Por Natanael Oliveira

 

Os amantes do futebol sabem que a Libertadores da América é a principal competição sul-americana entre clubes, e toda a sociedade global sabe o quanto o racismo é algo desprezível. O que fazer quando esse preconceito é tratado com extrema naturalidade e nenhum tipo de punição em uma das áreas mais intolerantes entre todos os esportes?

Santos x Independiente foi um dos principais jogos das oitavas de final da Libertadores, tanto pela qualidade e tradição de ambas quanto pelas polêmicas que surgiram fora de campo, sendo a mais famosa delas a escalação irregular do jogador uruguaio Carlos Sanchez, atleta do time santista. O que passou despercebido em toda essa confusão e clima de inimizades entre as duas equipes foi o comunicado minimamente “estranho” do clube argentino para os seus próprios torcedores, que iriam vir para o Brasil ver a segunda partida decisiva entre os clubes. Publicado em seu site oficial, o Independiente listou uma série de regras e instruções para os seus adeptos, com o propósito de fugir de uma possível punição da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), e alguns artigos desse “manual” a ser seguido causaram polêmica pela naturalidade da situação, como: “Es un delito racial hacer gestos de mono o decir “macaco” a simpatizantes locales.” (É um crime racial fazer gestos que lembram um “macaco” para torcedores locais); “Es un delito en Brasil asimilar una persona a un animal.” (É um crime no Brasil assimilar uma pessoa a algum animal); Hay camaras en el estadio que registran tales ofensas raciales por lo cual es facil probar el delito. (Haverá câmeras no estádio que registrarão tais ofensas raciais, por onde será fácil provar o crime).

Inegavelmente, o mais interessante do comunicado do Independiente para a sua torcida foi a sua naturalidade, não sendo tratado como um crime retrógrado e incabível em um mundo onde o racismo é completamente abominado, mas sim como apenas um contratempo que poderia causar malefícios para o clube argentino e seus adeptos. O comunicado nos dá a impressão que é aceitável o racismo no território dos nossos hermanos, mas que por algum motivo só não é tolerado em terras brasileiras. Outro trecho do mesmo comunicado endossa ainda mais a interpretação de que o racismo é tratado com extrema naturalidade entre clubes e torcedores argentinos: “Se ruega encarecidamente evitar todo gesto o palabra de contenido racial por dos motivos:” (Evite todo gesto ou palavra de conteúdo racial pelos seguintes motivos: El club puede ser penalizado economicamente. (O clube pode ser penalizado economicamente) e La persona que comete tal delito racial puede verse expuesto a consecuencias muy serias como tener antecedentes policiales/judiciales durante toda su vida y podria verse impedido de salir de Brasil hasta que termine la instancia pertinente del juicio (perdiendo su vuelo y vuelta a su trabajo y familia), ademas de tener que enfrentar grandes costos por posible multa y gastos por asesoramiento judicial como eventual impedimento de ingreso a Brasil en el futuro. (A pessoa que comete tal delito pode ser exposto e terá consequências sérias, como ter antecedentes criminais durante toda a sua vida e poderá ser impedido de sair do Brasil até que termine a instância do judiciário, além de ter que enfrentar grandes custos por multas e gastos em assessoria judicial, sendo impedido de voltar ao Brasil no futuro).

O racismo passa longe de não ser um problema no mundo futebolístico, já que ocorrem casos todos os meses. Jogadores famosos como os brasileiros Neymar Jr. e Daniel Alves já sofreram desse mal. Inclusive, o episódio com o lateral-direito brasileiro rodou o mundo por conta de sua atitude inesperada, em que ele resolve comer uma banana jogada pelos torcedores adversários em uma partida pelo seu ex-clube, o Barcelona.

A Argentina sofre com o racismo em todas as suas formas, e a atitude do Independiente só ilustra o quanto uma parcela da população argentina não se preocupa em combater e erradicar esse mal que apesar de todas as lutas a favor de igualdades, ainda está muito longe de terminar. Os brasileiros sofrem com injúrias raciais em todos os jogos que são disputados contra nossos hermanos, e o principal passo para que isso se reduza é uma postura mais contundente e forte dos clubes argentinos populares, como Boca Juniors, River Plate e San Lorenzo para com os seus torcedores.

O futebol é indiscutivelmente uma manifestação cultural, e sendo assim, qualquer ato dentro e fora das quatro linhas do universo futebolístico se torna um espelho da sociedade local. O racismo que é praticado frequentemente em estádios italianos e argentinos demonstram o quanto essas culturas têm enraizado em suas mentes esse aspecto tão desprezível. A FIFA, UEFA e a Nike fazem campanhas fortíssimas dentro dos campos futebolísticos para enfrentar de frente e criminalizar os que utilizam o racismo. A campanha No To Racism cresce absurdamente no universo do esporte mais popular do mundo, e com embaixadores em volta de todo o globo com a simples mensagem que deveria ser uma obrigação humana não fazê-la: dizer não para o racismo. Campanhas globais como essa realmente contribuíram para a redução dessa prática, pois não há um número tão grande de relatos em locais que geralmente acontecem esses crimes, como a Argentina, Itália e França, mesmo que ainda não tenha sido erradicada. Movimentos como esse é um “oásis” de humanidade, e deveria ser replicado e reproduzido nos mais diversos segmentos esportivos, desde o basquete até o beisebol.

Ainda há um longo caminho para que o racismo seja vencido de vez pelo lado humano dos amantes do futebol, que mesmo sendo fãs do jogo ainda ignoram a história de inclusão do esporte mais popular do mundo, onde dezenas de clubes brasileiros (por exemplo) abriram as suas portas para que negros discriminados pela sociedade brasileira. Uma das músicas mais cantadas e famosas pela torcida do Vasco se chama “camisas negras”, que exalta a luta de classes e etnias pela igualdade social, fazendo ainda um paralelo da guerra contra o fascismo e exaltando o clube cruz-maltino por ter sido um dos primeiros times profissionais de futebol para os negros. O Internacional de Porto Alegre também ficou conhecido por seu ativismo e pela abertura do clube a jogadores negros, e por isso, seu nome é “Internacional”. Um clube aberto a todas as nacionalidades, para todas as classes sociais, e todas as etnias. O futebol é uma ferramenta maravilhosa para a luta contra a intolerância, mas mesmo assim há muito para ser feito, principalmente em relação ao racismo, homofobia no meio futebolístico e igualdade entre gêneros. O racismo não combina com o futebol, o racismo não combina com a humanidade. O racismo não é natural, é desumano.

 

Leave a Reply