Por João Martins

Há cerca de três anos, o dólar ultrapassou o patamar de R$ 4 pela primeira vez na história. Desde então, a cotação da moeda, a despeito de algumas oscilações, permanece nesta faixa.

Desde o acordo de Bretton-Woods, estabelecido em 1944, a moeda norte-americana foi estabelecida como moeda de reserva internacional, usada por diversos Estados e instituições em suas reservas cambiais. De tal forma, é inimaginável uma economia em que a estabilidade do dólar não exerça um papel decisivo.

Entretanto, são inúmeras as razões que levam a cotação do dólar a ser estabelecida. O que acontece na economia dos Estados Unidos tem um impacto direto na cotação do dólar em todo o mundo, porém, não é o fator determinante no valor da moeda. Fatores como especulação financeira e a taxa de juros, ao menos na realidade brasileira, possuem um papel muito mais fundamental.

Como exemplo, em janeiro de 2016, a decisão do Banco Central de manter a taxa de juros inalterada resultou com que a moeda norte-americana fechasse em R$ 4,16 no dia 21. A decisão do Copom desagradou o mercado financeiro, o que resultou no aumento da cotação do dólar. Já o fator especulativo é bastante notável, especialmente em tempos de incerteza política (e, por consequência, econômica) como anos de eleição — à medida que o desempenho de determinados candidatos é mapeado em pesquisas eleitorais, a moeda tende a cair ou subir.

O preço do dólar também tem forte impacto na balança comercial do país. Enquanto uma cotação alta pode favorecer as exportações, tornando-as mais valiosas em real e competitivas em dólar, ela também pode prejudicar um país altamente dependente de importações de produtos manufaturados, como o caso do Brasil.

O saldo da balança comercial é determinado pela diferença dos valores exportados e pelos valores importados por determinado país. Da mesma forma, os países utilizam-se da moeda norte americana como padrão nessas negociações. Dessa forma, um aumento significativo na cotação do dólar, como o que vem ocorrendo no momento, pode afetar bastante o saldo do comércio exterior feito por determinado país. No caso específico do Brasil, a balança comercial possui um saldo superavitário significativo, em torno de US$ 381 milhões. Esse valor elevado de reservas e manutenção é fundamental para que o país consiga dar confiança ao mercado de que tem capacidade de passar por crises como a atual.

De acordo com João César Lopes, economista graduado pela PUC-Rio “um aumento da cotação da moeda americana diminui o preço internacional dos produtos brasileiros exportados, melhorando a competitividade e favorecendo as exportações, trazendo mais reservas para o país”.

Adiante, o atual cenário internacional é marcado pela política econômica belicosa do presidente Donald Trump, que ainda em campanha prometia uma “guerra comercial” contra a China, a quem acusa de ser injusta aos americanos. A guinada protecionista dos EUA de fato possui um grande potencial para influir no bem-estar econômico de todo o mundo.

“O Brasil tem hoje a China como primeiro e os EUA como segundo maior parceiro comercial. Portanto, qualquer movimento protecionista que venha, por parte desses dois países, irá de fato afetar a economia do Brasil” afirma Lopes.

Entretanto, analisando os últimos embates entre EUA e China, ou ainda, entre EUA e a União Europeia, pode-se afirmar que o impacto na balança comercial brasileira não foi significativo. Contudo, esses embates trazem uma instabilidade política muito grande nas relações comerciais entre os países, trazendo volatilidade para o mercado de commodities e bolsa de valores

“A meu ver, a principal questão a ser analisada pelo Brasil (e por cada país) deve ser quais são as commodities que são afetadas por novas tarifas e como elas afetam a economia brasileira – no curto e no longo prazo”. Todavia, uma guerra comercial de longo prazo entre os EUA e outros blocos seria prejudicial não só ao Brasil como para todo o mundo, mesmo que o aumento de tarifas para um determinado produto importado pelos EUA de um determinado país, pode representar uma oportunidade de exportação desse mesmo produto para o Brasil. “De qualquer forma, não se trata de uma questão simples e nem mesmo simplesmente técnica e, por tanto, requer muita atenção” conclui o economista.

 

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