Como funcionam as seitas na era digital

O papel dos digital influencers e a manipulação de seitas abusivas

No dia 7 de Agosto o veículo de informação VICE, publicou em sua plataforma digital, uma notícia pouco tratada na mídia hegemônica, e que aborda reflexões importantes e muito palpáveis na conjuntura social e tecnológica da atualidade.

A matéria publicada refere-se à Teal Swan, uma figura pública que, através das redes sociais -principalmente o Youtube – usa de suas experiências pessoais para propagar idéias e ensinamentos para terceiros: espiritualidade, comprometimento, autenticidade, idealizações e suicídio. Swan alega ter poderes super-sensoriais, sendo capaz de ver o que acontece dentro do corpo das pessoas, podendo então ajudar na recuperação de memórias e traumas reprimidos da infância.

Em matéria, VICE aborda um questionamento acerca dos vídeos e ensinamentos de Teal Swan, que está sendo atualmente acusada, ao adotar uma abordagem um tanto quanto peculiar em seus vídeos sobre o suicídio.

Ao fazer referência a ‘seitas’, dificilmente a mente não vagará para uma sala escura onde um grupo de pessoas se reúne em volta de um pentagrama, faz sacrifícios e adora a Satanás. A palavra significa ‘selecionar’ ou ‘dividir’ e a real definição é complexa, mas engloba um grupo com doutrinas, ideologia, político, entre outros, divergentes do sistema dominante. As organizações seguem um líder vivo que professa práticas e doutrinas novas e não-ortodoxas. No entanto, grande parte das seitas da vida real tem aparência muito mais inocente.

Com 24 minutos, o vídeo “I want To kill Myself” (Eu quero me matar) possui 175.690 visualizações, e traz ensinamentos de Teal como: “Agora eu não quero que você se foque em algo positivo […] Eu quero que você deite no chão, e permita-se entrar em completo colapso […] Permita-se desistir fisicamente da sua vida e jogue-se no chão. Quando estiver no chão, eu quero que você se imagine morrendo […] Dessa vez, eu vou encorajar você a imaginar seu suicídio de forma consciente. Imagine como você quer se matar, e onde… imagine todos os detalhes sórdidos do seu suicídio”.

Embora Teal tenha negado as alegações de ser líder de uma seita, sua influência massiva na mídia social e suas práticas controversas em torno da depressão e do suicido chamaram a atenção de alguns estudiosos, como Janja Lalich, uma pesquisadora americana que se aprofunda em grupos de culto, autoridades carismáticas, relações de poder, ideologias e controle social.

Lalich vê esse tipo de terapia dramática como uma maneira de manipular as pessoas. “Eles podem ficar muito instáveis, e é com isso que Teal Swan está contando”, disse ela em seu blog pessoal. Até hoje, muitos membros da “Tribo Teal” dizem que só estão vivos hoje por causa de seus ensinamentos.

A procura por aceitação social pode levar pessoas a se tornarem vítimas de seitas abusivas, principalmente nos casos que envolvem a fé, pois a busca pelo divino, evolução espiritual, crença em forças ocultas e o fanatismo resultam na vulnerabilidade dos seguidores.

Claramente, nem todas as seitas são abusivas, mas diferenciá-las não é um trabalho fácil, visto que os sinais, a princípio, são sutis e envolvem a ideia de ‘compartilhar’ tudo o que tem, seja em forma de dinheiro, alimentos, entre outros, como prova de devoção. A promessa que a seita apresenta para solucionar um problema que aflige a vítima é o gatilho inicial, a isca. Quando a vítima morde, dificilmente se negará a seguir o “manual” da seita. A vítima se torna aberta para manipulações de todo tipo.

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De acordo com Daniele Cavalcante, especialista em seitas, entre as regras e os dogmas, os membros se sujeitam a um ambiente de vigilância e suas vontades individuais são substituídas por um objetivo coletivo, induzido por um líder. “Perde-se a individualidade e cumpre-se cada vez mais uma lista de atividades conjuntas, muitas vezes humilhantes, que cada vez deixam a mente mais suscetível a sugestões mais e mais abusivas, tudo isso em nome de “um bem maior”.

Em entrevista ao Jornal Contraponto, Cavalcante,  que escreve para o Medium, afirma que em meio a era digital, os grupos fogem do estereótipo dos filmes e não envolvem mais comunidades afastadas ou o uso de roupas extravagantes. “Estão muito mais infiltrados na sociedade atual do que imaginamos, no grupo do qual fiz parte, falávamos com os alvos sobre muitos assuntos relacionados à política, economia, arte, cultura, tecnologia – qualquer coisa que despertasse o interesse das pessoas.”

O uso de aplicativos digitais também são ferramentas que colaboram com os grupos para que ocorra manipulação em diversos segmentos. “Fazíamos conferências por Hangouts sobre os mais variados temas. Criamos várias empresas. Os “líderes” ganharam projeção no meio das startups, um tema que interessa muita gente com o perfil que eles buscavam. Criaram grupos colaborativos de desenvolvimento de software, usando uma abordagem capaz de atrair muita gente. Tudo com o objetivo de conhecer aqueles que pudessem se tornar um “alvo fácil”. Qualquer conversa poderia ser um meio de introduzir sutilmente os pensamentos da seita.” afirmou, Cavalcante.

Hoje, qualquer pessoa carismática com grande poder de persuasão pode se tornar um fenômeno como “influenciador digital”. E influenciar pessoas, de acordo com a especialista, é a função de um líder de seita. “A seita pode ser aquele grupo de “marketing multinível” que se reúne por skype. Até mesmo o “mestre” de auto-ajuda que grava vídeos, como é o caso da Teal Swan. Ou aquele cara que grava vídeos e podcasts com opiniões sobre as eleições. Os grupos não dependem mais de propagação boca-a-boca. Em tempos de “fake news”, a internet tem o poder de validar qualquer coisa, por mais absurda que seja.

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