CIÊNCIA LUTA CONTRA CORTE ORÇAMENTÁRIO NO BRASIL

Pesquisadores se unem para denunciar abandono no setor científico

por Adrieny Sampaio

No Brasil, o ano de 2017 foi bastante conturbado na política e na economia. O presidente Michel Temer tinha como objetivo, em sua gestão, organizar o cenário de crise do país, ajustar os gastos e controlar o déficit para poder atingir a meta fiscal e, com isso, conseguir fechar o ano de modo estável, mas nada disso ocorreu de fato.

Para correr atrás do prejuízo, cortou gastos nesse setor fundamental para o desenvolvimento do país. Em dezembro de 2017, a ciência foi refém de diversos cortes de verbas.

Há alguns anos, ela vem sendo deixada de lado, na escassez, sendo cada vez mais sugada e sem direito a quase nada. Ao invés de reajustar seu valor, a ciência no Brasil sofre com o retrocesso. Sem contar com os formandos sem oportunidade que migram para o exterior como forma de crescer nas pesquisas científicas.

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) sofreu um corte de 44% no orçamento de 2017. As verbas foram reduzidas drasticamente. Enquanto os recursos previstos eram de  R$ 5 bilhões, apenas R$ 2,8 bilhões foram destinados à área.

Caso o corte esteja vigente na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para o ano de 2019, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) – que concede bolsas de estudo para estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado – será diretamente prejudicada e pode ficar sem recursos para manter os bolsistas. A única solução, nesse caso, seria a suspensão de bolsas para estudantes e cientistas.

Além da imensa redução de verbas que a ciência vem sofrendo, o congelamento ou a falta de recursos do governo provoca a destruição do setor científico, acaba com os estudos em andamento e inviabiliza futuras descobertos. O país voltaria no tempo e seria totalmente ignorante na área de ciência.

Sem o auxílio do governo federal e com a possibilidade de corte nas bolsas, haverá paralisação em diversas pesquisas científicas nas universidades federais do país. Milhares de estudantes serão prejudicados.

Diante deste cenário, a Capes enviou um ofício, no início do mês de agosto, para o Ministério da Educação, alertando sobre as drásticas consequências. Recorre ao ministro na tentativa de mostrar o possível futuro da ciência caso ocorra cortes de verbas.

carta enviada ao Ministério da Educação

 “Um corte orçamentário de tamanha magnitude certamente será uma grande perda para as relações diplomáticas brasileiras no campo da educação superior e poderá prejudicar a imagem do Brasil no exterior”, diz a Capes na carta enviada ao ministro, como forma de evitar tal atrocidade.

O corte afetaria 200 mil pesquisadores e bolsistas. Programas de bolsas de iniciação científica e o pagamento de bolsistas seriam suspensos a partir de agosto de 2019. Um grande retrocesso e perda de anos de pesquisas por falta de auxílio governamental.

Após divulgação da carta ao MEC, estudantes, professores e militantes mobilizaram-se nas redes sociais e houve protestos nas ruas na luta contra o corte de verbas. No Twitter e Facebook, mestrandos e doutorandos também se manifestaram, usando a hashtag #minhapesquisacapes e #existepesquisanobr como protesto. Algumas delas:

 

Além disso, foi criado um abaixo-assinado, no site change.org, nomeado de “Marcha da Ciência”, para pressionar o governo e impedir o corte de bolsas da Capes.

https://www.change.org/p/manifesto-pela-ci%C3%AAncia

 

Na segunda edição do Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, no dia 6 de agosto, o ministro da Educação, Rossieli Soares, garantiu que não haverá cortes nas bolsas da Capes. Ele disse que o fomento à pesquisa promovido hoje pela entidade é fundamental para a educação do país. Entre reuniões, os ministros estudaram outras possibilidades para conter os custos e mostrar ao presidente da república.

O ministro afirmou que o posicionamento não foi tomado por conta da carta enviada, mas, de qualquer forma, a repercussão negativa foi importante para mostrar que os pesquisadores existem e lutam para conquistar seu espaço num país em que a ciência não é reconhecida.

A seguir, entrevista com Bruna Coelho, estudante do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e estagiária do Laboratório de Fisiologia Vegetal IB USP

arquivo pessoal

Para você, qual setor poderia ter sido escolhido para sofrer cortes, ou quais medidas deveriam ter sido tomadas para alcançar tais metas e evitar que a ciência sofresse com isso?

 

Salários de senadores, deputados e outros indivíduos vinculados à lei.

A ciência brasileira, após o governo declarar que haveria congelamento orçamentário, ficou em estado de alarme. Ninguém sabia ao certo seu futuro e qual decisão seria tomada em relação ao possível corte de bolsas da Capes. Diante deste cenário, quais seriam os principais prejuízos para a ciência?

A falta de fomento público limita a quantidade de pesquisas de base como iniciação científica, dessa forma limitando a criação de temas para pesquisas de mestrado e doutorado e ainda diminuindo o interesse dos alunos em fazer pesquisa, uma vez que trabalhar de graça por muito tempo é desgastante. Além desses problemas, esse corte dará espaço para fomentos privados, que provavelmente direcionarão a pesquisa no sentido de produção de capital principalmente, o que também limita os temas de pesquisa. Ainda, o corte de bolsas vai tirar a oportunidade de vários alunos que têm reprovações no currículo de terem a experiência de fazer ciência, uma vez que a Capes tem como critério de seleção a média ponderada das disciplinas que você fez menos um ponto por cada matéria reprovada.

Qual a importância das pesquisas científicas dentro da sociedade? Por que a ciência é tão desvalorizada no Brasil?  

“As pesquisas colocam em xeque os conceitos estudados em aula, podendo consolidá-los ou refutá-los. Ou seja, fazem a ciência se manter questionadora. Além disso, fazem com que nós possamos conhecer novas informações, introduzir novos conceitos e influenciar na criação de novas tecnologias ou em novas pesquisas. Acredito que a ciência é desvalorizada no país por ser uma realidade muito distante da população, quem tem acesso é só uma parcela e quem vê de longe não consegue entender por não ter tido alfabetização científica. Além disso, o debate é algo desvalorizado na nossa sociedade, e a ciência é feita disso, o que pode assustar”.

O que você espera da ciência para os próximos anos e como pretende, de alguma forma, ajudá-la?

Eu vejo que cada vez vai ser mais difícil produzir ciência sem alguma influência de empresas, o que vai direcionar as pesquisas para o âmbito econômico. Não sei o que fazer além de ir a atos e fazer greve.

arquivo pessoal

Tarciso Janning, de 56 anos, mora em Joinville e possui uma fazenda. Ao entrar em sua rede social, já é possível identificar na foto de seu perfil um protesto contra o desprezo à ciência. A ciência influencia diretamente na agricultura, em seu gado e na forma de cultivo.

 

Qual a importância das pesquisas científicas dentro da sociedade?
Uma nação só se desenvolve quando investe em pesquisa na área de ciências e tecnologia. Pesquisas são a base para o crescimento para dar sustentação e poder acompanhar a evolução humana e econômica dos povos.

 

 

 

 

 

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