Por Paulo Santos

O futebol brasileiro, uma das maiores paixões nacionais, vem sofrendo nos últimos anos um ataque direto ao que representa o maior patrimônio dos clubes, a torcida. Tal ataque se dá com a exclusão das possibilidades das camadas mais pobres da população de torcerem. Tal ataque é refletido por uma elitização no ambiente onde se pratica o futebol. E sua consequência não podia ser outra além da gradual diminuição da festa dentro dos estádios. A proibição da festa não é algo exclusivo dos estádios no Brasil, ela é antiga e vem se desenvolvendo também na América latina  e nos outros continentes como a Ásia ou a Europa, só que ai em estágios bem mais avançados por diversos motivos que serão explicados durante o texto.

O problema é que a proibição é uma grande perda para as massas da sociedade brasileira, uma vez que, como bem descreveu Gilberto Freyre no prefácio de seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, o futebol ajudou a moldar a identidade de nosso povo; “O futebol teria numa sociedade como a brasileira, em grande parte formada de elementos primitivos em sua cultura, uma importância toda especial. E era natural que tomasse aqui o caráter particularmente brasileiro que tomou. O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura”.

Segundo a definição do dicionário Aurélio, muro significa “uma parede forte que circunda um recinto ou separa uma pessoa da outra; um lugar do outro”. A partir dessa definição pode-se dizer que existe um muro social dentro do futebol que reserva grande parte do estádio não necessariamente a quem tem maior apego pelo clube, mas sim para quem pode pagar os ingressos mais caros. E isso acontece por alguns motivos que serão listados durante o texto, mas já adianto aqui, sua consequência é a clara diminuição da festa nos estádios. Futebol é cultura, mas cada vez mais tem se tornado mercadoria.

O principal momento de segregação das diferentes camadas sociais dentro do futebol aconteceu quando se foi proposto as famosas arenas. Segundo depoimento do jornalista esportivo Mauro Cesar ao documentário “Adeus, Geral”, a construção das arenas aceleraram esse processo de segregação, por se tratarem de estádios extremamente caros, onde normalmente se espera um retorno financeiro. As arenas são algo recente no Brasil, por isso a elitização do futebol aqui é tardia em relação à Europa, que já não possui estádios tradicionais e antigos para realização da maioria de seus jogos, mas sim estádios modernos e caros. A partir do momento que se criam as arenas, o percentual de ingressos destinados às camadas populares diminui drasticamente, uma vez que os ingressos são muito caros e as organizadas ficam confinadas a uma pequena área do estádio, o que acaba resultando num silenciamento do público.

Em declaração do fundador da torcida organizada Independente Danilo Zambine para o mesmo documentário, ele estabelece a diferença entre estádio e arena, dizendo que estádio mesmo hoje é o Morumbi, o resto é Arena. Arena serve para show, rodeio, mas não para torcer. O torcedor gosta mesmo é de arquibancada, de pular e gritar o jogo todo. Tomemos como primeiro exemplo o time brasileiro Sport Clube Corinthians Paulista, que parou de mandar seus jogos no estádio do Pacaembu para assumir a Arena Corinthians como casa. O estádio do Pacaembu possui duas áreas destinadas às organizadas; Arquibancada setor amarelo, com capacidade para 5.186 pessoas e arquibancada setor verde com capacidade para 5.226 pessoas. O estádio também possui além desses setores uma terceira e quarta área com preços de ingresso popular, o Tobogã lado ímpar para 5.882 pessoas e o Tobogã lado par para 5.880 pessoas. Nestes setores descritos o preço médio do ingresso é de 20 reais a inteira, 10 a meia (Informações retiradas do próprio site do estádio). Já na Arena os números são diferentes, existem apenas duas áreas destinadas a preço popular, o lado sul e o lado norte, e em apenas uma delas é permitida a presença de torcedores organizados. Segundo informações oficiais do site “meu timão”, juntos os setores norte e sul da arena somam capacidade de aproximadamente 14.000 torcedores, já a partir dos números do estádio do Pacaembu temos 22.184 assentos destinados a ingressos populares, capacidade de mais de oito mil ingressos a preço justo de diferença em relação a arena.

O estádio do Pacaembu pertence a cidade de São Paulo e está sob comando e cuidado do prefeito da cidade, ele nunca pertenceu diretamente ao Corinthians, mas a preferência pelo Pacaembu é quase unânime entre os torcedores do clube. Trago como exemplo entrevista que realizei com funcionário da área de assessoria de imprensa e redes sociais do  Corinthians, que acima de trabalhar no clube, é torcedor fanático do mesmo. A entrevista foi realizada durante treino aberto realizado em Itaquera e é composta por apenas uma simples pergunta: Pacaembu ou Arena? A resposta foi forte. “Não há como comparar a Arena com o saudoso Pacaembu. Ao mesmo tempo em que podemos dizer pela primeira vez na história que temos uma casa para chamar de nossa, o que foi vivido no Pacaembu não tem como ser superado. Nas arquibancadas do estádio mais bonito de São Paulo, a Fiel torcida caiu junto com o time e se reergueu para conquistar o mundo anos depois. A forma como pulsava as arquibancadas da nossa Saudosa Maloca (apelido carinhoso para o estádio) jamais será alcançada pela implementação de cadeiras da Arena. Verdade seja dita, há quem lute para manter bravamente nossas raízes vivas no mármore frio de Itaquera, no entanto essa é uma luta que estamos perdendo. Para ser mais direto, a forma como a casa do povo foi construída não respeita nem mesmo as origens do clube, muito menos a nossa tradição de festa na bancada. O Pacaembu podia não ter todos os luxos oferecidos em nosso estádio, mas com certeza emocionava muito mais aqueles que lá assistiam os jogos do timão. Isso sem entrar no mérito do projeto de elitização dos estádios no Brasil”, lembrava o torcedor.

Outro exemplo que não pode ser deixado de fora é o fim da geral no Maracanã. A geral era uma área do estádio onde se via o jogo de pé, com muitas pessoas na frente e sem conforto. Ficava perto do fosso. Porém, nunca foi questionado pelos responsáveis pela reforma a opinião do torcedor no processo de mudança. A geral era a área onde o torcedor poderia levar toda sua família para assistir ao jogo. Hoje em dia, isso apenas é possível para a classe média e alta da população, devido aos elevados preços dos ingressos nas arenas. Não existe outro termo que não a elitização do futebol para explicar a reforma no “maraca” que proporcionou  o fim da geral, onde os ingressos eram comercializados a 10 reais. Hoje, o mais barato custa R$ 40. Em questionário que realizei com torcedores flamenguistas, com a simples pergunta “Maracanã, velho ou novo? A resposta de um amigo me chamou a atenção; “Era uma tradição do futebol, fazia parte da cultura, e principalmente o ingresso era mais barato. A reforma do Maracanã foi um golpe muito grande. Geral era a vida do Maracanã, bom mesmo era o antigo”. Resposta dada por integrante da torcida jovem do Flamengo, Rafael Furlani.

Outra característica que impede os torcedores de fazer a festa nas arenas é a substituição da arquibancada por cadeiras. No último clássico entre Corinthians e Palmeiras realizado na Arena Corinthians, segundo reportagem da Gazeta, foram contabilizadas 258 cadeiras quebradas. Logo após inauguração da mesma Arena em questão, as torcidas organizadas do Corinthians solicitaram a retirada das cadeiras do setor a que lhes foi confinado. O pedido foi acatado pela diretoria. Isso prova que as cadeiras não são um requerimento do torcedor, e a nada servem para realização da festa.

Segundo declaração do presidente da assembleia legislativa de São Paulo, deputado federal e promotor de justiça do Ministério público Fernando Capez, dada ao sportv em 27 de fevereiro de 2013, “Qualquer jogo que houver na arquibancada qualquer tipo de uso de fogos de artifício, sinalizadores, o juiz deve parar imediatamente a partida e pedir reforço da polícia, chamando a responsabilidade que era dos dirigentes para acabar com a violência nos estádios”. Ao dizer isso, o promotor está dizendo que o motivo da violência, é a festa.

O que há de pior no futebol não é a festa. O pior do futebol são os valores abusivos dos ingressos, a mercantilização da paixão, a elitização e embranquecimento da arquibancada, e não as bandeiras, instrumentos, cânticos e muito menos a pirotecnia. A festa não deve ser proibida porque torcedor não é marginal. A paixão pelo clube não se mede pelo preço que o torcedor pode pagar nos ingressos. Normalmente, quem julga os torcedores como bandido, como o presidente da assembleia legislativa de São Paulo, pouco conhece sobre o ambiente de um estádio de futebol. O discurso da proibição da festa na bancada serve apenas para homens corruptos se promoverem politicamente disseminando desinformação em forma de medidas políticas, como a proibição de bandeiras, baterias e fogos de artifício dentro do estádio, como solução para violência. Tudo isso são medidas que ocultam o descaso do ministério público em relação ao assunto, afinal, como disse Juca Kfouri em sua reportagem “Algo de podre no combate a violência”; “a solução para quem não sabe resolver os problemas é proibir, proibir e proibir”.

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