Os impactos do preço dos ingressos no futebol brasileiro

Por João Guilherme de Lima

Sendo o esporte mais popular do Brasil, o futebol sempre teve como uma de suas principais características o poder de mover e trazer grandes massas para seus espaços, sejam eles bares, reuniões na casa de amigos e, principalmente, os estádios. É um grande evento cultural e um grande evento sociológico. Contudo, especialmente após a Copa do Mundo de 2014 e a construção de arenas em todos os cantos do País, muitos executivos passaram a ver o futebol não mais como um esporte que tem como um de seus principais objetivos a festa e a convivência dos mais diferentes grupos e classes de pessoas, e sim como um negócio que visa quase que somente o lucro. E esse lucro é obtido, em sua maioria, sobre os ingressos, que antes abriam a possibilidade de as camadas mais populares da população assistirem aos jogos, mas que hoje afastam estes grupos das arquibancadas.

Os preços dos ingressos aumentam a cada ano e, com isso, os torcedores das classes mais pobres deixam cada vez mais de irem aos estádios para acompanharem o time do coração, sendo a extinção das famosas “gerais” (setores com ingressos a preços populares) de estádios como o Mineirão e o Maracanã só um exemplo disso. Mas, como colocado anteriormente, há quem entenda que isso seja um processo natural do futebol. Dirigentes de clubes já chegaram a afirmar que “futebol não é coisa para pobre”, que “futebol não é público, não é forma de ajuda social”, e também que o muro social que existe no futebol é uma coisa normal.

E estas ideias não são isoladas. Muitos clubes cobram caro pelos ingressos avulsos para que assim tenham cada vez mais sócio-torcedores, planos em que o torcedor paga um valor fixo a cada mês para que assim tenha algum tipo de vantagem na compra dos ingressos, seja ela com um menor valor de compra, ou com a possibilidade de comprar o seu ingresso de forma antecipada. Entretanto, um plano de “sócio” que de fato dê um desconto para o torcedor (desconto de pelo menos 50% do valor ingresso “cheio”) custa em média R$ 100, valor esse que boa parte da população não pode destinar exclusivamente ao futebol. Mas este ponto dos sócio-torcedores será abordado de maneira aprofundada mais adiante.

E esta questão do alto custo dos ingressos não fica somente dentro da bolha dos clubes. A CBF, no artigo 16 do capítulo V do regulamento do Campeonato Brasileiro, define que o preço mínimo dos ingressos cobrados pelos clubes mandantes deve ser de R$ 20 a meia e R$ 40 a inteira. Com isso, se um clube quiser fazer uma promoção que baixe ainda mais o preço dos ingressos, ele mesmo (ou com a ajuda de seus patrocinadores) deverá arcar com os custos da diferença entre esses R$ 20/40 reais e o valor que será cobrado. O argumento usado pela entidade máxima do futebol brasileiro para este limite no preço dos ingressos é o de que ela tem, todos os jogos, despesas com os exames de doping e com as taxas pagas aos árbitros, e por isso cobra dos clubes um percentual das rendas obtidas com a bilheteria das partidas. Contrapondo esta justificativa, os clubes entendem que, por ser a organizadora do campeonato, a CBF deveria cobrir estes valores com o auxílio de seus patrocinadores.

Como exemplo em que um clube teve de arcar com a diferença do preço dos ingressos cobrados em um jogo em relação ao que é estipulado pela CBF temos uma partida disputada entre São Paulo e Bahia. Na ocasião, a diretoria do clube paulista promoveu a venda de ingressos para toda a arquibancada do estádio do Morumbi por apenas R$ 1. Porém, como observado anteriormente, o valor mínimo estabelecido pela CBF é de R$ 20, e foi aí que o São Paulo recorreu aos seus patrocinadores. Para que o plano fosse colocado em prática, ocorreu a seguinte divisão: o clube arcou com R$ 10, enquanto dois patrocinadores bancaram os outros R$ 9, fazendo com que o torcedor que quisesse assistir à partida em qualquer setor da arquibancada tivesse de pagar somente R$ 1. Neste jogo, o público no Morumbi foi de 60.485 torcedores, o que demonstra o sucesso desta promoção.

Mas jogos com ingressos baratos no Brasil são casos isolados. Quando colocamos em pauta uma comparação entre o preço dos ingressos no Brasil com o de outros países, vemos que os clubes brasileiros estão em “dívida” com seus torcedores. Em um estudo realizado por Oliver Seitz, consultor de Football Business do Johan Cruyff Institute, de Barcelona, foram coletados dados que comprovam que, para as camadas mais pobres, o ingresso brasileiro é o mais inacessível do mundo. O cálculo foi o seguinte: dividiu-se o salário mínimo pela carga horária de trabalho de cada país, e depois pelo preço do ingresso mais baixo disponível. Para se ter um estudo que abrangesse mais tanto os clubes como os países, as comparações foram feitas entre os campeões de oito ligas no ano de 2014, a alemã, espanhola, italiana, portuguesa, inglesa, francesa, estadunidense e argentina, além do Campeonato Brasileiro.

Comparando os opostos, podemos observar melhor a disparidade destacada anteriormente. Enquanto um torcedor brasileiro precisava trabalhar 10 horas e 18 minutos para comprar o ingresso mais barato do Cruzeiro (campeão brasileiro em 2014), um torcedor do Bayern de Munique precisava destinar apenas 1 hora e 48 minutos do seu trabalho para acompanhar uma partida do então campeão alemão. E esses dados refletem diretamente na baixa taxa de ocupação e na baixa média de público do campeonato brasileiro. Em 2017, a média de público do Campeonato Brasileiro foi de 15.968 pessoas, enquanto em países como Alemanha, Inglaterra e Espanha as médias foram de 44.646, 38.297, e 26.977, respectivamente. No que diz respeito à taxa de ocupação dos mesmos campeonatos, os números brasileiros também são desanimadores. O Brasileirão 2017 teve, em média, taxa de ocupação de 41%. Já os campeonatos Alemão, Inglês, e Espanhol alcançaram números muito mais expressivos: 91,78%, 95,22%, 72,44%, respectivamente.

Retornando ao ponto dos sócio-torcedores, é possível fazer um breve levantamento que explique, em partes, uma das maiores críticas feitas aos torcedores da nova geração, a de que muitos deles aparentam torcer mais para times estrangeiros do que para times nacionais. Os valores de um pacote de TV por assinatura e de um plano de sócio-torcedor ajudam a compreender o fenômeno. Para que o torcedor contrate um plano que dê a ele a possibilidade de compra de ingressos pela metade do preço, ele deve desembolsar pelo menos R$ 100, além de ter de comprar os ingressos dos jogos (para este levantamento foi usado um dos ingressos com o preço mais barato entre os clubes da série A do Campeonato Brasileiro, no caso, R$ 17,50). Para contratar um pacote de TV por assinatura que possibilite o torcedor ter acesso aos jogos das ligas alemã, espanhola e inglesa, ele terá o custo de R$ 110 por mês, e além disso, terá acesso a todos os outros canais da programação, de filme até jornais. Ou seja, se um apaixonado por futebol tiver de escolher entre um pacote de TV por assinatura que lhe possibilite assistir toda uma grade de programação, inclusive a futebolística, e um plano de sócio-torcedor, no qual ele ainda deverá de arcar com o valor dos ingressos dos jogos que desejar ir, ele provavelmente optará pela primeira opção (levando em conta somente a perspectiva econômica).

Entrando no quesito do time preferido dos torcedores da nova geração, caso um torcedor escolha um pacote de TV por assinatura, ele poderá assistir durante um final de semana, em média, 4 jogos das ligas espanhola, inglesa e alemã, enquanto do Brasileirão ele terá acesso a somente três jogos durante o mesmo período. Um placar esmagador de 12 jogos para os campeonatos internacionais contra somente 3 do Campeonato Brasileiro. Consequentemente, um torcedor de uma nova geração que cresça assistindo mais jogos de um campeonato estrangeiro, terá, sem colocar na mesa toda a influência da família no seu time brasileiro de coração, mais familiaridade com os jogadores e clubes de fora do Brasil. Esses exemplos mostram para as autoridades que atualmente dominam o futebol brasileiro que, ao tratá-lo apenas como um modelo de negócio, grande parte de seu público, em geral as camadas populares, estará sendo excluído de um esporte que leva consigo toda uma ideia de abrangência cultural e social. Seguindo este caminho, o futebol deixará danos econômicos e culturais de médio e longo prazos na sociedade brasileira.

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