Por Maria Fernanda Schwartsman

 

A imagem do gesto de retângulo representando uma televisão feito pelo juiz de futebol começou a fazer parte da rotina do espectador do esporte. Mas o que deveria significar um alívio para o torcedor, que finalmente poderia contar com a tecnologia para acabar com os tão polêmicos erros de arbitragem, acaba atrapalhando mais do que ajudando. Desde a Copa do Mundo na Rússia, o VAR (Video Asssistant Referee, ou Árbitro  Assistente de Vídeo em tradução livre) vem sendo assunto controverso em todas as discussões acerca do futebol, seja nos programas de televisão, nas mesas de bar ou nos textões nas redes sociais. Entretanto, a discussão segue o caminho errado. Em vez de se discutir o VAR em si, deve-se discutir como ele vem sendo utilizado e interpretado.

Como o VAR não é uma pessoa, não tem autonomia para tomar decisões, então o criticado nesse caso deveria ser o seu intérprete, o juiz, único em campo com o poder de decisão. Todavia, grande parte deles ainda não estão preparados para lidar com a tecnologia a seu favor. A cada jogo, em qualquer campeonato que seja, surge ao menos uma nova polêmica por falta de entendimento da real função do árbitro de vídeo. Jogadores pedem imagens para resolver laterais e juízes o usam como ‘muletas’ para não se comprometerem em suas marcações. É tudo muito confuso. Se nem os profissionais do esporte estão entendendo o funcionamento do vídeo, como é que desejam que os torcedores, que vêm tudo de fora, consigam entender plenamente? Não é a toa que as brigas não param.

São poucos os tipo de lances em que o VAR pode ser consultado. Pois bem, são eles: (1) gols – posicionamento regular ou não, bola entrou ou não etc; (2) pênalti – realmente foi dentro da área, é falta etc; (3) cartões vermelhos – se foi correta ou não a aplicação; (4) erro de identidade de jogadores.

Além da confusão do não entendimento do mecanismo, outro problema que acompanha o VAR é o fator do dinamismo do futebol. Em outros esportes como o vôlei ou o futebol americano, em que o lance obrigatoriamente está encerrado quando da consulta ao vídeo, no futebol o lance polêmico pode ocorrer sem encerramento na jogada. Por exemplo em um lance em que é cogitada a marcação de um pênalti, não necessariamente a bola está parada, podendo desse lance sair um gol, ou pior, o juiz pode parar o lance e decidir que não se deve marcar o pênalti, impedindo um possível contra-ataque do time adversário.

Por fim um problema, a princípio, mais fácil de ser resolvido, mas que ao mesmo tempo abrange mais do que “só” o problema do polêmico VAR. Apenas o juiz tem a autoridade no futebol. Seja para punir os jogadores, seja para validação ou não de lances , ou para solicitar a ajuda do vídeo, dependendo apenas de sua própria interpretação ou, no caso do auxiliar de vídeo, de sua própria dúvida.  Inclusive, a tomada de decisões depender exclusivamente de uma pessoa é um dos maiores absurdos do futebol, abrindo caminho para mais e mais discussões. Uma só pessoa pode se equivocar, pode ter entendimento errado, pode se influenciar, pode ser manipulada, entre tantas outras coisas que acabam por manchar o esporte tão fascinante que é o futebol! A meu ver, em relação ao VAR algo semelhante ao vôlei, deveria acontecer: a comissão técnica tem direito a um número de pedidos de “desafio”, podendo assim, quando lhe parecer cabível, contestar a decisão do árbitro e pedir revisão do lance quando julgar necessário.

Portanto, parem de reclamar do VAR, parem de dizer que o VAR é ruim, que o VAR é pior, que o VAR atrapalha, quando na realidade, o que é ruim e atrapalha é a interpretação do VAR. Por enquanto, o futebol não está sabendo usufruir da ajuda que lhe foi oferecida. Quem sabe com algumas explicações, alguns estudos e com alguns pontos melhorados ou esclarecidos o VAR venha, finalmente, a ser a solução da verdadeira polêmica do futebol: a arbitragem.

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