Durante os dias 2, 3 e 4 ocorreu no campus Monte Alegre o congresso “Do Capitalismo humanista e recuperação de empresas – Homenagem ao professor titular dr. Newton De Lucca”, promovido pela Escola Paulista da Magistratura e pela PUC/SP. Estavam lá Ricardo Sayeg, professor do departamento de Direito da PUC-SP e líder do Núcleo de Pesquisa sobre o Capitalismo Humanista, Padre José Rodolpho Perazzolo, secretário executivo da Fundação São Paulo e Nelson Nazar, desembargador presidente do Tribunal Regional do Trabalho que explicaram o significado o termo “capitalismo humanista” e expuseram suas visões sobre o tema.

Ricardo Sayeg:

– O que é capitalismo humanista?

É a análise jurista do capitalismo na perspectiva dos Direitos Humanos.  É riqueza e prosperidade para as pessoas, sem abrir mão da igualdade e da fraternidade entre elas.

– Mas capitalismo e humanismo não são dois termos excludentes e em si contraditórios?

Não. É uma linha de pesquisa muito forte no doutorado, mestrado e na Faculdade de Direito da PUC-SP. Engloba as áreas do direito, economia e sociologia. As bases dos Direitos Humanos são liberdade e igualdade e as bases do capitalismo são liberdade e patrimônio. A liberdade de patrimônio faz parte dos Direitos Humanos… É enxergar o capitalismo no todo dos Direitos Humanos.

– Então é possível fazer um capitalismo com igualdade?

Sim. Prosperidade e riqueza para todos sem descarte do mínimo existencial para qualquer um.

– Mas a riqueza de uns não implica na pobreza de outros?

Isso no capitalismo selvagem. A pessoa pode ser rica, o que não pode é existir uma ilha de prosperidade banhada por um oceano de pobreza.

– E, na prática, como se alcança esse capitalismo humanista?

Avançando no IDH. O Brasil é o 6º PIB do mundo, mas o 84º no IDH. É preciso avançar.

Padre José Rodolpho Perazzolo:

– O que é capitalismo humanista?

O capitalismo humanista é uma linha de pesquisa da faculdade de direito da PUC-SP, liderada pelo professor Ricardo Sayeg e pelo professor Walter Barela, que visa descobrir no próprio sistema capitalista uma veia humanista, de promoção da pessoa humana. Eu acho que de fato é um grande desafio. Mas, de toda forma, é uma linha de pesquisa da nossa universidade que vale a pena ser conhecida.

É a busca de uma noção de desenvolvimento da pessoa, das relações humanas, do capital a serviço das pessoas e não as pessoas a serviço do capital. Acho que é essa linha de reflexão que esse congresso deve desenvolver.

E o senhor acredita que é possível o capital trabalhar a serviço das pessoas?

Eu acho que é um desafio. Um grande desafio.

– Mas o humanismo e capitalismo são termos contraditórios?

Não absolutamente contraditórios. Mas é difícil. Sabemos que na raiz do capitalismo está a visão do lucro, que muitas vezes nasce da exploração do homem pelo homem. Mas eu acredito na possibilidade de criarmos coisas novas. Estamos em um momento da humanidade de descobrir caminhos novos: um desenvolvimento humano mais harmonioso, respeitando as diferenças, o ecossistema, o jeito das pessoas serem. Além disso, hoje os países dialogam muito mais, temos que nos ver como uma comunidade mundial ao invés de comunidade nacional. Este tipo de reflexão é muito boa e vem em bom momento. Como desafio leva a gente a pensar e construir o novo.

– E essa busca pelo novo não tem justamente a ver com a crise do capitalismo?

Eu acho que ao longo do século XX, alguns sistemas e conjunto de ideias acabaram se desgastando. A própria noção de capitalismo e socialismo vem se modificando, se transformando, se aperfeiçoando. Mas hoje qualquer ideologia que quer ser levada a sério tem que ter como centro de discussão o desenvolvimento da pessoa. Desenvolvimento este entendido como necessidades básicas, liberdade, interação, respeito das diferenças… Acho que isso é o desenvolvimento integral da pessoa.

Nelson Nazar:

– O que é capitalismo humanista?

O capitalismo humanista, para falar em pouquíssimas palavras, é o capitalismo contido pelo regramento do direito, para que ele não seja selvagem. Então a ordem jurídica estabelece também que os trabalhadores, que são co-participes do sistema capitalista, participe disso. Em poucas palavras, é isso: o capitalismo que se faz sob a ordem jurídica e que evita que haja muita desigualdade na estrutura do regime.

– O senhor disse para que não haja “muita desigualdade”… Então o senhor acredita que não é possível a existência de um capitalismo sem desigualdade?

Não, não é possível um capitalismo que não haja desigualdade. Mas essa desigualdade tem que operar nos direitos daqueles que estão em ascensão.

– Então o capitalismo humanista não é um termo contraditório?

Há uma tendência contemporânea no sentido de o capitalismo e o humanismo. O capitalismo, quando selvagem, é predador, maléfico; mas quando contido, ele traz o aumento de riqueza e a estrutura social mais justa.

Da servidão humana

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