Por Artur Ferreira 

 

O evento que fora organizado pelos CA’s de Jornalismo da ECA-USP, Cásper Líbero e PUC-SP ao seu encerramento contou com a participação desses alunos já apaixonados por sua – ou futura – profissão levantando um cartaz ao final declamando “Liberdade, liberdade. Abre as asas sobre nós”, homenageando não só aos trabalhos excepcionais de todos os convidados e mais ainda ao homenagear e manter vivo o legado deixado pela resistência do jornalista Vladimir Herzog.

A Roda de Conversa era algo extremamente simples, mediada pelos jornalistas e professores Angelina Nunes e Paulo Oliveira, ambos os profissionais recebem todos os vencedores de cada categoria além disso uma menção honrosa que também merece tanto prestígio quanto o ganhador. E para um melhor entendimento do poder que todas as produções jornalísticas apresentadas representam, não se faz diferença entre ganhador e menção honrosa já que o choque de cada uma dessas realidades mostradas é inexorável e incomparável entre si.

A primeira a se mencionar é a produção feita em áudio, representada por Danyele Soares na Roda, feito pela Rádio Nacional de Brasília/DF, Danyele e sua equipe se atentaram a um fato que assusta e de tão poderoso que é, quase nunca é citado nas rodas de bar, ou no restante da vida cotidiana, o cárcere feminino, já que muito se fala no sistema penitenciário masculino e sobre superlotação, maus tratos, e constante busca pelos direitos humanos mas pouco se fala de mulheres nesse sistema. Observar que se o mundo já é machista nas esferas públicas e na realidade das grandes cidades e do campo, por trás de grades, esse veneno se torna muito pior. Danyele descreveu que um ponto importantíssimo para o sucesso dessa reportagem foi sua habilidade para compreender e lidar com os anseios femininos dessas mulheres por trás das grades que para estarem aonde estão, enfrentaram algo extremamente escabroso e que muitas vezes se sentem esquecidas.

A jornalista descreveu que fora duro para conseguir que mulheres se sujeitaram a dar seus depoimentos sobre sua vivência dentro das prisões e o que as levou para lá, quando questionada sobre os principais motivos que causaram o aprisionamentos das mulheres, algo mais assustador vem a tona, a grande maioria dos casos estão todos ligados a um homem na vida dessas mulheres. Desde de ser pega traficando entorpecentes para dentro de presídios para seus maridos ou namorados, até cometer outros crimes que derivam de relacionamentos muitas vezes abusivos e sem a devida perspectiva de um futuro. Essas moças algumas delas chegam a esses presídios grávidas, e tem seus filhos durante a sua detenção, Danyele durante a roda afirma que para um jornalista penetrar na vida de uma pessoa tão fragilizada pelo mundo é necessário muito cuidado, prudência e o mínimo de empatia para se ouvir essas histórias todas, e a mesma como mulher foi um grande facilitador para tal, desde saber como funciona a rotina feminina dentro de uma prisão, até a as intimidades e cuidados que uma mulher ainda consegue obter mesmo estando prisioneira.

A realidade mostrada por Danyele vai bem fundo em questionamentos que muitos jornalistas jamais fizeram pois nunca lembraram de o fazer, a realidade questionada pela equipe da Rádio Nacional é dura, e desconfortável, mulheres que passam pela superlotação, pelos maus tratos e que lutam por manter sua feminilidade mesmo no cárcere.

A Roda de Conversa continua a girar passando a fala de convidado em convidado, e o interessante a se refletir é a rapidez na passagem de uma vivência para outra como se fosse uma página virada de um capítulo, porém sem o anterior acabar, o espectador da roda continua querendo entender o como, e o porquê, de nunca ter refletido sobre os fatos anteriores e de repente se sentir tão abalado por ser confrontado por um cotidiano que não é o seu e que o mesmo, não tem a menor ideia de como ajudar nessa luta.

Segue-se para Gilmar, que concorre na categoria Arte, o cartunista que fez uma releitura de forma bem caricata da polêmica capa da Time que colocava Donald Trump em frente a uma criança refugiada em prantos em um fundo vermelho. Na imagem de Gilmar, se destaca a frase “Bem-vindo ao Rio”, e a morte – com um fuzil na mão – de encontro com uma criança negra morta a sua frente.

Gilmar ao contar sua história leva o silencioso espectador – que também é um exímio fotógrafo já que muitos dos presentes de 5 em 5 minutos pegavam suas câmeras e celulares para registrar aquele momento – da Roda a se colocar dentro do movimento sindical brasileiro, do final da ditadura militar ao período de redemocratização e surgimento do PT. Gilmar cresceu nesse ambiente e se formou no mesmo, ele atuou em jornais sindicais durante a juventude em um tipo de “jornalismo revolucionário”, o mesmo afirmou que pela idade, não vivera os momentos mais perigosos da ditadura e sim sua parte mais branda, porém aquela experiência o fez ser quem ele é tanto como pessoa quanto ideologicamente.

Gilmar durante a conversa fala de suas raízes nordestinas, fala brevemente de questões como preconceito e imigração e é aonde chega o “link” para sua ideia na charge citada, ele teria olhada para a famigerada capa da Times e visto ali a chance de reinterpreta-la com os olhos de um brasileiro que pode ver a violência todos os dias se quiser, e em específico “homenageia” o banho de sangue vivido pelo Rio de Janeiro nos últimos anos turbulentos que a cidade tivera e ainda por cima por sua recente intervenção militar que mais acirrou os ânimos e incitou a violência desvairada.

Se imaginar no lugar de uma população que só quer viver sua vida em paz mas que fica entre traficantes e policiais todos os dias, e normalmente quem morre nesses tiroteios é exatamente quem não possui armas para revidar a bala perdida, e esse pensamento ilustra o pequeno menino negro morto, vestido com seu uniforme escolar tentando viver uma vida comum mas sendo chamada para a guerra que assola seu cotidiano da porta pra fora.

E é essa realidade que toca a porta do próximo convidado da Roda citado que traz mais fervor e acidez para o paladar do espectador – que continua silencioso -, Mauro Pimentel, fotógrafo profissional do Rio de Janeiro com seu trabalho “Guerra na porta de casa”, representa como um dos indicados na categoria fotografia. Mauro afirmou que um dos desafios de um fotógrafo carioca é entender que o que vende é o crime, a violência, o choque e até mesmo a tristeza naquela vivência, mas que o jornalismo vai muito além disso que aquela cobertura tem que ir mais fundo para entender a realidade e não transformar aquilo em uma mina de ouro de tragédia.

E com esse foco que ele apresenta sua foto indicada, que diferente da charge de Gilmar, pode ser interpretada de uma forma até mais esperançosa do que a arte anterior. Na foto aparecem 3 soldados bem armados e apostos para qualquer coisa, porém o que destoa desse clima pesado de violência é um menino, ainda criança voltando para a casa com algumas sacolas de compras. A beleza na foto é ver que independente do nível de opressão e tensa que atinja as essas pessoas (em qualquer lugar do mundo) a liberdade intrínseca nelas continua a lutar pelo seu devido e merecido espaço.

O fotógrafo continua contando que a vida no Rio com essa profissão tem seus – vários – desafios, desde de escolher entre esconder o equipamento até o local seguro para se ficar para tirar suas fotos sem ser um dos alvos dos tiroteios.

Pimentel afirmou que sempre preferiu optar por mostrar quem era e a razão de estar ali, ser franco com as autoridades e moradores da região em que o devido ocorrido esteja acontecendo, ele brinca durante o evento, dizendo que bancar o “agente secreto” normalmente é pior, e isso não é só direcionado aos “bandidos” e sim aos “bandidos de farda”, Mauro comenta que já viu colegas passarem por situações de abuso de policiais – mais especificamente os corruptos -, que impedem o fotógrafo de realizar o seu trabalho ou até mesmo o ameaçam.

Como em um caso em que ele contou que estava seguindo o BOPE, em uma operação, e em um dado momento um dos policiais disse algo como: “Oh Repórter, fica a 6 passos atrás de mim se não eu atiro…”, ele disse que contava os passos para poder seguir em frente porque tinha o medo real de ser ferido pelos agentes ou até mesmo morto, e quando deu um passo em falso logo recebeu um tiro de aviso próximo a ele, se colocar na tensão que um fotógrafo pode sentir ao ser ameaçado por quem deveria “protegê-lo” não é só chocante, mas questiona os mais sinceros dilemas morais que qualquer cidadão tenha sobre as autoridades acima do indivíduo comum da sociedade brasileira.

Outro caso que o fez lembrar de abuso de autoridade, foi o dia em que ele estava junto de um grupo de outros fotógrafos e ocorrera um tiroteio nas regiões que haviam sido tomadas pela intervenção militar, e em um dado momento após o fim do tiroteio um grupo de policiais entrando no camburão levavam consigo um adolescente que de acordo com Mauro todos sabiam que era só um garoto que vivia na região e que não tinha ligação com o tráfico ou qualquer tipo de criminalidade, o garoto que estava sendo espancado pelas autoridades receberam vaias e gritos desesperados da população que estava ali, foi aqui que Mauro disse que o choque contagiou os repórteres que começaram a lotar suas câmeras com fotos do ocorrido, e quando perceberam que foram fotografados no ato de puro sadismo e preconceito, os policiais largaram o menino na rua praticamente morto e entraram no camburão saindo dali em instantes.

Mauro faz uma pequena pausa, para que os outros convidados comentam sobre, tanto os que vieram do Rio e sentiram essa realidade na pele como os desconhecidos de tanta violência. O repórter fotográfico diz que em casos como esses várias e várias vezes ele em conversas com pessoas pacíficas que participavam das fotos, ele decidiu ou omiti-las ou jamais publicá-las para a proteção dos mesmos, o que era mais comum para ele era encontrar policiais que lhe pediam isso pois moravam nas favelas que o combate acontecia e que para sobreviverem escondiam suas fardas enquanto iam e voltavam de seus empregos.

Mauro afirma também que esse tipo de jornalismo é extremamente vendável e excitante para aqueles amantes de adrenalina, na época que fez a famigerada foto que concorreu ao prêmio ele era somente um freelancer que vendia suas fotos para agências e grandes jornais de todo o mundo desde as Américas até mesmo o extremo Oriente, e ele mesmo diz que essa sensação faz o fotógrafo se cegar um pouco ao achar que pode tudo, quase como um simples mensageiro do caos regional em que está e que isso ofusca o real objetivo daquele ato de fotografar, que é denunciar o que está havendo ali para que aquilo jamais ocorra novamente.

O carioca termina dizendo que o clima de tensão mesmo que traga adrenalina e faça o jornalista se sentir em um “filme de guerra”, na verdade é o oposto pois o profissional da comunicação é constantemente ameaçado por aquele ambiente que o considera ingrato, ele chega a dizer que já ouviu coisas como: “Tim Lopes, cuidado ein… tem um micro-ondas te esperando lá em cima”, fazendo uma clara alusão a morte brutal do jornalista investigativo Tim Lopes.

 

A reflexão feita por Mauro é continuada por outro fotógrafo e jornalista, Albari Rosa que foi o ganhador da categoria fotografia com o título “Consumidos pela escravidão”, Albari continuou o raciocínio de seu colega ao contemplar a ideia de que a vida jornalística ela não deve ser glamourosa ao ponto do jornalista se sentir a própria notícia, já que a notícia em si é o mais importante e ele, um mero mediador do que ali ocorre. Albari que realizou este trabalho pelo jornal Gazeta do Povo de Curitiba sempre acreditou na ideia de transmitir histórias independente do perigo, e o mesmo anteriormente que já ganhara anos atrás o prêmio Tim Lopes de investigação jornalística afirma que boa parte da sua vida profissional estava entrelaçada com essa área da profissão.

Albari afirmou que diferente da posição de Mauro na relação policiais e fotógrafo, no seu caso ele sempre optou por se esconder e esconder seus equipamentos e ele cita um dos exemplos mais chocantes da sua vivência que fora sua experiência com traficantes de crianças para trabalho escravo – que engloba desde de o uso de trabalho infantil até abusos sexuais -, e que Albari afirmou que quando se é pego investigando esse tipo de crime, os envolvidos nunca acham que você sabe de somente uma parte do esquema e que na verdade você está indo atrás de coisas que nem você [repórter] sabe que existe, o exemplo citado por Rosa na mesma história do tráfico de crianças seria o tráfico de drogas, em um dado momento da investigação ele quase foi morto por acharem que ele na verdade investigava o tráfico de drogas sendo que era exatamente o contrário. E é por isso que nesses tipos de casos onde a intenção do jornalista possa parecer dúbia para os investigados o melhor jeito a se proceder é agir entre as sombras.

Albari também relata que em suas investigações viu casos horrorosos por toda a América Latina, e que suas denúncias muitas vezes surtiram efeito para que autoridades e pessoas que estavam sendo enganadas por quadrilhas gigantescas entendem-se o que realmente estava acontecendo naquela região.

Outro exemplo citado por Rosa seria a presença de trabalho escravo em uma propriedade que estaria utilizando dessas pessoas para trabalho manual que envolvesse um cenário extremamente insalubre, o jornalista afirma que esse tipo de criminalidade age de forma tão sorrateira que o próprio dono da propriedade não tinha ideia que alguém havia invadido e tornado parte de seu terreno em um pequeno campo de trabalho escravo sem consentimento. Após coletar dados e entrevistas das pessoas escravizadas, Albari fez uma denúncia formal sobre o caso e publicou a matéria e derrubou o esquema ali instaurado e o proprietário do local foi obrigado a realmente fiscalizar suas terras.

Albari e Mauro nesse ponto dialogaram bastante partilhando experiências e vendo que o mais importante em tudo que o jornalista faz é denúncia, não importando o modo ou mídia em que isso seja feito. Albari afirmou que para a realização desses grandes trabalhos jornalísticos é necessário investimento por partes dos jornais e elogia a Gazeta do Povo ao dizer que sempre esteve muito bem alinhado e preparado para requisitar o financiamento devido para o avanço de grandes matérias jornalísticas e constata que a sua foto ganhadora é um resultado da fé do jornal em que trabalha no potencial jornalístico daquela matéria mesmo sendo algo caro.

A foto é simples, dois trabalhadores carregando toras de madeira em um tipo de madeireira clandestina realizando um trabalho análogo à escravidão, em preto e branco. O contexto a foto passa por si só, e o seu impacto também, mas a experiência de Albari enriquece muito mais o “storytelling” que aquela foto pode conter e o os objetivos de denúncia e conscientização que ela carrega. 

A plateia continuava a somente ouvir os convidados, alguns mais jovens que acabaram de adentrar no universo da comunicação, e outros mais experientes focados em ouvir aqueles relatos e até mesmo se identificar com tais. Em vários momentos os discursos feitos são direcionados a esses mais jovens que sentem que querem realizar tais tipos de trabalhos humanitários de denúncia de algum tipo de realidade, mas que não mensuraram ainda o peso e responsabilidade que isso tem e que reflete na vida desses profissionais do jornalismo. Até o final da palestra o clima de tensão era meramente ao expor os fatos, histórias e experiências, mas na maioria dos casos os ganhadores e indicados sempre se remetiam a um mesmo ponto principal, a esperança que esse trabalho traz. 

No dia 25 de outubro foi realizado a 7ª Roda de Conversa com os Vencedores do Prêmio Vladimir Herzog no TUCA, para receber os ganhadores das diversas áreas que o prêmio aborda. Ao todo são 6 categorias, Texto, Arte, Fotografia, Multimídia, Vídeo e Áudio, e todas essas com um protagonista e uma grande história se contar.

 

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