Lucas Freitas

 

Presidente eleito muda postura em relação ao programa de saúde Mais Médicos e assusta especialista da área

 

                                                                                                            Foto Reprodução: Valter Campanato/Agência Brasil

Ao longo da campanha e no seu programa de governo, o presidente eleito Jair Bolsonaro prometeu um processo de transformações na saúde pública que iria desde mudanças de gestão no Sistema Único de Saúde (SUS) até a repatriação de profissionais estrangeiros do Programa Mais Médicos.

Para o ex-secretário do Ministério da Saúde e coordenador do programa Mais Médicos durante o governo de Dilma Rousseff, Heider Pinto, as propostas de Bolsonaro representam um desmonte na área da saúde pública que poderá deixar de beneficiar mais de 40 milhões de pessoas.

 

                                                                                                                Foto Reprodução: Valter Campanato/Agência Brasil

“O projeto de Bolsonaro é um embuste, não é cientificamente embasado e serve como pretexto para mandar os médicos cubanos embora, o que irá deixar mais de 40 milhões de pessoas sem atendimento e sem condições de terem seus problemas de saúde resolvidos”, afirma o especialista.

Em seu programa de governo, o ex-deputado aponta a abertura de concursos públicos nas áreas assistidas pelo Mais Médicos como uma possível solução e justificativa para o fim do programa.

Para Pinto, essa ideia vem de uma ala conservadora de profissionais da saúde do Brasil que foi incorporada sem críticas pela candidatura de Bolsonaro e aponta para exemplos nacionais e internacionais que indicam o desajuste que tal prática traria.

“Brasília e Belo Horizonte, que são capitais, mesmo tendo concurso público com boas remunerações, não conseguem garantir médicos nas periferias da cidade, o que o programa Mais Médicos conseguiu, e assim acontece no Canadá, na Austrália, cada um com seu programa de incentivo”, destaca o médico sanitarista.

Além disso, o ex-secretário do Ministério da Saúde aponta que essa prática proposta por Bolsonaro já foi iniciada pelo governo do presidente Michel Temer e se mostrou ineficiente por não ser uma “experiência baseada nos exemplos nacionais e internacionais”, mas sim de caráter ideológico e populista sob o ponto de vista do eleitorado conservador.

“O Bolsonaro foi um dos únicos deputados que votaram contra o programa, mesmo ele tendo sido aprovado por ampla maioria no Congresso Nacional. Se Bolsonaro colocar em prática o que diz, todos os brasileiros que hoje têm acesso a esses médicos perderão esse direito”, afirma Pinto.

O médico sanitarista da USP Marco Manfredini destaca os avanços trazidos pelo Mais Médicos, mas admite que após a eleição de Bolsonaro o futuro do programa é incerto. “O programa Mais Médicos tem apoio de todos as estruturas do SUS, e em um governo Bolsonaro existiria um enfrentamento político muito forte independente da questão político-partidária nas prefeituras.”

Manfredini considera os gastos com a saúde pública no Brasil muito baixos comparado com outros países da região, e acredita que o governo Bolsonaro pode fazer agravar esse problema. “Nós temos indicadores que mostram a saúde piorando, mortalidade infantil aumentando. Hoje claramente há um avanço de um conjunto de doenças, e se não forem traçadas novas políticas para financiar o setor da saúde, a situação vai se agravar cada vez mais e prejudicar a população mais vulnerável.”

 

O início do programa

O programa de saúde Mais Médicos começou no governo petista de Dilma Rousseff em julho de 2013, em seu primeiro mandato. O programa de saúde pública foi criado para suprir a necessidade da ausência de médicos em todo o território nacional e principalmente em lugares mais remotos, onde a escassez de infraestrutura e profissionais de saúde é maior. Para isso, o programa pretendia levar 15 mil médicos para as áreas onde faltavam profissionais.

 

                                                                                                                              Foto Reprodução: Agência Brasil

O Mais Médicos tem três eixos. O primeiro é fixar médicos, brasileiros ou estrangeiros, na rede pública de saúde de municípios do interior e nas periferias das grandes cidades. O segundo é ampliar o investimento em infraestrutura. E o terceiro seria ampliar o curso de medicina em dois anos – proposta já flexibilizada pelo próprio governo frente a uma avalanche de críticas. Após a primeira fase, destinada à inscrição de médicos formados no Brasil ou que já têm autorização para atuar no país, foram abertas as inscrições para médicos que atuam no exterior. O governo custeia a passagem dos selecionados ao Brasil. Os médicos estrangeiros passam três semanas sob avaliação de uma universidade pública antes de iniciar sua atuação, e o prazo de estadia no Brasil é de três anos, podendo ser prorrogado por mais três.

 

 

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