Exposição do Masp relembra histórias afro-atlânticas

Por Giovana Macedo

O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão com a Lei Áurea de 1888. Sem a existência de um plano de reintegração social, as desigualdades econômicas, políticas e raciais avançaram e até hoje permanecem na sociedade. Contudo as culturas africanas construíram seu espaço, se desenvolvendo e criando raízes no território brasileiro. É isso que a exposição “Histórias Afro-Atlânticas”, do Masp, quer mostrar para o seu público. Com uma seleção de 450 trabalhos de 214 artistas (século XVI ao XXI) em torno dos fluxos entre a África, as Américas, o Caribe e também a Europa, a mostra exibe as vivências, criações, cultos e filosofias dos africanos e africanas que desembarcaram no Brasil – 46% dos 11 milhões que chegaram no Atlântico vieram para o país.

Segundo folheto, disponível na exposição, o projeto foi criado a fim de incentivar novos debates e incitar questionamentos para que essas histórias afro-atlânticas fossem reconhecidas e reescritas, fornecendo ao público um conhecimento mais a fundo sobre a sua essência. A exibição em cartaz no Masp e no Instituto Tomie Ohtake. No primeiro, encontra-se os núcleos Mapas e Margens; Cotidianos; Ritos e Ritmos; Retratos (primeiro andar); Modernismos Afro-Atlânticos (primeiro subsolo) e Rotas e Transes: Áfricas, Jamaica e Bahia (no segundo subsolo). Já no segundo, há apenas dois núcleos: Emancipações e Resistências e Ativismos.

A seguir, serão destacadas e explicadas, de maneira simplista, as obras presentes no primeiro andar do museu, a fim de interpretar e compreender a exposição de maneira aprofundada.

“Éramos as cinzas e agora somos o fogo”, Maxwell Alexandre, 2018 (Imagem reproduzida com o celular)

Antes de adentrar a exposição, é possível ver a obra “Éramos cinzas e agora somos o fogo” de Maxwell Alexandre, da série “Pardo é papel”, 2018, ao lado esquerdo da porta. Em um vídeo postado na rede social Instagram do museu, o artista diz que o nome da obra é referência a um dos versos de um rapper do Rio de Janeiro, o Mano BK, e acrescenta que “uma das partes mais importantes do trabalho foi a chance que criei de fazer esse diálogo entre rap e pintura”. Ele explica, também, que a série “Pardo é papel” tem o intuito de “pintar corpos negros, situações de empoderamento negro, sobre o papel pardo, porque o pardo foi usado durante muito tempo como um desígnio para esconder a negritude” e complementou que finalmente a sociedade está vivendo um momento em que se discute a autoestima do negro, no qual ele está se assumindo como um.

“Um lugar para chamar de lar”, Hank Willis Thomas, 2009 (Imagem reproduzida com o celular)

Uma vez dentro da sala em que as obras estão expostas, a atenção é desviada para uma delas. Retratando o mapa das Américas, a obra de Hank Willis Thomas, batizada de A Place to Call Home [Um lugar para chamar de lar], 2009, substitui a América do Sul pelo continente Africano, criando um continente “Afro-Africano”. A explicação contida ao lado da obra faz menção a como a semelhança entre ambos os continentes os aproxima cultural e formalmente.

“Rio Baile Funk #22”, Vincent Rosenblatt, 2006 (Imagem reproduzida com o celular)

Nesta fotografia do francês Vincent Rosenblatt, conhecido por produzir manifestações culturais brasileiras, intitulada “Rio Baile Funk #22”, é possível evidenciar um momento masculino em que quatro homens negros sem camisa se abraçam num baile funk do Rio de Janeiro. O funk carioca é recriação dos anos 80 e foi responsável por levar a comunidade negra e periférica do Brasil a uma emancipação cultural e política.

Em seguida, encontra-se a produção de Carlos Vergara, sem título, mas faz parte da série “Carnaval”. O artista acompanhou o bloco de carnaval do Rio de Janeiro, “Cacique de Ramos”, no auge da ditadura militar, em 1972, e fotografou três homens que estavam seminus encarando as lentes da câmera com a palavra “poder” escrita em tinta branca no peitoral. Tal imagem representa o empoderamento negro e o “contraste com a realidade opressiva do período do regime militar”. Desse modo, o fotógrafo analisa os conteúdos políticos presentes no evento típico brasileiro, o que vai ao encontro com os seus tradicionalismos.

Sem título, da série Carnaval, Carlos Vergara, 1972 (Imagem reproduzida com o celular)

A pintura de Dalton Paula, intitulada “Zeferina”, foi feita este ano especialmente para compor o acervo de “Histórias afro-atlânticas” e trata-se da líder abolicionista e mulher negra de origem angolana trazida ao Brasil como escrava. Zeferina se rebelou contra o sistema escravocrata e criou o Quilombo do Urubu (século XIX) no subúrbio de Salvador. Planejou também uma insurreição para atacar Salvador, matar os brancos e conquistar a liberdade. No entanto a polícia da época desconstituiu tal revolução, sentenciando-a à morte. A explicação ao lado da pintura lembra que o artista decidiu pintar Zeferina como uma “forma de demonstrar o esquecimento e silenciamento de figuras negras importantes no processo da abolição da escravatura no Brasil”.

“Zeferina”, Dalton Paula, 2018 (Imagem reproduzida com o celular)

Fazendo alusões ao Egito e se apropriando de padronagens africanas, o artista Gary Simmons pinta a chamada “Nubian Queen” [Rainha nubiana], envolvida por um caráter urbano, visto que se trata de um banner de rua e relacionada com o movimento afrocêntrico de Nova York, década de 90. As figuras geométricas pintadas em vermelho, laranja, verde, azul, preto e branco são sobrepostas pela figura negra da rainha, fazendo referência às rainhas da Núbia, região fronteiriça do sul do Egito com o Sudão, que foram responsáveis por estarem a frente do poder em sua época.

“Nubian Queen”, Gary Simmons, 1993 (Imagem reproduzida pelo celular)

Para finalizar, um dos últimos retratos da exposição que faz uma crítica profunda em relação às discriminações raciais, frutos das diferenças socioeconômicas do Brasil, é a fotografia de Carlos Moraes intitulada “Ataque a helicóptero: reação, fuga e execução”. Na imagem, vê-se um militar num helicóptero com uma arma em mão, apontando para o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, durante uma operação policial em 2004. Essa violência, evidentemente acentuada com a intervenção militar iniciada este ano, solidifica os contrastes (étnicos e econômicos) entre as periferias e as elites no Rio. Como feito nas obras mencionadas anteriormente, a explicação ao lado da fotografia destaca o olhar para a “marginalização na formação das favelas no período pós-abolição”. Observa-se que a fotografia foi produzida há 14 anos, porém atualmente essa guerra entre comunidades e classes sociais (ou melhor, marginalizados e polícia) ainda permanece.

“Ataque a helicóptero: reação, fuga e execução”, Carlos Moraes, 2004 (Imagem reproduzida com o celular)

Foram selecionadas sete obras da exposição para serem enfatizadas e discutidas a partir do que foi proporcionado pela organização do museu. “Histórias afro-atlânticas” está à visita no Masp até o dia 21 de outubro e consegue chamar a atenção para um passado cultural rico em conhecimento e, em contraste, para uma situação emergente de discriminação social, política e econômica, para a qual não é possível prever um futuro.

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