Festa não é violência e torcida única não é solução

Por Giordana Velluto

Que o futebol envolve uma relação de amor e ódio entre os torcedores isso não é nenhuma novidade.É uma característica natural e talvez o que torne a paixão por esse esporte algo tão único e de tão forte representatividade num país como o Brasil. O lado negativo disso tudo é que o fanatismo pode promover a violência e por consequência, brigas entre as torcidas.

A CBF juntamente com a FPF, adotaram então como medida a torcida única nos clássicos paulistas para que fosse evitado esse tipo de situação, mas isso não é uma solução cabível ou mesmo efetiva. Acabar com a festa nas arquibancadas não resolve absolutamente nada a partir do momento que a questão é justamente lidar com o sentimento de um torcedor loucamente apaixonado pelo seu clube do coração, logo, a rivalidade, ser tomado pelo impulso e pela emoção, o que inclui até mesmo xingamentos, são aceitáveis.

Com essa infeliz decisão, o número de restrições para realizar essa grande festa nos estádios aumentou, as bandeiras, os papéis picados, a fumaça e os picas foram totalmente proibidos, enfraquecendo as arquibancadas, esfriando a torcida, tornando o ambiente cada vez mais triste, dissipando o espirito e a essência do esporte, derrotando o futebol e toda sua manifestação popular e cultural.

Há uma tremenda falta de segurança nos jogos, a polícia não realiza com eficácia esse serviço e não consegue dar conta de ao mesmo tempo que faz a proteção do estádio, proteger todo seu entorno também, onde acontece a maior parte das brigas, sendo algumas delas até “agendadas” pré-jogo. Além disso, os grupos organizados não necessariamente brigam entre si, já foram registrados confrontos entre os grupos e a própria polícia, sendo assim a implementação da torcida única uma solução falha. Até mesmo porque nada impede que a torcida se desentenda com si mesma e acarrete em consequências negativas.

Essa criminalização das torcidas organizadas e das festas nas arquibancadas é uma postura muito radical sobre o assunto, não é coerente, mas as razões lucrativas, mais uma vez, ganham destaque e passam por cima de qualquer cultura. A torcida que é “proibida” de comparecer naquele determinado clássico assiste o jogo pela televisão. Em contrapartida, esses torcedores não necessariamente, estão em suas casas, podem se espalhar pela cidade, pelas ruas propriamente ditas, pelos bares e arredores, o que dificulta ainda mais o trabalho da polícia em evitar que ocorram brigas.

No Brasileiro de 2016, por exemplo, corintianos enfrentaram a Polícia Militar no Maracanã antes da partida contra o Flamengo, uma espécia de rivalidade alimentada pelo efeito quase que inexpressível da própria polícia. Enquanto que, em 25 de março de 2012, torcedores se confrontaram na Avenida Inajar de Souza, Bairro do Limão, São Paulo, onde corintianos teriam se vingado de palmeirenses, deixando dois mortos, clássico esse que ocorreu no Pacaembu, mas que as torcidas se encontraram 12 quilômetros do local da partida.

O hooliganismo é um reflexo da sociedade e que está presente até mesmo na Holanda, um dos países mais tolerantes e abertos do mundo, com PIB per capita de 40 mil euros, enquanto o do Brasil é apenas 9 mil, e taxa de analfabetismo em 0,1%. Mesmo com toda essa condição de vidar, torcedores se enfrentam até mesmo dentro dos estádios. Em 1997, Carlo Picornie, líder da torcida do Ajax, morreu após brigas com torcedores do Feyenoord, que usaram facas, martelos e correntes, e nem se quer havia jogo marcado no dia.

Na Inglaterra, algo que ajudou a resolver esse tipo de problema, foi a criação de uma legislação específica, onde se um cidadão invadir o campo, no dia seguinte terá um encontro marcado com um juiz, por exemplo. Não existe essa impunidade como no Brasil, que brigas, invasões, mortes, nada recebe a consequência necessária e por isso torna-se essa bagunça.

A própria organização dos campeonatos pode ajudar ou piorar a questão da violência nestes casos, tanto a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), quanto a FPF (Federação Paulista de Futebol) estão envolvidas em casos de corrupção, esse dinheiro que é desviado poderia estar sendo usado no melhoramento das estruturas dos estádios, acabando com os alambrados e construindo túneis que conectam a estação de trem até o estádio, por exemplo, para evitar que as torcidas se encontrem antes do jogo, antes como é o estádio do Feynoord, no Roterdã.

Em vez da polícia ser encarregada de fazer a segurança de dentro e fora do estádio, o clubes deveriam se responsabilizar em contratar um serviço específico e treinado para proteger sua própria torcida pelo menos enquanto dentro da arena.  Afinal, os clubes são os maiores responsáveis pela festa, então puna de forma adequada e sofra as consequências, na altura, como multas, perda de mandato de jogos e assim por diante, de maneira que a impunidade se extermine de uma vez por todas.

Essas considerações não acabam com a festa, apenas fazem uma manutenção para que o futebol continue sendo uma das maiores manifestações culturais deste País e que suas mais tradicionais características sejam mantidas, alimentando cada dia mais o “fogo” desse esporte que tem um enorme valor histórico.

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