Guerra de tarifas afeta Brasil

Tensão comercial entre EUA e China contribui para alta do dólar e impacta inflação

As relações entre Estados Unidos e China estão cada vez mais estremecidas por tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo. O Brasil acaba afetado devido às incertezas internacionais, que fazem o valor do dólar subir e, consequentemente, encarecem os produtos influenciados pela moeda americana.

O CONFLITO

Desde a campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos, Donald Trump defende a política “America First” (América Primeiro), que tem como objetivo fortalecer a economia americana. Com isso, há um combate aos produtos conhecidos como “made in China”.

FILE PHOTO: U.S. President Donald Trump welcomes Chinese President Xi Jinping at Mar-a-Lago state in Palm Beach, Florida, U.S., April 6, 2017. REUTERS/Carlos Barria/File Photo TPX IMAGES OF THE DAY

Nos últimos anos, os dois países têm se enfrentado e a tensão pode evoluir para a maior guerra comercial dos últimos tempos. Desde março deste ano, as duas potências mundiais têm aumentado progressivamente as tarifas de importação sobre uma e outra.

No meio de março, os Estados Unidos alegaram violação de propriedade intelectual e anunciaram tarifas de US$ 50 bilhões em mais de mil produtos chineses. Dez dias depois, a China impôs tarifa de 25% sobre 128 produtos norte-americanos.

BRASIL NO CONFLITO

Em encontro com alunos de jornalismo da PUC-SP, o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves, afirmou que a tensão comercial entre os dois países afeta o Brasil pelas incertezas internacionais, mas a parte estritamente comercial é pouco impactada.

Segundo Gonçalves, é difícil que a China pare de comprar os produtos que o Brasil exporta, justamente por serem produtos de base, como soja, carne, ferro e petróleo. Com os Estados Unidos acontece a mesma coisa, já que em grande medida o que sai são alimentos e matérias-primas.

“De um lado é muito ruim porque a gente só exporta coisa barata, de outro lado é muito bom porque é básico, base de tudo”, declarou o economista. Segundo ele, na questão exclusivamente comercial, o impacto é bastante modesto. Se as exportações, para os dois principais compradores do país, não são um problema, o aumento do dólar devido à alta procura afeta toda a economia e população brasileira.

“Se você tem medo dessa confusão entre a China e os Estados Unidos, o que você faz? Compra dólares”, disse Gonçalves. “O dólar fica mais desejado, isso nos atrapalha porque é o mundo querendo comprar dólar. Não é a gente com medo, é o mundo com medo, isso significa que o dólar se valoriza e a implicação é que tudo vai ficar mais caro, até o pão francês”, afirmou o economista.

Como o Brasil importa 50% do trigo que consome, o valor do pão aumenta, e isso, assim como a alta de outros itens, provoca a alta da inflação, o que Gonçalves considera desastroso. “Se a economia está andando de lado, ou seja, sempre muito perto de zero, e o Banco Central resolve subir o juro porque está aparecendo inflação é mais ou menos simples concluir que o Banco Central vai atrapalhar o pouco crescimento que tem na economia”, declarou o economista. “Se o país está crescendo menos de 1% e o Banco Central sobe o juro, o país vai crescer menos que 1%, ou seja, você tem uma implicação indireta que vem por aí”, disse.

Outra consequência para o Brasil é o aumento das tarifas médias aplicadas às exportações brasileiras que podem subir, de acordo com um estudo da Unctad. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comercio e Desenvolvimento (Unctad) as tarifas poderiam subir dos 5% atuais, para 32%.

TRUMP E BRASIL

No começo de outubro, Donald Trump criticou o Brasil ao falar do comércio global, e afirmou que o país trata as empresas norte-americanas injustamente. Trump disse que os outros presidentes não chegaram a negociar com o Brasil. “O Brasil é outro caso, é uma beleza. Eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas empresas, eles dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro”, declarou. “E nós não os chamamos e dizemos: ‘Vocês estão tratando nossas empresas injustamente, tratando nosso país injustamente’”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, em entrevista coletiva na Casa Branca, ao anunciar acordo comercial com México e Canadá.

De acordo com o jornal “Valor Econômico”, para o presidente do Conselho Nacional de Comércio Exterior dos Estados Unidos (NFTCN), Rufus Yerxa, é preciso encontrar maneiras de resolver as diferenças, em vez de intensifica-las, já que os países estão interligados.

 

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