Superministério já foi feito por Collor, afirma economista

Fusão ocorre quando “o presidente está morrendo de medo" e por falta de apoio

Por Gabriel de Souza Damião

 

Em uma entrevista coletiva dada para alunos de jornalismo da PUC São Paulo, o economista-chefe do Banco Fator e professor da USP José Francisco Gonçalves afirmou que a população “não tem memória” por se espantar com a proposta do candidato Jair Bolsonaro de criar um ministério econômico, fundindo diversas pastas. De acordo com o economista, um projeto similar foi implantado na década de 90 pelo presidente Fernando Collor de Mello, por não ter nomes de confiança no governo.

Em 1989, após mais de 20 anos de ditadura militar e quase há 30 sem eleições diretas, a população pôde votar no chefe do Executivo. Em vitória no segundo turno contra Lula, Fernando Collor, do recém-criado Partido da Reconstrução Nacional, foi eleito presidente com 53% dos votos.

Na promessa de um Ministério da Economia, Bolsonaro diz que seria sintetizado em apenas uma pasta os ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio. Já na gestão Collor, o gabinete de mesmo nome era mais forte que o Ministério da Fazenda, controlando seis secretarias: Receita Federal, Tesouro, Abastecimento, Orçamento, Indústria e Comércio e a de Patrimônio.

De acordo com Gonçalves, a escolha se dá mais por motivos de poder do que para aumentar a eficiência. “Geralmente isso é feito quando o governo não tem base política, que era o caso do Collor”. Ele afirma que o ato ou promessa de sintetizar as pastas, ou submetê-las a um superministro, ocorre quando o presidente não possui nomes de confiança ou apoio para encabeçar os demais ministérios, sendo uma questão de fragilidade política. “Acaba chegando perto de um primeiro ministro no parlamentarismo”.

Nos anos 90, a responsável pelo Ministério da Economia foi Zélia Cardoso de Mello, a primeira mulher a ocupar um alto cargo no governo. Sem experiência política, ex-assessora da Secretaria do Tesouro, onde conheceu Collor quando era governador de Alagoas, e amiga pessoal do presidente afastado, Zélia Mello foi a escolhida para combater a hiperinflação herdada da ditadura e lançou o mais brutal confisco da história do país. Já para Jair Bolsonaro, o nome que ocupará o cargo, caso eleito, será Paulo Guedes. O economista já atuou no mercado financeiro e na área da educação e possui Ph.D na Universidade de Chicago, mas assim como Zélia, não tem currículo político.

Ao analisar os partidos que candidataram Bolsonaro e Collor, respectivamente Partido Social Liberal e Partido da Reconstrução Nacional, é possível especular sobre a falta de coligações políticas dos dois. No caso do PRN, quando foi colocado na presidência, o partido tinha apenas cinco anos, uma estrutura governamental precária e desempenho eleitoral inexpressivo. Antes de se tornar a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados com a eleição deste ano, o PSL configurava o 7° menor partido em termos de representação na casa, com apenas oito deputados e nenhum senador.

Para além do plano abordado, podem-se observar outras similaridades entre as campanhas dos dois. Com o “furacão Collor”, uma força de suas publicidades e discursos o colocava como salvador da nação, alternativa contra a velha política e em oposição ao comunismo – impulsionado pelo contexto do fim da União Soviética. Outro ponto de confluência das retóricas era no ataque ao PT e oposição à imagem de Lula.

No entanto, é necessário salientar que, apesar das semelhanças entre Fernando Collor e Jair Bolsonaro, eles se diferenciam em muito desde suas personalidades, sendo Bolsonaro um personagem mais agressivo no debate político, até as campanhas, como o foco armamentista do candidato do PSL. Outro fator destoante entre ambos é em relação ao teor militar. Enquanto Collor foi o primeiro presidente eleito pelo povo após a ditadura, o atual líder das pesquisas para o Planalto é um capitão da reserva do exército que deixa clara a idolatria à instituição e ao período anterior a Collor, tendo diversas vezes defendido o nome do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado pelo MPF de tortura durante o regime militar.

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