Por Jamilly Santana    

 

Ouvi dizer que alguns poetas da nossa geração, músicos, pensadores, escritores, leitores, não diferenciam seus títulos de amor. Não postam sobre a morte, a distância, a perda e a tal “platonice”. Ouvi dizer que esses poetas não sabem inovar, que eles não sabem diferenciar. Só sabem falar de amor. Não falam sobre o mundo, sobre a solidão, sobre a tristeza.

Ouvi dizer que eles não sabem de nada…

O meu tipo de amor sempre será aquele que gera esperança, que causa frio, calafrios, desejo, romance e um beijo sincero. Daqueles que vemos em filmes e que toda garota por si quase boba se derrete com o final. Pensando nisso resolvi relembrar algumas histórias que vivi e usar do tempo para mostrar meus aprendizados com elas.

JANEIRO

Nós já nos conhecíamos há mais ou menos 3 anos e eu sempre estive ciente do interesse dele em mim, mas resolvi ignorar o fato e mantê-lo como um amigo nas horas vagas. Era Janeiro, ano novo, vida nova.. Ao menos o que dizem. Mas não pra mim e nem pra ele. Ele tinha acabado de terminar um relacionamento por ter descoberto uma traição, eu estava despedaçada por achar que as coisas não dariam certo pra mim nesse ano. Duas confusões que se juntaram. Passei duas semanas inteiras na casa dele. Apesar de já conhecermos um ao outro ali nos conhecemos por inteiro: corpo, alma mente e coração. Ou melhor dizendo, nós reconhecemos um no outro. Os meses foram passando e diferente do que se era esperado não namoramos ou nos apaixonamos perdidamente, na verdade viramos grandes amigos. Brigamos muito. Quebramos a cara mais umas trinta vezes, mas sempre acabamos chorando no ombro um do outro.

Aquieta esse coração aí.

Ainda há um ano todinho pela frente. E mentiu quem te disse que os primeiros dias são um spoiler do que virá — e a vida nem tem roteiro pra isso. E sabe por quê? Porque ela é cheia de boas e gratas surpresas. E de bons e gratos recomeços. Quando o relógio badala à meia-noite, recomeça um novo dia. Quando você abre a janela e vê um céu lindo lá fora — ou nem tão bonito assim — recomeça um novo dia. Quando você decide recomeçar, recomeça um novo dia.

Então recomece seu ano. Se ele não está sendo tão bom assim, o faça ser. Enxugue essas lágrimas, coloque a sua música mais agitada para tocar e se reerga. Faça suas simpatias tomarem força para se realizarem. Há muitos recomeços, dias, vida e ano pela frente — está aí na sua cara e só você não quer ver. Cadê o amor que a cor rosa prometia? Ele virá quando você parar de ficar nesse desespero todo achando que só vai ser feliz com alguém ao lado. E não adianta nada querer um novo amor se você não esqueceu o passado.

O azul prometeu saúde. Então vai se cuidar! Mais água, comidas saudáveis, exercícios físicos e o principal: cuide da sua saúde mental.

O verde trazia esperança e você já desanimou com esse ano? Não faça isso com você. Não perca as esperanças em si, nem na vida.

O amarelo chama dinheiro. E os projetos que você tem? Já começou a colocar em prática?

O branco traz paz e você aí carregando mágoas do passado? Só temos paz na vida quando começamos a trabalhar a paz interior. Desapegar de mágoas, rancores, dissabores, brigas e ódios alimentados.

E se o lilás traz inspiração, inspire-se em quem você quer ser. Mude, evolua e se torne melhor dia após dia — e pra isso, não precisa esperar um novo ano começar.

Não adianta fazer todas as simpatias do mundo, se a principal você não fez: começar o ano sendo um novo você. Não culpe o ano atual se você o começou cometendo os mesmos erros dos anos anteriores. E te garanto: parada aí não o fará diferente. Siga em frente, fé em você e gratidão pelo que virá. O ano começou e você?

 

FEVEREIRO

O conheci em um aniversário da minha prima, nunca tinha o visto antes, mas assim que ele chegou notei sua presença. Impossível não notar, era daqueles que chegava e roubava olhares, talvez pelo sorriso, talvez pela altura, talvez pelos olhos claros. O motivo exato, não sei. Só sei que no mesmo dia conversamos da vida como se nos conhecêssemos há anos. Nos beijamos e eu até conheci a mãe dele. Nos reencontramos de novo no carnaval e foi mais um lindo dia pra se lembrar. Nos reencontramos mais tarde no aniversário do meu primo. Mais uma lindo dia pra se lembrar. Mas só um dia, a vida inteira seria lindo demais pra ser verdade.

Desculpa, mas estou preferindo ficar só.

As pessoas andam preguiçosas demais por aí. Isso acaba desencantando quem quer ser encantado. Faz tempo que não sinto aquele frio na barriga de como é bom gostar de alguém.        Ultimamente ando sentindo só dor de cabeça e pensando o porque comecei a gostar de tal pessoa.

Ninguém tem mais aquela vontade de bater no peito e falar “é minha” ou, “é meu”, as pessoas por qualquer coisinha banal já tiram o coração de jogo e que se lasque o outro. Dane-se os outros. As pessoas andam egoístas demais, só pensam nelas, vivem pra elas.

Alguns anos atrás, quando era mais novo, eu me apaixonava toda semana e, mesmo assim, ficava feliz. De peito cheio de amor. Hoje em dia eu torço para não me apaixonar. Evito. Corro. Tem gente que passa na mesma calçada que eu sorrindo de coração aberto mas eu atravesso a rua com o coração fechado com medo de ser cilada. As pessoas estão enganando demais.

Ficam até conquistar, depois que conquistam, fazem o que querem, e picam o pé.

Saudade de sentir o coração batendo fortemente por alguém e, de puro amor, fazer o coração do outro bater mais forte ainda. Isso que é gostoso. Incrível. Bonito. É bom ter alguém que não desista tão fácil, que não vai embora no primeiro voo, que não faz as malas só com a passagem de ida. O mundo anda tão desvalido e, cada dia que passa, a gente anda carente demais.  Porque, no fundo, a gente sempre quer amar alguém, só não tem quem dar todo esse amor. Por isso que cada dia que passa em que vou conhecendo as pessoas, ando preferindo ficar só. O único amor que não vai desistir de mim é o meu próprio.

JULHO

Bar da faculdade depois da ultima aula de sexta-feira era quase que uma tradição. Estava com as minhas amigas, falando da vida, das conquistas e das decepções. Havia uma roda de meninos que estava bem na nossa frente, minha amiga já tinha namorado um cara ali presente e por isso, fomos lá cumprimentá-lo. Nesse percurso esbarrei com um moço alto, olhos verdes, cabelos pretos e pele clara. Pedi desculpa e guardei aqueles olhos na memória. Fiquei mais um pouco no bar e fui embora pra casa sem saber se o veria novamente ou não. Eis que exatamente duas semanas depois, recebo uma solicitação de um novo seguidor no Instagram, olho para ver quem é e era ele. O cara que eu esbarrei sem querer no bar da faculdade, começamos a conversar por direct e em poucos minutos já havíamos desenvolvido um assunto que durou horas. Marcamos de nos encontrar na sexta e acabou que a ansiedade era tanta que adiantamos para o dia seguinte. Fomos a um bar na Maria Borba, era jogo do Brasil nas quartas de finais da copa do mundo de 2018. O Brasil foi eliminado da copa nesse dia, tinha gente chorando, nós também estávamos tristes, mas felicidade de estar um ao lado do outro foi tanta que ignoramos o fato. Depois desse dia, vieram outros dias, outras semanas e até outros meses. Foi intenso, bonito e sincero. Até que assim como o Brasil foi eliminado da Copa, ele foi embora, para outro país, Canadá para ser mais exata e dessa vez a gente chorou. A despedida nunca é fácil. Mas quem sabe não foi um até logo.

Sempre haverá um pouco dele em você.

É como se a sua série favorita tivesse acabado na metade, antes da hora, e você não conseguisse parar de imaginar o que é que aconteceria com os personagens se existisse outra temporada. Será que ficariam juntos? Será que ela descobriria a verdade? Alguém morreria? Não dá pra saber. E isso é horrível. Ninguém te avisou que seria assim. Ninguém te preparou pra uma interrupção tão repentina. Ninguém te disse que você se decepcionaria. Mas a vida é exatamente desse jeito: inesperada. E o amor também.

Vocês fizeram muitas promessas enquanto estavam juntos. Traçaram planos e metas e sonhos. Criaram histórias. Discutiram o futuro. Dois filhos, uma casa perto do lago pra passar os finais de semana e morar quando a velhice chegasse, um cachorro, um gato e talvez um peixe. Viajar pelo mundo, casar, construir uma família. Mas nada disso vai acontecer. A série de vocês acabou na metade e não tem mais espaço pra continuação. Ponto final, sem direito a reticências. Sem sentido, sem explicação. É o tipo de história que acaba, mas não termina. Nunca. “E se a gente tivesse tentado mais?”, “e se aquela briga não tivesse acontecido?”, “e se a gente tivesse tido mais paciência?”, “e se…” só que não importa mais. E, agora, saber disso dói. Arde. Queima. Sangra. Parece que não vai passar, aliviar, curar. Que nunca mais cê vai voltar a ser o que era antes disso acontecer. E tem certa verdade nisso tudo.

A dor vai passar, sim. As lágrimas que caem cada vez que você lembra do jeito que ele tinha pra te fazer rir de tudo, um dia, se transformarão em sorrisos. O coração apertado, pesado, vai, aos poucos, se livrando da angústia, da saudade, do luto. Tempo ao tempo, as memórias antigas vão perdendo espaço pra novas memórias. É tudo muito recente, mas daqui a pouco vai deixar de ser. O amor vai continuar aí, porque amor, meu bem, não morre nunca. Só que não será mais esse amor. Não será mais o grande amor da sua vida. Não será tão intenso e tão forte e tão inesquecível ao ponto de você achar que não terá outra pessoa. Ou outras. Será um amor guardado na caixinha das lembranças. Um amor com altos e baixos. Único, como qualquer outro. Mas que ficou pra trás. E há certa beleza em compreender isso. Há certo amadurecimento em aceitar o fim. E respeitá-lo.

Claro que vai incomodar seu peito quando souber que ele está com outra pessoa. Incomodará o dele, também, quando esbarrar nas suas fotos com outro alguém. Às vezes, você vai encontrar com o sorriso dele em um cara qualquer na rua. E ele vai sentir seu cheiro no pescoço de uma mulher diferente. O que eu quero dizer com isso tudo é que, nessa hora, vocês lembrarão que por um tempo, estarem juntos bastou pra que fossem felizes. E que foram. Mas que em algum momento deixaram de ser. Vocês não abandonaram o barco porque o que sentiam não era de verdade, abandonaram porque não adiantava mais remarem juntos. Dali pra frente, precisavam se separar pois o caminho já não era mais o mesmo. E tá tudo bem. As coisas são assim. A vida continua. E lá na frente passa a fazer sentido. Não dava pra ser de outro jeito. Ainda bem.

O amor acaba, mas continua em nós. Sempre haverá um pouco dele em você. Sempre haverá um pouco de você nele. E, mesmo assim, sempre terá espaço pra novos amores existirem e outras pessoas viverem em vocês. O fim inesperado de uma série não pode ser substituído por outra diferente, mas com tantas opções disponíveis, a gente descobre que sempre existirão novos personagens pra gente se apaixonar. E que não tem nada de errado nisso.

 

SETEMBRO

Quinta à noite véspera de feriado. Resolvi dar uma passada no bar da faculdade antes de ir embora, avistei um conhecido e entrei na roda de amigos dele. Em menos de alguns minutos a roda já foi reduzida a quatro integrantes discutindo sobre as suas opções no segundo turno da eleições de 2018, um trio tentando explicar para um leigo político que esse ano a escolha era sobre democracia ou fascismo. Enquanto tentava explicar o meu ponto de vista para outro integrante da roda me olhava e concordava com tudo o que por mim era falado. 1,84, olhos verdes e cabelos loiros. Após algumas horas de discussão política restou apenas eu e ele. Falamos sobre as nossas vidas, no que trabalhamos, o que nós brilha os olhos, o que almejamos e essas coisas normais que qualquer um fala sobre a vida. Dali em diante começamos a conversar por mensagem, diariamente, o dia todo, era um conversa que parecia não ter fim. Uma semana depois saímos e naquele dia parecia que já nos conhecíamos há anos. Uma vida inteira pra falar a verdade. Estava quase acreditando que a paixão tinha me pegado até que quase sem querer descobri que ele mantinha um relacionamento com outra mulher há meses. Me afastei e toquei a vida como se nunca tivesse conhecido aqueles olhos claros, bonitos e românticos demais para ser verdade.

Tá na hora de você escolher por você.

Este é um daqueles momentos em que precisamos aceitar que não dá mais, que não tem o que fazer, e ir embora mesmo querendo ficar. Eu sei que falar é fácil pra quem está de fora, pra quem não sente nada, e que pra você não tão simples assim. Eu sei que seu coração está pedindo pra você continuar apesar de tudo e que dói ignorar esse pedido. Mas me escuta, é melhor chorar de uma vez por todas porque acabou ao ficar cultivando expectativa de uma coisa que nunca vai pra frente. Cê já tá sofrendo de qualquer jeito. Percebe? É solitário demais viver sozinho uma história de amor, é patético te ver apostando as suas fichas em um romance que não existe, é triste te assistir correndo atrás de alguém que some e só aparece quando está carente e não tem mais ninguém pra procurar. Você não precisa passar por isso!

Recolhe o pouco de amor próprio que te sobrou, apaga os vestígios que ainda existem de vocês, esconde as lembranças e esquece os planos que você fez sozinha. Não vai existir casa na praia, viagem pra Noronha, dois filhos e um cachorro. Não vai existir felizes para sempre. Pelo menos não com ele, mas o que você não consegue ver agora é que isso pode existir com tantas outras pessoas que chega ser desperdício acreditar que sua vida acabou. Pode, inclusive, existir com você mesma. Já pensou? Ser feliz todos os dias só por descobrir que todo amor que precisa mora bem dentro de você. Enxuga os olhos, passa um batom, coloca seu vestido favorito, fecha esse livro e, pela primeira vez em muito tempo, se dê uma chance. Tá na hora de você mudar o foco, tá na hora de você escolher por você.

 

O amor é um texto.

Não foi preciso muitas perdas para ficar com um pé atrás no amor. Hoje, depois de míseros romances e vários livros modernos penso que, o cara certo – ou o cara errado que nos faz ser certa – existe. Mas isso só será verdade depois que sua cabeça mudar e seus pensamentos se manterem flexíveis as suas ideias. O amor, meus caros, é um texto infinito de descobertas, mas as pessoas estão tão cansadas de ler que se perdem nos parágrafos. A perda, a distância, ou a morte descoberta gira em torno da única palavra imposta no inicio do texto. No próximo texto posso estar falando do cachorro que acabara de morrer, do ídolo que mal me conhece ou da minha mãe que está em viajem. Mas isso ainda será amor. Falar de uma coisa só não me cai bem e dizer que tentarei me diferenciar na escrita seria uma caída intensa demais. Sobretudo quando se chega em dezembro…

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