Por Júlia Pestana

Saindo do trampo desgastante, dos incansáveis telefonemas e da preguiça de encarar o chefe, a gente só pensa nas pernas para o alto quando chegar em casa. Em uma sexta à noite, recebo uma mensagem do meu amigo para ir ao bar “continuar os trabalhos”, como diz ele e eu respondo com “a noite é uma criança”, já esquecendo completamente o meu desejo de chegar em casa. Isso acontece toda sexta-feira, religiosamente, do mesmo jeitinho, a mesma história, quase como um déjà vu. A única coisa que muda é a barriguinha de Chope que só cresce.

As garrafas de cerveja e o riso solto desmascara o bairro. Poucos minutos andando por lá e você já estava com os tênis encharcados de álcool e a sola forrada de confetes do carnaval passado. Um jovem com olhos marejados de lágrimas e as pernas desengonçadas passou ao meu lado e gritou: “Como eu amo essa Vila dos Farrapos” (Vila Madalena para os íntimos), soltando uma gargalhada com bafo de 30 latinhas e já me deixando bêbado por tabela.

A Vila Madalena foi engolida por bares. O bairro tem mais bares do que gente. Os moradores reclamam da barulheira, mas não tem jeito, eles são a sua marca registrada. Ai,ai, como é boa essa vida boêmia, não? Quem não concordar é porque perdeu os happy hours e não desfrutou de um momento bom de conversa boba regada a breja.

Já no bar com os meus amigos é sempre a mesma história: sentamos a uma mesa em que não cabem todos os amigos, namorados, conhecidos, desconhecidos e estranhos ficando todos bem apertados, podendo matar aquela saudade e nos fazendo enjoar no segundo seguinte. “A primeira leva é por minha conta”, grita o amigo que está mais estabilizado no seu emprego, já o resto sorri mais do que sorriu na formatura da faculdade. Em seguida, papo vai e papo vem, um grupo só falando sobre as peripécias do amor, com as suas brigas, crushs e risadas, e outro apenas discutindo o time do peito que passou para a final e sempre com um grito de fundo: “o Palmeiras não tem mundial!”

Também chega a hora em que o veneno escorre da boca de todos, falando mal daquela amiga que não aparece mais nos encontro, pois agora só sai com o namorado, e também a língua solta que fala sobre o termino da fulana, o barraco da sicrana, e a briga do beltrano, terminando com um “o que acontece aqui morre aqui”, mas todos sabemos que fofoca tem vida longa e uma boa saúde.

Uma coisa é fato, conversas de bares não podem ser levadas muito a sério. As pessoas querem relaxar, acabam bebendo mais e falando muito, desenvolvem filosofias de vida e soluções amorosas. O bar vira a Câmara dos Deputados quando se trata de debate político, mas todos são do partido dos bêbados sem noção. Também há a parte nostálgica sobre como cada amigo se conheceu, do tipo “nossa, lembra que eu cortei o seu cabelo na quarta série”.

Depois de incansáveis discussões, emoções e risadas me perdi pela estrutura do bar e, como em uma visão panorâmica vi várias mesas, com amigos bebendo, falando sobre a vida, o término, o futebol ou o barraco. Tudo se repetia, como déjà vu multiplicado, todos passavam pelo mesmo momento. O riso solto e largo transmitia felicidade e ecoava por todo o bar, todos os bares e por todo o bairro. A Vila Madalena foi tomada por inconstante felizes e despreocupados; ela respirava a vida.

Os amigos já se despediam do copo sem cerveja que foi parceiro àquela noite. Também se despediam uns dos outros com um corpo já mole implorando pela cama, uma bochecha que abusou da gargalhada e com um “até a próxima!” que, mesmo parecendo distante, já sabíamos que seria na próxima sexta-feira.

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