Por Maria Fernanda Favoretto

A convite da PUC-SP, alunos e ex-alunos da universidade comentaram seus trabalhos de conclusão de curso tendo como tema em comum os esportes. “Cine debate: Dentro e Fora do Campo”, terceira mesa de apresentação de TCCs que aconteceu durante a 40º. Semana de Jornalismo, mediada pelo professor Renato Levi, contou com a presença dos então formados profissionais João Pedro Barreto e Rogério Dias, e dos alunos formandos Estella Cezare e João Abel.

Os ex-alunos seguiram caminhos diferentes em relação ao que foi designado como o tema central da mesa. Rogério Dias criou um documentário relatando como o preço dos ingressos para os jogos futebolísticos aumentou exacerbadamente de poucos anos para cá, e como, baseados em países europeus, os times transformaram alguns dos maiores estádios brasileiros em poderosas empresas denominadas arenas, fator esse que supervalorizou o preço dos ingressos, por exemplo, entre times como o Corinthians, substituindo o antigo estádio do Parque São Jorge pela atual Arena Corinthians, ou Itaquerão, e até mesmo o Palmeiras, substituindo o antigo Palestra Itália pelo novo Allianz Parque. Hoje se vê que a segregação é nítida entre os torcedores que conseguem comprar os ingressos e aqueles que não podem pagar. “Até meu filho de 6 meses não consegue assistir ao jogo gratuitamente”, diz torcedor palmeirense entrevistado por Dias, fanático pelo time, que sempre que pode acompanha os jogos ao redor do estádio nos bares com a família. Entre os fãs, estão diretores de times e ex-jogadores. Dias apurou como as novas arenas acompanham a questão da modernidade futebolística. Em uma conta rápida, no Allianz Parque, o preço médio de um ingresso é de R$117,00. A opção de ingresso mais barata custa 90 reais, ou seja, 9,2% do salário mínimo. Antigamente o torcedor comprava o ingresso para torcer e vibrar com seu time, independentemente da condição de estar de pé, com chuva ou debaixo do sol. Hoje, o torcedor preza pelo conforto, pelo acento e pela área coberta, alegando ter pagado caro no ingresso, e então merecer tais condições. Ou seja, o jogo torna-se muito mais um espetáculo para ser recordado, fator esse que descaracteriza o time.

João Pedro Barreto, que também produziu um documentário, contou sobre a vida do comentarista brasileiro Luciano do Valle a partir de entrevistas com três grandes nomes do esporte brasileiro, Magic Paula, jogadora profissional da época de ouro do basquete feminino dos anos 90, que teve seu jogo narrado por Luciano na final do Pan Americano de 1991, entre Brasil e Cuba. Com a vitória do Brasil por 97 a 76, a jogadora, ao lado de Hortência, teve sua mão cumprimentada por Fidel Castro, que ainda disse às atletas “não vou entregar a medalha, porque vocês trapacearam. Vocês usam uma mira a laser para arremessar”. Entrevistou também o ex-jogador e atual apresentador Neto, que, apesar de não ter sido campeão contra o Corinthians, marcou pelo seu então time, o Guarani, um gol de bicicleta que ficou marcado na história e, claro, narrado por Luciano. Felizmente, como contou Neto, após sua carreira de jogador, teve a oportunidade de entrar para a vida de comentarista e até mesmo narrar algumas partidas ao lado de Luciano. E por último, entrevistou o capitão da seleção masculina de vôlei de 1986, William, que contou sua experiência do épico jogo entre Brasil e Rússia, ou URSS na época, que aconteceu no Maracanã com direito a lotação do estádio, ganhando da Rússia por 3 a 1. Os jogadores, que viraram ídolos da noite para o dia, enfrentaram muita chuva, chegando até a tirar os tênis para facilitar o andamento do jogo. Barreto contou que tentou dar uma roupagem diferente para seu documentário. Em vez de falar com a família, tentou conversar com os atletas que passaram pela vida dele, e que ao mesmo tempo, foram agentes importantes dentro do mundo do esporte nacional.

Em relação aos trabalhos dos formandos, os formatos variaram entre si. João Abel tratou de um problema nacional pouco citado pela mídia daqui: onde estão os LGBTs no futebol? Escolheu escrever um livro sobre o assunto, dividindo-o em três capítulos: campo, arquibancada e camisa. No primeiro, o autor aponta a homofobia que acontece dentro de campo. Em pesquisa, ele descobriu que, no Brasil todo, existe apenas um jogador assumidamente homossexual, chamado de Jamerson, que joga como goleiro em um time do interior do Rio Grande do Norte. No segundo capítulo, João falou sobre as torcidas LGBTs brasileiras, dentre elas a do Grêmio, “Coligay”, sendo a primeira que surge em cenário nacional. Também citou outras como a do Atlético Mineiro. Por fim, no terceiro capítulo, o autor contou um pouco sobre os times LGBTs amadores que estão surgindo, e que hoje, somam quase 50.

O caso de Estella foi um pouco especial. Ela teve a oportunidade de visitar a África do Sul com o intuito era documentar o time de futebol criado pelos próprios moradores de uma comunidade. Realizou a viagem em julho e entevistou um grupo que em 2007, três anos antes da Copa, era de moradores de rua. O governo sul-africano os recolheu à força e os jogou a 50 quilômetros do centro. Disse que ninguém conhece essa história. Das 5 emissoras que cobriram a copa do mundo, apenas uma fez uma matéria de 7 minutos, a ESPN Brasil. Esses moradores estão a 11 anos procurando um legado que não existiu na Copa do Mundo. Hoje vivem em casas de containers, não tem água, dividem o banheiro entre 40 pessoas. É uma situação muito precária. “É um caso que não aparece na grande mídia, mas a gente tem a oportunidade de fazer um trabalho social desses” disse Estella durante a conversa.

Os alunos, junto com o professor, complementaram seus trabalhos dando dicas para a plateia, em sua maioria estudantes de jornalismo, sobre como produzir e engrandecer seu trabalho de conclusão de curso. O professor Levi comparou esses trabalhos com guerrilhas, pois os alunos estão sempre sozinhos para a produção, ponto esse  que os próprios palestrantes disseram que deve ser mudado, sim, e que os alunos devem lutar para que os trabalhos sejam em grupos. As datas e horários dos TCCs de 2018 ainda serão divulgados para o público.

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