Por Maria Eduarda Cury

Que o movimento #metoo, iniciado em 2017, dominou as premiações cinematográficas e promoveu uma certa reviravolta na indústria – tirando de cena diversos nomes relevantes – já se sabe. O escândalo inicial que impulsionou a popularidade do movimento, também. Com o auxílio do jornal The New York Times, a atriz Ashley Judd pôde expor sua história e denunciar Harvey Weinstein e, fazendo isso, abriu espaço para mais de vinte mulheres denunciarem o assédio que tinham sofrido do produtor de “Senhor dos Anéis”. No último Festival de Cannes, a atriz italiana Asia Argento fez sua declaração pública sobre ter sido estuprada por Weinstein, e trouxe para a premiação um foco quase que exclusivo na presença de mulheres importantes, ciomo Kristen Stewart e Cate Blanchett, que também utilizaram seu espaço para se posicionarem.

O movimento obteve um crescimento significavelmente grande e Argento, que tinha tido grande participação nisso, se tornou uma das principais vozes ativistas a favor das mulheres que estavam se expondo. No entanto, o que pouco se esperava era a cena de hipocrisia em que uma das líderes do movimento se encontraria meses depois: A atriz italiana foi denunciada por Jimmy Bennett, ator e músico com quem teve relações sexuais quando o garoto ainda tinha dezessete anos.

A atriz Rose McGowan, amiga de Argento e até então sua companheira na liderança do movimento, posicionou-se abertamente contra Asia após sua namorada ter recebido mensagens que comprovavam o abuso que Jimmy tinha sofrido; em sua defesa, Argento alegou não saber que Bennet era menor de idade. McGowan, assim como o público de maneira geral, sabia o impacto negativo que isso teria no movimento.

Que credibilidade tem um movimento contra o assédio sexual e abuso dentro da indústria cinematográfica, quando sua principal voz é autora de um assédio contra um menor de idade? Os argumentos a favor dessa ideia seriam – até um certo ponto -, coerentes, se o movimento se resumisse apenas ao pequeno universo hollywoodiano, que sobrevive de reputações e imagens. Como não é o caso, descredibilizar o movimento pela ação de Argento é ignorar todas as outras mulheres (e homens) que vieram à tona contra seus agressores, é permanecer normatizando situações que não podem mais ser normatizadas.

Para muitos membros da indústria – como o ator Sean Penn -, o movimento promove a rivalidade entre homens e mulheres; mas é por esse tipo de pensamento que atrizes como Amber Heard foram postas na mídia como golpista e que estaria atrás apenas do dinheiro de Depp, apesar de ser uma atriz reconhecida e existir fotos da agressão no rosto de Heard; Depp, em contrapartida, continua atuando em blockbusters de sucesso como o spin-off de Harry Potter: Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Apesar do movimento estar presenciando um momento “estável” e um tanto esfriado, considerá-lo inútil – em qualquer aspecto que seja – é fechar os olhos para o momento que a sociedade norte-americana está vivendo: ele está se mostrando presente, inclusive, no judiciário: Brett Kavanaugh, juiz indicado por Trump para pertencer ao Supremo, foi acusado por Christine Ford, que fez uso do #MeToo para denunciá-lo. Com apenas 23% dos norte-americanos achando que o movimento é favorável e útil e a acusação podendo ter um teor político, a situação não é positiva para Ford nem para o movimento.

É, no entanto, inadmissível reduzir um movimento cuja intenção é desmascarar agressores e abusadores devido à algumas possíveis confusões e falsas acusações – caso sejam. Não é mentira que o #MeToo ainda está focado demais na elite de Los Angeles (o que também é um fator desfavorável, aos olhos de muitos), mas, para ter a chance de alcançar as vozes menos ouvidas da cidade, ele precisa ser tratado com mais seriedade e atenção do que está sendo; a contribuição que ele trouxe para o estudo do feminismo nos Estados Unidos já é um grande avanço para a conscientização.

Para que continue ter algum efeito, é necessário que se apurem corretamente as investigações e parem de ocorrer apenas acordos por troca de dinheiro – como foi com Amber Heard e Johnny Depp – para encerrar o caso. Hollywood é um centro quase que puramente dominado por homens e não há previsão para que isso chegue a mudar tão rapidamente; é preciso identificar esses homens – e mulheres – e tratá-los, de fato, pelo que são: criminosos.

“Mas separar arte do pessoal, nesses casos, é necessário.” Acredito que esse seja o argumento mais conhecido para tentar justificar o livramento desses acusados de suas denúncias; esquecem-se de que a arte é pessoal, ser ator/atriz se trata de uma profissão puramente humana e não tem razão para tratar o assunto com menos seriedade só porque o nome em questão atuou em ou dirigiu filmes reconhecidos.

Além de Depp, personalidades como Lars Von Trier, os irmãos Affleck, Steven Seagal e Ed Westwick são só alguns dos acusados que terão suas denúncias descartadas, por “falta de evidências” para prosseguir com o caso (lembrando que as acusações contra esses não foram uma ocorrência singular). Hollywood, de maneira geral, vêm falhando completamente em proteger e amparar essas pessoas que foram violentadas/assediadas e tiveram a coragem de expor-se contra nomes grandes; é tradicional que o dinheiro mova tudo e delete as denúncias, mas a indústria precisa passar por uma renovação e o movimento precisa se esforçar para cumprir o que prometeu. 

Como andam as mulheres e meninas que foram encorajadas a exporem suas histórias e agora permanecem -novamente – no escuro? Onde está a promessa de que teriam uma possibilidade de vingar-se da violência que sofreram? É necessário, agora mais do que nunca, que o posicionamento a favor do movimento aumente para essas mulheres não caírem – ainda mais – no esquecimento. Atrizes e atores, além de conhecidos membros da indústria e os que estão começando, posicionem-se e cumpram com o objetivo. A causa é importante demais para ser ignorada e deixada ao canto. 

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