PADRE JAIME CROWE: COMO COLEGAS MEUS PODEM OPTAR POR BOLSONARO?

Entrevista exclusiva feita com o Padre Jaime Crowe, líder comunitário no Jardim Ângela e que recentemente se colocou ao lado de Fernando Haddad na disputa presidencial

Foto: Stefano Maccarini/Folhapress Padre Jaime Crowe: mais de 30 anos de luta pelo Jardim Ângela. Foto: Stefano Maccarini/Folhapress

Por Henrique Sales Barros

 

            Me acomodo no banco da Secretaria Paroquial à espera do Padre Jaime Crowe. Enquanto aguardo o missionário, a secretária se mantém serena na frente do computador apagando palavras de baixo calão na página da Paróquia no Facebook – recentemente o padre celebrou a Santa Missa de Nossa Senhora Aparecida na presença do candidato a presidente Fernando Haddad, sua esposa e a candidata a vice Manuela d’Ávila, o que irritou os católicos conservadores mais fervorosos. Por volta das 9h20, ele chega. “Benção, Padre Jaime”. “Deus te abençoe, meu filho. E me desculpe pela demora”.

            Fomos para uma sala pequena nos fundos da Secretaria Paroquial que está cheia de alimentos doados – a Igreja promoverá uma grande feijoada em breve – e possui um quadro do Papa Francisco no alto da parede. “Sócrates!”, exclamou o padre ao ver no papel de parede do meu notebook a imagem do meia de passes precisos e posicionamentos políticos pertinentes. Corinthiano fervoroso, ele costuma brincar em alguns eventos dizendo “Saudações, Corinthians!” aos presentes. Irlandês de nascimento, mas brasileiro de coração, ele ainda tem um forte sotaque original da terra de São Patrício e do chá, embora ele diga que prefira o clássico ‘pingado’ (café com leite) paulistano mesmo. “Chá eu só costumo tomar quando vou a Irlanda. A última vez que eu fui foi em junho passado”. E nada de dizer que ele não é brasileiro: “Já estou no Brasil há quase 50 anos. Se for ver, sou mais brasileiro que você”, brincou. Assim que ele se acomoda na cadeira ele já começa a fumar o seu cachimbo, uma marca registrada sua. “É o meu cachimbo da paz. Cigarro é proibido, cachimbo não”, diz ele aos risos.

            Jaime Crowe é pároco da Paróquia Santos Mártires, localizada no Jardim Ângela, na periferia da Zona Sul de São Paulo. Com claras posições progressistas, o padre é conhecido como líder comunitário e defensor dos direitos dos mais desfavorecidos. Fundador da Sociedade Santos Mártires, que tem como fim a promoção da dignidade humana por meio de ações pautadas em programas, projetos e serviços sociais, ele também foi idealizador da ‘Caminhada pela Paz no Cemitério São Luís’ em uma época que a sua comunidade foi considerada a mais perigosa zona urbana do mundo segundo a ONU. O padre abriu a boca para falar sobre sua vida como padre, o mártir Santo Dias da Silva, suas atuações sociais na periferia, eleições e o que mais deu na telha. Confira, nas próximas linhas, a entrevista completa:

 

A escolha pela vida beata na terra de São Patrício

 

            Eu nasci em uma família de dez irmãos na Irlanda que trabalhava na lavoura. Nós éramos muito católicos, assim como todos os irlandeses da época. No início dos anos 1960 eu ia fazer faculdade de agronomia, mas sempre tive na cabeça a ideia de ser padre. Eu já estava na faculdade quando resolvi arriscar e me inscrevi em um seminário quando eu tinha 17 anos – eu era muito novo, então um ano a menos ou um ano a mais sem faculdade não fazia diferença – e acabou que estou nessa aqui até hoje.

 

Rumando ao Novo Mundo contra o comunismo

 

            Quando eu decidi ser padre eu entrei na Sociedade Missionária de São Patrício, lá na Irlanda, que enviava os missionários para países na África como Nigéria, Quênia, Zimbabué, Malawi, etc. O Papa João XXIII pediu para várias congregações e sociedades da Igreja começarem a encaminhar os missionários também para a América Latina por causa da ameaça comunista, que naquela época era muito forte, então a nossa sociedade missionária começou a vir para o Brasil em 1963 e me enviou com mais três colegas anos depois, em 1969.

 

Próxima parada: São Paulo, Brasil

 

            Quando eu cheguei aqui o país estava em um cenário muito difícil, em plena Ditadura Militar, no governo Médici. Eu cheguei aqui pouco depois da prisão dos dominicanos e do assassinato do Carlos Marighella. Nós tivemos muita sorte porque pouco tempo depois foi nomeado Arcebispo de São Paulo o Dom Paulo Evaristo Arns, que tomou posse em 1970. Era um momento de grande imigração para São Paulo, que já tinha cerca de 5 milhões de habitantes, de gente vinda do Nordeste, de Minas, mais tarde do Paraná também, então era um tempo de muito crescimento aqui. Eu comecei morando primeiro em Embu das Artes, que na época ainda era um lugar bem pacato e de apenas 15 mil habitantes, mas nos anos 1970 foi o município que mais cresceu no Brasil.

 

O amigo Santo Dias da Silva

 

            Santo Dias da Silva morreu em 1979. Eu era muito próximo dele desde 1974. Eu o acompanhava na Pastoral Operária, onde ele fazia assessoria comigo. Eu frequentava a casa dele, conhecia a esposa e os filhos dele, nós éramos muito amigos. Ele veio do interior de São Paulo, de Santa Fé, onde pertencia à Congregação Mariana, então ele já tinha trabalhos na Igreja, era um homem de muita fé. Ele era Ministro da Eucaristia na comunidade de Santa Margarida, e nos domingos à tarde ele levava a eucaristia aos doentes. Ele não era só uma pessoa de luta, era alguém de espiritualidade forte também.

 

Uma comunidade de desalentados

 

            Quando eu cheguei no Jardim Ângela, em 1987, eram tempos muitos difíceis. Era época do governo Montoro, que era muito boa pessoa, mas foi marcado por muito desemprego. Estava tendo início a automatização nas empresas, que tomou o lugar da mão de obra barata que começou a ser dispensada. Por exemplo, naquela época existia a fábrica da Guido Caloi que em 1979, quando foi assassinado Santo Dias da Silva, tinha mais de 5000 operários; já em 1989, tinha cerca de 250. Esse cenário fez a mão de obra barata ficar sobrando, acabaram virando sucata.

 

As mulheres vão para a labuta. E os seus filhos? Vão para onde?

 

            Esse cenário fez com que as mulheres saíssem de casa para começar a trabalhar, já que os homens não arrumavam emprego. Foi aí que começou a onda de diaristas, já que não era comum antes disso. Os homens, junto com seu machismo, não queriam ficar cuidando dos filhos e isso gerava muitos conflitos, muitos problemas, então começamos por volta de 1988/1989 um trabalho voluntário para acolher essas crianças nos espaços da Igreja. A gente cobrava de quem podia uma taxa que era equivalente ao preço de um botijão de gás e os bairros foram muito solidários: a padaria doava o pão, o açougue doava alguma outra coisa, etc. Lembro bem que a primeira experiência disso foi no Alto do Riviera.

 

A criação da Sociedade dos Santos Mártires

 

            Nós começamos a reivindicar convênios para as creches, mas a Paróquia não é pessoa jurídica, então não podíamos fazer isso. Foi então que criamos a Sociedade dos Santos Mártires. Nós optamos por esse nome por conta dos mártires daquela época como Santos Dias da Silva, Óscar Romero, que foi canonizado no último dia 14 de outubro, enfim, pessoas que lutaram por causas em vida e foram vitimizadas. E foi assim que conseguimos convênios, por exemplo, com a Prefeitura de São Paulo.

            Um projeto acabou puxando o outro, sabe? Por exemplo: na creche, a criança ficava cerca de 3 horas lá. Mas e depois? Quem ficava com ela? Foi assim que acabamos criando os CCAs (Centro para Crianças e Adolescentes), e assim foi indo a coisa.

 

Violência no passado e esperança para o futuro

 

            A violência tomou conta da região nos anos 1990Nós fomos colocados como a região mais violenta do mundo – do mundo! – em 1996 pela ONU com 120 assassinatos por 100 mil habitantes. Pra se ter noção, no ano anterior, na Colômbia, o índice era de 80 por 100 mil habitantes. A gente analisando as causas disso víamos ausência de poder público, falta de oportunidades para os jovens e o começo do tráfico de drogas, formação de quadrilhas, etc. Isso levou a criarmos uma articulação na sociedade civil como o Fórum em Defesa da Vida, que atua até hoje e promove no próximo dia 02 de novembro a ‘23ª Caminhada pela Paz’. Naquela época não tinha o Cemitério Parque das Cerejeiras, então a grande maioria das vítimas estava sendo enterradas no Cemitério São Luiz, que chegou na época a ter cerca de 35 enterros por dia, sendo a maioria vítima de violência.

            Essa violência continua acontecendo, mas melhorou muito, dá pra gente sentir isso na rua. A gente de 120 [homicídios por 100 mil habitantes] foi para cerca de 20, 25. A média de São Paulo inteira é de 10,5 homicídios, o que mostra que o índice continua alto, mas com toda certeza muito melhor do que antes.

 

“É 13. Agora cada um de nós é um cabo eleitoral”

 

            Haddad tem experiência com o munícipio de São Paulo e fez muita coisa aqui na região. Ponte Baixa, Ponte do São Pedro, Ponte do Aracati, os convênios com a Prefeitura, a iluminação LED, fora muitas outras coisas. Agora: como posso ficar em cima do muro quando o outro faz apologia a tortura, faz apologia ao estupro, diz que “bandido bom é bandido morto”, fala que a polícia tem que atirar para matar, etc, quando tivemos toda uma luta aqui na região pelo policiamento comunitário que fez, inclusive, parte do Fórum em Defesa da Vida? Então acabo não tendo opção.

            A força do evangelho é o amor. Hoje ele tem discursos bonitos de campanha, mas sabemos o passado dele. Ele fez apologia ao torturador [Carlos Alberto Brilhante] Ustra no dia do impeachment da Dilma, então não dá para ficar em cima do muro. Para mim, hoje existem dois projetos: um de vida e um de morte. E a minha opção é o que está do lado da inclusão.

            Fernando Haddad, o PT… eles cometeram erros. Mas ao mesmo tempo, eles fizeram muito pelo povo. O PT, assim como qualquer instituição – inclusive a Igreja Católica – tem o bem e o mal. O próprio São Paulo dizia: “Estou dividido entre o bem e o mal. Eu faço o mal que não quero e deixo de fazer o bem que quero”. Perfeito e difícil.

 

Igreja para lá ou Igreja para cá?

 

            Como que a Igreja pode ficar em cima do muro entre duas opções tão claras? Como que colegas meus podem optar por Bolsonaro? Quando a gente está falando de uma Dona Maria que não tem estudo é uma coisa, mas um padre, que a gente espera uma liderança, deve se posicionar. Para mim, está muito claro: se fosse [um segundo turno] entre Haddad e Alckmin – que é o ‘Santo’, né? –, seria outra história. Mas agora, precisamos definir nossas posições.

 

Apoio de cá, repúdio de lá

 

            Aqui na região eu me considero respeitado, as acusações vêm mais de quem nem me conhece, de quem só me conhece pelas redes sociais, e nem conhece o meu trabalho na região junto a Paróquia. Essas pessoas nem sabem o que estão falando. O que significa chamar alguém de comunista? As pessoas nem sabem o que isso implica, não estudam.

 

Dai-me paciência, Senhor!

 

            Uma dessas pessoas que me chamam de “comunista disfarçado de padre” procurou um jornalista do ‘Estadão’ que estava aqui no dia na missa com o Haddad, que deu uma bronca nele, falando para ele ir estudar, ir fazer alguma outra coisa. Uma das coisas que o Papa Francisco diz muito é para sermos misericordiosos. Está faltando alguma coisa nos miolos. O que tem de gente faltando coisa nos miolos, que fazem acusações e não sabem o que estão falando, o mundo está cheio. Mas a gente tem que perdoar. Esse menino vem toda missa tocar violão, e eu o cumprimento normalmente dando “Bom Dia”, “Boa Tarde”, levo numa boa. Vou excomunga-lo? Expulsá-lo? Não. A Igreja tem que acolher a todos. Acho até bom que eles estejam por aí (risos).

 

Por uma Igreja além da pregação no altar

 

            Não gosto dessa linguagem de ser progressista, conservador, [adepto da] teologia da libertação… Eu me considero da teologia do evangelho, e acho que o Papa Francisco pensa a mesma coisa. Eu não estou desse ou daquele lado, eu sou de Jesus. A Igreja não é só louvando e cantando dentro do prédio: o discurso na montanha não foi na sinagoga, foi na montanha. Isso para mim é ser cristão.

 

5º Princípio da Cultura de Paz: Ouvir para compreender

 

            Recebi muito mal [a nota da Diocese de Campo Limpo]. Ainda fico muito mal diante dela por dois motivos: não se basearam nos verdadeiros acontecimentos e acusaram sem perguntar. Um dos princípios da Cultura da Paz que anunciei no dia da missa era “ouvir para compreender”. Pois bem: não me ouviram, mas me condenaram. Foi uma carta mentirosa ao dizer que a Santa Missa foi um ato político.

            Disseram também que sofri uma advertência, algo que não foi feito. A carta foi divulgada pelo mundo inteiro, sem terem me ouvido para compreender e sem terem apurado os verdadeiros fatos. Até hoje, uma semana depois, não me perguntarem nada, nem recebi nenhum telefonema para falar sobre o que aconteceu.

[A íntegra da nota divulgada pela Diocese de Campo Limpo pode ser acessada aqui. Ela não foi assinada pelo Bispo Diocesano, D. Luiz Antônio Guedes, mas pela assessora de imprensa e pelo assessor diocesano de comunicação.]

 

Quem leva essa?

 

            Eu ainda não perdi a esperança, eu acredito que a virada ainda vem. Saiu uma pesquisa recente da Vox Populi, na última sexta-feira, que dava 53% das intenções de voto para o Bolsonaro e 47% para o Haddad. Agora, pesquisas são pesquisas. Eleição é resolvida na hora do voto, na frente da urna. Mas vamos ficar torcendo para que Fernando Haddad leve.

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