Por Júlia Valente

É fato que as telenovelas no Brasil têm pouca representatividade negra. Segundo o estudo “Globo a gente se vê por aqui? – Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas”, realizado pelo professor de ciências políticas da UERJ e da UNIRIO João Feres Júnior, de 1985 até 2014 o percentual médio de atores negros em cada novela foi de apenas 8,8%. Este mesmo estudo aponta um crescimento de 6% entre os anos de 1985 e 1990 para 12% entre 2009 e 2014. Ainda assim, a projeção deste aumento se apresenta lenta, quase imperceptível aos olhos do telespectador.

Ainda são poucos os atores negros e pardos que protagonizam as tramas. Thais Araújo, Lázaro Ramos e Camila Pitanga são casos de exceção. Enquanto isso, excelentes artistas como Cris Vianna, Marcello Melo Jr., Juliana Alves, Aílton Graça, entre outros, há anos têm de se contentar com papéis menores, secundários ou terciários, o chamado “elenco de apoio”. Recentemente a novela “Segundo Sol”, ainda no ar no horário nobre da TV Globo, reacendeu a discussão. O que a maioria questiona é o porquê de uma história ambientada em Salvador, na Bahia, possuir um elenco majoritariamente branco, característica que predomina inclusive nos protagonistas da trama. A questão se evidencia ao considerar que, em estudo do IBGE de 2013, a Bahia ocupa o segundo lugar no ranking nacional de população negra, com 76,3% autodeclarados pretos e pardos.

Ao mesmo tempo em que a justificativa procede, não deveria ser esse o argumento da discussão. O Brasil por si só tem 54,9% da população que se declara negra e parda. O Brasil é o país que mais tarde aboliu a escravidão nas Américas. A desigualdade social é abismal e chega a ser confundida com desigualdade racial. Pensando nessa lógica, as telenovelas são apenas um espelho do que é a sociedade brasileira atual. De que adianta medicar o sintoma se a origem não é tratada?

Devemos incentivar a representatividade negra no produto de entretenimento de maior visibilidade no Brasil? É claro que sim, mas só isso não resolve a situação. Não podemos nos esquivar dos reais motivos desse terrível cenário: o racismo e a desigualdade social. É verdade que “Segundo Sol” está sendo pouco fidedigna à realidade soteropolitana, mas é mais impressionante ainda que acreditemos ser esse o maior dos problemas. De acordo com uma pesquisa do IBGE de 2014, 70,8% dos cidadãos brasileiros que vivem em situação de extrema pobreza são negros ou pardos, nada menos do que 11,4 milhões de pessoas. Isso não se trata de uma minoria, como geralmente é tratada. É questão de uma maioria deixada de lado, esquecida, desprovida de educação de qualidade, privada de oportunidades e alheia aos direitos fundamentais do cidadão, supostamente resguardados pela Constituição. Dessa forma, evidencia-se a baixa presença desse grupo étnico-social do mercado de trabalho da dramaturgia, principalmente no entretenimento televisivo. É daí que “Segundo Sol” tirou todo este elenco branco: do menosprezo brasileiro com a maior parte da nossa população.

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