Quatro a cada dez brasileiros não têm acesso à internet

Região Norte lidera a desigualdade com 40% da população desconectada

Inclusão digital: por que tão difícil?

Por: Giovana Guedes

Em junho deste ano, a pesquisa TIC Domicílios revelou que quase 4 pessoas a cada 10 ainda não têm acesso à internet no Brasil. Este déficit, no entanto, é pouco abordado em discussões políticas e programas de governo, como mostra a pesquisa.

O levantamento foi realizado em 350 municípios brasileiros e teve como objetivo a medição do acesso à internet por vários meios no Brasil. A pior situação é a da região Norte, em que 40% das casas entrevistadas não têm acesso total à internet – ou seja, conexão por banda larga. Outro dado que a pesquisa revela é a distância entre os mais ricos e os mais pobres: entre os pertencentes da D e E, 70% não têm acesso à internet. Já na classe B, 93% contam com essa facilidade.

Em entrevista, a mestre e doutoranda em geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Suelen Rosa afirma que “é inegável ver esse recorte de classe que acontece. Não é possível que um governo que corte os orçamentos como a PEC dos gastos fez ainda tenha alguma previsão de inclusão digital”.

Redução orçamentária

O Projeto de Emenda Constitucional aprovado em 2016 prevê o congelamento total em investimentos como saúde e educação por 20 anos – o que significa que, até 2038, o dinheiro investido nesses pilares da sociedade será o mesmo, sendo reajustados apenas pela inflação. Até 2028 não existe possibilidade de revisão do projeto.

A situação desencadeia um retrocesso na inclusão digital, que conta como base as aulas de informática e robótica em escolas públicas como uma maneira de inserção da tecnologia na vida das crianças de baixa renda. O Comitê para Democratização da Informática (CDI) é uma organização sem fins lucrativos que defende a necessidade de uma maior inclusão digital – uma vez que compreende que a vida do século 21 converteu-se em uma bolha informática, que horizontaliza as informações, mas também segrega. Segundo a ONG, “uma grande parte da população sofre de exclusão digital, uma realidade lamentável nos dias de hoje. A tecnologia e a informática são conhecimentos exigidos por grande parte dos empregadores e quando utilizadas como ferramentas de ensino obtêm grande sucesso. A internet é uma fonte inesgotável de informações e conhecimento que deveria ser livre para todas as pessoas”.

Inclusão digital

O termo “inclusão digital” nasce junto com o boom da internet, pouco depois dos anos 2000. Compreende-se como a tentativa de garantir acesso a toda a população, de forma distributiva e igualitária – uma maneira de fazer com que todos tenham acesso à informação em grande escala e personalizada para seus gostos, inclusive as pessoas de baixa renda.

A região Norte do país mostrou-se a mais preocupante quanto ao acesso à internet – número inversamente proporcional ao de trabalhadores escravos contemporâneos, que registra 27% dos casos de irregularidades de trabalho, segundo o Ministério do Trabalho. A questão social é indissociável da questão digital, que tornou-se cada vez mais um problema “invisível” para grande parte do país, que vive em uma bolha social e tecnológica – afirma Suelen.

Competitividade no mercado

Com a falta de noções básicas em internet, o mercado de trabalho fica cada vez menor para aquele sem acesso. E, por essa causa, cada vez mais trabalhadores sujeitam-se a condições de trabalho paupérrimas, que desencadeia trabalhos escravos contemporâneos.

Ainda segundo a pesquisa realizada entre novembro de 2017 e maio de 2018, o maior motivo para que os domicílios não tenham banda larga é o preço. O número de desempregados no Brasil já passa de 13 milhões. Uma pesquisa do IBGE de 2017 revela que mais de 44 milhões de brasileiros ganham menos de um salário mínimo. Segundo pesquisa da FGV feita pelo economista Samy Dana, o Brasil tem a segunda internet mais cara do mundo. Juntam-se os fatores e não é de espantar que o acesso à internet de banda larga não seja uma prioridade em domicílios de baixa renda.

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