Por Carlos Eduardo Avoleta e Gabriela Maraccini 

O Brasil, por muito tempo, foi considerado um país jovem, com a pirâmide etária constituída de base larga e topo estreito. A partir da década de 80, esse cenário começou a mudar: a população brasileira está envelhecendo, cada vez mais. Esse amadurecimento traz consigo diversas consequências e desafios, como a criação de políticas públicas voltadas à qualidade da saúde geriátrica, aposentadoria e adaptação da infraestrutura das cidades para atender a essa população cada vez mais velha. É nesse contexto que um fenômeno tecnológico surgiu: os aplicativos voltados aos cuidados com o idoso.

Segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em menos de uma década, o Brasil aumentou em 8,5 milhões o número de idosos. Sendo hoje 26 milhões de pessoas acima dos 60 anos – em 2007, eles eram 17 milhões e, de acordo com projeções do órgão, em 2027 esse número dobrará, chegando a 37 milhões. Esses dados estão ligados ao aumento da expectativa de vida e à redução da taxa de fecundidade, consequências diretas do avanço da medicina.

Projeção do IBGE para a população brasileira nas próximas décadas/Fonte: IBGE

Além disso, o número de idosos sendo cuidados pelo home care – a internação domiciliar, em que o paciente é tratado por enfermeiros em sua própria residência – ou em casas de repouso aumentou. Segundo o boletim econômico da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Fehoesp), a quantidade de estabelecimentos que prestam serviço de home care quase triplicou no país. O Brasil tinha 138 clínicas em 2011. No ano passado, esse número cresceu para 392.

Esses dados chamaram atenção de desenvolvedores e especialistas em geriatria para a criação de aplicativos voltados aos cuidados necessários com os idosos. É um fenômeno crescente, levando em conta que cada vez mais pessoas têm acesso à internet e a smartphones – entre essas pessoas, os idosos. Muitos são os aplicativos já criados e com diferentes funcionalidades, todas voltadas à saúde do idoso, incluindo cuidados e informações sobre as doenças típicas da idade – desde diabetes até Alzheimer.

Vamos listar alguns deles:

  • Easy Idoso: oferece um catálogo de atividades físicas para a população idosa. Além disso, apresenta estabelecimentos de saúde, casas de repouso, associações de terceira idade, centros de beleza e recomenda eventos e atividades de entretenimento. É gratuito para Android e iOS.
  • Caixa de Remédio: com o objetivo de ajudar os idosos a lembrar de tomar os medicamentos na hora e na quantidade certa, exibe lembretes, lê o código de barra de cada remédio e apresenta uma descrição sobre eles. Gratuito para Android e iOS.
  • CPqP Alcance: com a idade avançada é normal que a visão fique debilitada. Pensando nisso, esse aplicativo facilita a visualização dos comandos de tela do smartphone e torna essa exibição padrão toda vez que o celular for ligado, podendo ser desinstalado se não agradar o usuário. Gratuito para Android e iOS.
  • Wise Phone: tem o mesmo objetivo que o CPqP Alcance, com o diferencial de conter o botão “SOS”, configurado para chamar a polícia ou algum contato de emergência preestabelecido. Gratuito para Android.
  • BP Watch: este aplicativo serve como um banco de dados sobre a pressão sistólica, diastólica, peso e pulso do usuário, dando recomendações e lembretes personalizados. Gratuito para Android e iOS.
  • Emergência app 112: o aplicativo traz uma série de opções de emergência para que idosos, pessoas surdas ou com outras deficiências possam pedir auxílio em caso de necessidade. Elas podem contatar bombeiros, polícia e ambulância. Gratuito para Android.

Entretanto, ainda não é de conhecimento geral o surgimento desses aplicativos. A enfermeira técnica do Residencial Ipiranga, casa de repouso para idosos localizada na zona sul de São Paulo, Daniele Máximo Pezani, não conhecia a existência dessa forma de ajudar o idoso e, por isso, considera que é de extrema importância a divulgação dos aplicativos na mídia e nas redes sociais. “Para um idoso, por exemplo, de 68 anos que está em casa, mora sozinho e que tem algumas limitações, mas consegue ser independente, eu acho que o aplicativo pode ser superútil”, opina.

Enfermeiras do Residencial Ipiranga. Daniele é a terceira, da esquerda para a direita/Foto: Gabriela Maraccini

Pezani, porém, faz uma crítica. Como enfermeira de uma instituição de longa permanência, ela julga que os aplicativos em questão não auxiliam em seu trabalho, já que a maioria de seus pacientes apresenta grau avançado de demência. “Eu tenho pacientes com demência vascular, demência de Alzheimer, demência frontotemporal e quando ele vem para uma instituição de longa permanência é porque já está bem debilitado e a família não tem mais condições de cuidar dele em casa”, explica. “Então um paciente em um grau avançado de demência, em que ele não consegue nem mais identificar o que é um aparelho de telefone, eu não consigo liberar para ele um celular para ter um aplicativo”.

Além disso, os cuidados demandados por essas pessoas em debilidade mais avançada são diferentes dos de idosos com menor grau de fragilidade. Pezani diariamente tem que estar atenta a seus pacientes e às cautelas que devem ser tomadas para a saúde de cada um deles. A enfermeira conta que é importante trocar a frauda do paciente a cada três horas, independente da quantidade de urina que estiver armazenada, para, assim, evitar uma infecção urinária – muito comum em pessoas com idade avançada. Além disso, evitar o uso de papel higiênico e lencinhos umedecidos para a higiene íntima de cada paciente é essencial. “A gente gosta muito de lavar com o chuveirinho com água quente, então todos os banheiros foram adaptados com os chuveirinhos, para na hora de trocar a frauda do paciente a gente lavar com água e sabão para diminuir o risco de infecção”, relata Pezani. Outros cuidados também são listados por ela, como atenção à alimentação de cada idoso e a hidratação da pele, que, por ser mais fina, corre maior risco de rompimento.

Pacientes de Pezani/Foto: Gabriela Maraccini

A enfermeira também ressalta que cada paciente tem sua exclusividade e que isso também deve ser levado em conta na hora de cuidar do idoso e de usar os aplicativos. “Mesmo que um paciente tenha demência de Alzheimer e outro também tenha, cada um tem a sua dificuldade, cada um evolui a doença de uma forma”.

E quanto aos idosos que moram sozinhos e ainda têm a sua independência? Pezani considera que os aplicativos são muito úteis e importantes para eles, desde que as suas funcionalidades sejam explicadas pelos familiares. “Às vezes é uma coisa tão fácil para nós que somos jovens, mas para um idoso pode ser um sacrifício”, argumenta a enfermeira. “O jovem familiar pode compreender a funcionalidade de um aplicativo e explicar para o seu ente querido como ele funciona, para que ele funciona e orientar que pode ajudá-lo em muitas situações”. Esse é o desafio a ser enfrentado por um país que está envelhecendo e se transformando tecnologicamente.

 

 

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