Curso abre espaço para diálogo cultural

Por Giovana Macedo

 

A crise política no País afetou diversas áreas da sociedade, principalmente o meio jornalístico. Portanto faz-se necessário criar ambientes que permitam aos indivíduos se manifestarem sobre esses problemas. Na semana do dia 21 de outubro, o Departamento de Jornalismo da PUC-SP disponibilizou debate acerca de assuntos que giram em torno do curso. Com assuntos desde fake news até desastres ambientais, a programação contou com convidados de diversos jornais, sites e meios culturais para discutirem os temas escolhidos pelos organizadores das mesas, que, como sempre, são os próprios alunos do curso.

Da esquerda à direita: LOAD, Wagner Loud, Fabio Cypriano, Gomes Freitera e San Joe (Foto reproduzida com o celular)

No dia 25 de outubro, foi a vez da mesa “Novas narrativas de cultura”, a qual teve a presença do desenhista e designer gráfico Wagner Loud, o rapper San Joe, o youtuber LOAD e o produtor musical Gomes Freitera. O debate foi iniciado com a fala do coordenador do curso Fabio Cypriano, que apresentou os convidados e explicou um pouco mais sobre os assuntos que seriam abordados.

Em seguida, cada convidado se manifestou, começando com San Joe e terminando com LOAD. Cada um contou o início de sua carreira, sua trajetória e conquistas, exibindo vídeos e trabalhos que produziram. Na sua apresentação, Wagner Loud exibiu seu projeto mais recente com LOAD denominado, “Rap em quadrinhos”, no qual ele desenhou cantores de rap no lugar dos super-heróis convencionais. “Quando se junta essas duas culturas, se sofre muito preconceito por gente que acha história em quadrinhos uma literatura menor. Eles não a consideram como arte” disse Loud ao apresentar a primeira parte do projeto, mas complementa: “o legal desse projeto é que conseguimos fazer com que as pessoas que já escutavam rap gostassem e conhecessem melhor as revistas em quadrinhos. E vice-versa”

Projeto “Rap em quadrinhos”, Wagner Loud (Reprodução com celular)

Ao término das apresentações, o coordenador do curso abriu o espaço para debate, dividido em blocos de 3 perguntas. As questões foram feitas com base no trabalho dos participantes e no cenário político atual, o qual é fator primordial na criação das músicas, dado que possuem críticas e frases de protesto contra o sistema racista, elitizado, misógino e desigual. Todos os convidados se manifestaram politicamente de alguma forma, seja reclamando da legitimidade que a agressão política causa (agravadas com a candidatura de Jair Bolsonaro) ou reclamando do racismo enraizado no País.

As perguntas foram sobre assuntos como a falta de representação feminina no rap, colocada em questão pela estudante de jornalismo Gabriela, que perguntou aos convidados como fazer para difundir eventos e projetos que tenham mulheres negras na linha de frente. Respondendo à sua pergunta, o youtuber LOAD disse que desde criança sempre conheceu artistas como Dina Di e Negra Li, mas afirmou que em relação ao número de rappers homens, o de mulheres sempre foi baixo e, quando participavam, era como backing vocal. Em seguida, Wagner Loud complementou observando que “é muito difícil ter mulheres como a atração principal”. O desenhista continuou dizendo: “em um festival tem 15 bandas compostas por homens e apenas 3 bandas compostas por mulheres. Isso seria o resultado cultural da sociedade. Por exemplo, histórias em quadrinhos são uma área que não tem muitas personagens femininas. Temos que começar a incentivar mais mulheres a participar de festivais e arrumar isso desde a base”.

Na mesma perspectiva de respostas, o rapper San Joe respondeu a questão apontada pelo professor Urbano Nobre, dizendo: “a palavra marginal vem da palavra margem, para limitar algo, não tem nada a ver com o perigo; a favela não é perigosa. O que sim é perigoso dentro da favela é a televisão”, tal frase ganhou aplausos do público presente no debate. “Os homens lá em cima, como o Bolsonaro, não deram condição para o pobre ter as coisas que passam na televisão. Ela vende uma ilusão”. Wagner Loud acrescentou que: “o ideal é não se prender à família, à ficar dentro de casa, à internet. Saiam para a rua, produzam conteúdo. Tem que fazer o que gostar para aprender o máximo possível”.

Nesse sentido, é possível ver que o debate abordou temas diversos mas que, de certa forma, caminham lado a lado: feminismo, arte, rap, movimento negro e entre outros. Esses meios culturais dialogam entre si e se completam. Desse modo, a mesa organizada pelos alunos foi enriquecedora no âmbito cultural e também, de muitos aprendizados, visto que fez com que quem não vive essa realidade (do medo de virar a esquina por ser negro e da favela) pudesse compreender e se solidarizar um pouco mais com o sofrimento e a injustiça que tantos carregam há anos. Sendo assim, é evidente que as expressões culturais no Brasil devem ser reconhecidas, valorizadas e divulgadas, tanto pela mídia quanto pela sociedade em si.

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