Um abrigo para gatos de rua

Cuidadora encontrou lar para mais de cem animais abandonados em seu bairro

Por Júlia Forbes

Os gatos, muitas vezes, são vistos como animais insensíveis e frios, perdendo em popularidade para os cachorros, exaltados por sua fidelidade e carinho. Os números não nos deixam mentir: segundo o IBGE, a quantidade de cachorros em domicílios brasileiros (52,2 milhões) supera em mais de duas vezes a de gatos (22,2 milhões). Isso talvez explique outro dado, levantado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo: existem 2 milhões de cães abandonados habitando as ruas da capital paulista, contra apenas 580 mil gatos.

Entre os amantes dos bichanos, contudo, a independência dos animais é geralmente sua qualidade mais apreciada. Para Claudia Guimarães Oliveira, 49, contabilista e cuidadora de gatos, essa característica foi essencial para sua escolha de acolher em sua casa dezenas de felinos sem lar: “O gato não é carente como o cachorro, que fica pulando na perna, tem que passear… Não dá esse trabalho. Precisa do canto dele, de uma caixinha de areia, dar comida e dar água. Muita gente fala que gato não se relaciona, mas se relaciona sim e é carinhoso”.

Claudia cresceu entre gatos. Ganhou seu primeiro gatinho quando criança, de sua vizinha, a veterinária e atual diretora da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, Mitika Hagiwara. Desde então, nunca deixou de ter ao menos um companheiro peludo. Foi essa paixão pelos animais que levou ela e sua amiga Flávia a embarcarem na empreitada de cuidar dos gatos de rua da região em que moram, no Alto de Pinheiros.

O terreno em frente à casa de Claudia e sua família, pertencente à Eletropaulo, começou a abrigar uma população crescente de gatos ao longo dos anos. Provavelmente atraídos pela vegetação, animais perdidos ou abandonados passaram a se reproduzir em uma velocidade alarmante. O paisagista responsável pelo local não se incomodou: a presença dos felinos garantia a contenção de pragas como ratos e baratas, sem grandes prejuízos à flora do local. Os vizinhos, contudo, eventualmente começaram a se incomodar.

“Estavam começando a ficar doentes, começou a aparecer gato atropelado, a ter muita briga à noite”, conta a cuidadora, que temia ações mais radicais por parte da vizinhança. Diante disso, há cinco anos ela resolveu assumir em conjunto com uma amiga essa responsabilidade, “para os vizinhos não ficarem bravos e começarem a pôr veneno no terreno”.

Foto por Claudia Guimarães Oliveira

O primeiro passo foi buscar uma parceria com uma grande produtora de ração, o que garantiu que a dupla conseguisse comprar alimento para os animais desabrigados por metade do preço. Em seguida, passaram a castrar os adultos, medida essencial para conter o crescimento populacional da espécie. A facilidade desses animais em se reproduzir é um dos motivos para os gatos de rua serem tão numerosos.

Os filhotes encontrados foram doados. Não via ONGs, Claudia faz questão de esclarecer, mas para pessoas com as quais podia se assegurar de que os bichanos seriam castrados e bem tratados. Ao longo desses cinco anos, ela encontrou um lar para mais de cem gatinhos achados no terreno. A cuidadora mantém contato com seus donos através de um grupo no aplicativo WhatsApp, onde recebe notícias constantemente sobre o desenvolvimento dos felinos.

Os animais que não são adotados, por já serem adultos e terem maior dificuldade de adaptação, encontram um lar na casa da própria Claudia. “Muitos ficaram aqui na minha casa, que tem um espaço grande”, afirma. “Outros entram para dormir só, gostam de ficar ou no jardim ou nas praças. Alguns ficam apenas no terreno mesmo”. Atualmente, são 55 gatos que moram oficialmente com a cuidadora e suas filhas, todos com nomes e personalidades muito bem conhecidos por suas donas.

Cuidar de toda essa bicharada é um pouco trabalhoso. Claudia afirma que gatos são animais frescos: só utilizam a caixa de areia se estiver limpa, por exemplo, além de preferirem beber água corrente. Todas as manhãs, portanto, há um mutirão de limpeza. A torneira do tanque passa algum tempo aberta, formando uma verdadeira fila para o bebedouro no quintal da casa. Uma vez por ano, precisam ir ao médico e receber vacina, cuidado que deve ficar mais fácil daqui para frente. Claudia descobriu recentemente que a Unidade de Vigilância em Saúde (UVIS) da prefeitura aplica vacinas gratuitas como forma de prevenção de doenças epidêmicas ese planeja para entrar em contato com a veterinária da unidade mais próxima.

Não há dúvidas, contudo, de que os órgãos responsáveis pela contenção do crescimento da população dos gatos de rua não dão conta da demanda da cidade. Exemplo disso são iniciativas semelhantes que vêm surgindo em outros pontos da região, como nos arredores da Estação Cidade Universitária da CPTM. Conhecendo a experiência de Claudia, uma moradora do local veio procurá-la para pedir dicas e replicar a prática.

Essa semana o trabalho de cinco anos parece estar chegando ao fim. Claudia e Flávia recolheram a última gata ainda não castrada que habita o terreno da Eletropaulo, encontrada já prenha: “Ela está no meu quarto”, conta, “teve uma última cria de três filhotes que vão pra doação”.

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