Bandido bom é bandido morto… mas só se for negro e da periferia

Por Isabella Candido

O medo e a insegurança são reflexos de uma sociedade tomada pela violência e criminalidade. Está enraizada nesse cenário a máxima que se propaga como discurso de que “bandido bom é bandido morto”, mas antes de fazer essa afirmação e usar aqueles famosos jargões “direitos humanos para humanos direitos” e “está com pena leva para casa”, é preciso entender que a questão da violência e da criminalidade é uma questão social que está relacionada ao racismo e a pobreza.

A criminalidade não é resultado apenas das falhas no sistema carcerário ou na segurança pública, ela resulta de desigualdades sociais em um processo histórico marcado pela exploração e dominação da população negra. Dados levantados pelo Infopen, Sistema Integrado de Informações Penitenciárias, apontam que a população carcerária no Brasil, que já é a terceira maior do mundo, é composta 64% por negros.  São geralmente homens, jovens, periféricos e de baixa escolaridade que se encontram em situação de vulnerabilidade e exclusão social, tendo pouco acesso a serviços sociais públicos como educação e saúde.

O encarceramento no Brasil não se destina a todo e qualquer bandido, ele está muito mais relacionado a etnia e classe social. As ações públicas se aplicam de formas diferentes a diferentes grupos étnicos, tendo como alvo o jovem negro, visto sempre como mais propício a violência e criminalidade. É o racismo institucionalizado que vai da abordagem policial, muito mais violenta em regiões periféricas com jovens negros, à justiça criminal, onde negros são muito mais propícios a penas de restrição de liberdade.

Os negros não são somente maioria entre presidiários, mas também a maioria entre as vítimas de homicídio. Segundo uma pesquisa do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Públicaentre 2015 e 2016, a polícia matou três vezes mais negros do que brancos. Para ser mais exata, foram 963 mortes de brancos contra 3.240 mortes de negros.  Essa violência policial, ainda que por trás das leis, se traduz na marginalização do povo negro. Não se trata de matar bandidos, ainda que boa parte da população defenda isso, se trata de matar quem eles pensam que são bandidos.

Essa violência racial cometida pela polícia vem ocorrendo como uma face da política de guerra às drogas, sendo esta sempre utilizada como justificativa para a morte e prisão de negros e pobres.   Vítimas da omissão e abandono do Estado  e criminalizados ao público, esses jovens assassinados são sempre culpabilizados. Quando se defende essa ideia de que bandido bom é bandido morto, é preciso ter consciência de que esse modelo de punição e violência atinge seletivamente jovens, negros, periféricos.  Não é justiça, é a simples criminalização da pobreza e o consequente genocídio da juventude negra.

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