A questão, amplamente debatida nas redes sociais, ganhou destaque na mídia após um show um tanto quanto polêmico do ex-vocalista da banda Pink Floyd, Rogers Waters. O cantor, que teve seu pai morto em combate durante a 2 Guerra Mundial por tropas nazistas, sempre se posicionou contra regimes autoritários. O álbum “Dark Side of the Moon” inicia a produção ativista banda, atingindo seu ponto máximo no hit “Another Brick in the Wall (parte 2).


Durante a noite do último dia 9, em São Paulo, dizeres em oposição ao candidato do PSL foram exibidos no telão, acusando-o de neofascismo. A hashtag #ELENÃO, amplamente divulgada por celebridades que se posicionam contra Bolsonaro, foi acompanhada de vaias por parte do público.


A expressão referente ao governo de Mussolini, presente com grande frequência nas discussões políticas, foi popularizada ao ponto de perder o seu significado. Hoje qualquer um que discorde de ideais da esquerda é chamado de fascista. Mas o que é o fascismo?


O termo tem origem na palavra italiana fascio, que significa feixe. Feixe era um machado revestido por varas de madeira da Roma Antiga utilizado por guarda-costas de detentores do poder, para punição corporal. O instrumento simbolizava a essência do fascismo: a autoridade e a união.


Nas palavras de George Orwell, a palavra é “quase inteiramente sem sentido”. Isso acontece porque o fascismo não possui um arcabouço teórico forte, como o marxismo, mas foi pautado nas ações de Mussolini. A sua definição, segundo o próprio Duce, é que a “doutrina é a ação”.


Embora o fascismo seja um tema de difícil definição, é possível ser identificado por meio de um conjunto de características e ações realizadas pelos seus defensores. Algumas das principais são: nacionalismo, totalitarismo, militarismo, imperialismo, desprezo pelos direitos humanos, controle da mídia e censura e anticomunismo.


Esse tipo de regime autoritário toma força em momentos de crise- seja ela política ou econômica. Arrastando-se desde sua unificação tardia até o fim da Primeira Guerra Mundial, a instabilidade italiana possibilitou que Mussolini emergisse como um salvador da pátria. A população, jogada às traças, encontrou no líder uma espécie de messias que tiraria o país do caos, restaurando a ordem. Ainda bem que isso nada tem a ver com o momento próspero que o Brasil está passando.


13 milhões de pessoas se encontram desempregadas, recorrendo à bicos –quando aparecem né?- para colocar comida na mesa. O caos político resultou num impeachment- ou um golpe constitucional. A maioria dos políticos da chamada velha política foram arremessados para fora do cenário durante as eleições de 2018. É nesse cenário que emerge a figura de Jair MESSIAS Bolsonaro.


Chamado de “O mito” pelos seus seguidores, palavra curiosamente presente nas falas de Mussolini, o candidato da extrema-direita é visto como uma força sobrenatural, capaz de consertar os problemas da nação e guiá-la no caminho do “bem comum”. Surge a figura imprescindível o líder, da qual o fascismo necessita.


Para seus defensores esse estrelismo deve-se somente a um aspecto populista. Mas é mais do que isto. Bolsonaro utiliza da violência como propaganda política. Sua imagem se constitui, nada mais nada menos, em posar com armas, sejam elas reais, mãos ou até mesmo tripés. Ressalvo que a violência é um instrumento primeiro dos regimes totalitários, sendo a principal arma de repressão contra minorias, sejam elas do século XX ou XXI.


“Mas ele não incita ódio contra as minorias”. Não?! “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” (Jair Bolsonaro em entrevista sobre homossexualidade na revista Playboy). “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados” (Bolsonaro para Preta Gil, sobre o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais). “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” (Afirmação de Jair Bolsonaro após caçoar de FHC sobre este segurar uma bandeira com as cores do arco-íris). Essas três frases integram a grande coletânea de barbaridades declaradas pelo (acredite) futuro presidente do Brasil.



Os regimes nazifascistas tinham como sua base o militarismo. Por coincidência, o “mito” foi ex-capitão do Exército Brasileiro – e conseguiu a proeza de ser expulso por atos de indisciplina e deslealdade. Já seu vice é um general em exercício da profissão. A vitória de Bolsonaro representa, literalmente com Mourão, a presença dos militares no poder.


Mas será que isto é tão catastrófico assim? Da última vez que um general assumiu o poder no Brasil, foi em 1 de abril de 1964. A partir desse dia, o país viveu
uma ditadura militar, recheada de mortes, torturas e desaparecimentos. Para o candidato extremista, no entanto, o regime não surtiu o efeito necessário, porque “ele torturou e não matou”. Pois é…


Outra característica importante do fascismo é a retórica anticomunista. Isso faria sentido se realmente houvesse uma ameaça comunista no Brasil. Construída em grande parte pela mídia, a figura do demônio vermelho é representada pelo PT- partido que ficou 16 anos no poder e o deixou no momento de maior recessão da história brasileira. No Brasil, o anticomunismo virou antipetismo. “A nossa bandeira jamais será vermelha”, ecoam aos gritos os bolsominions no Aeroporto de Uberaba.


“Mas o Bolsonaro não é liberal?”


Depende do seu ponto de vista. Por um lado, convidou um símbolo do liberalismo, o economista Paulo Guedes para ser seu ministro da Fazenda. Por outro, já deixou claro ser contra privatizações de certas estatais, como a Petrobrás e Eletrobrás. Se absteve, também, de votar a favor das leis da terceirização. O candidato, que saiu do Partido Social Cristão para filiar-se ao Partido Social Liberal, adota o discurso de livre-comércio com o único intuito de conquistar votos. Vale lembrar que a maior parte de seu eleitorado pertence à chamada classe média e alta.


Acontece que o liberalismo não é só econômico. A ideia de liberdade individual como direito fundamental está na base dessa doutrina. O fascismo tradicional, ao contrário, preconiza que cada homem e mulher subordine-se ao “bem comum”, com estreita margem para escolhas livres e pessoais, o que o torna essencialmente antidemocrático.

Apesar de defender abertamente a revogação do estatuto do desarmamento como política pública de segurança, não há registros de defesa da descriminalização das drogas, por exemplo. É abertamente contra a adoção de crianças por casais gays, pautas sólidas entre defensores da liberdade individual, o que nos faz estranhar a popularidade de Bolsonaro entre aqueles que se definem politicamente como liberais.

Eaí, o que você acha?

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